Future Islands - Singles

Future Islands
Singles

4AD

Lançamento: 24/03/14

Com cada álbum que lança, o Future Islands parece tentar construir um monumento às dores do amor e aos corações partidos. Felizmente, eles não fazem isso com músicas cabisbaixas e sem graça, como tantas outras bandas. Em geral, os contos de desilusão amorosa cantados por Samuel T. Herring, cuja voz só pode ser comparada à do Fish, ex-cantor do Marillion, em termos de dramaticidade, são acompanhados de ritmos surpreendentemente dançantes. Mesmo quando os andamentos diminuem, os arranjos precisos do tecladista Gerrit Welmers e do baixista/guitarrista William Cashion costumam trazer detalhes interessantes para as músicas. Mas sempre faltava algo para que as canções  do grupo conseguissem exprimir toda a intensidade de sensações que as letras de Herring sugerem. Até esse disco.

Em Singles, a voz de Herring tem todo o espaço que ela pode querer. Welmers e Cashion parecem ter propositalmente simplificado suas participações a fim de deixar os holofotes para o cantor. O baixo de Cashion, em particular, parece ter deixado para trás as linhas melódicas estilo Peter Hook e assumido uma posição mais de apoio. Não tem problema, porque a voz teatral e até mesmo exagerada de Herring ocupa todas essas lacunas. Quase todas as melodias memoráveis do disco vêm do gogó dele, e os momentos mais sem graça do disco são os poucos em que ele não consegue aproveitar o destaque que a banda dá a ele, como as inofensivas “Light House” e “Back In The Tall Grass”. Mas nas ótimas “Seasons (Waiting on You)”, “A Dream Of You And Me” e na excelente “Spirit”, ele rouba completamente a cena, e é até difícil lembrar que existe uma banda servindo de plataforma para ele chegar tão alto.

As letras de Herring às vezes são um pouco (e às vezes muito) bregas, mas não importa. Ele “vende” cada linha de suas letras batidas como se ele fosse a primeira pessoa a sentir essas coisas e exprimí-las desse jeito. O refrão de “Doves” é “Oh baby don’t hurt me no more”, mas você só percebe o quão óbvio e clichê isso é depois que você já está curtindo e cantando junto. De forma semelhante, em “Like The Moon”, Herring canta “She looks like the moon/So close and yet so far”, mas de uma forma tão sincera que você até para pra pensar se não há algo de mais profundo nessa frase bobinha. Há uma ameaça muito real de que esse peso melodramático todo afunde as canções, mas isso só acontece na penúltima faixa, “Fall From Grace”, uma balada reflexiva de arranjo gélido cujo refrão tem um grito tão exagerado que não há nível de tolerância a drama que aguente. É até bem inteligente que essa faixa apareça tão no fim do disco, porque ela, de tão excessiva, acaba jogando uma luz cômica em todo esse estilo emocionalmente “pesado” do grupo.

Mas há coisas boas no álbum além dos belos vocais. No refrão de “A Song For Our Grandfathers”, em particular, Welmers e Cashion trazem pelo menos uma bela melodia cada um. Eles criam um swing legal no começo de “Sun In The Morning”, depois complementam bem a melodia da voz no refrão, e a própria “Like The Moon” não tem nenhum gancho imediato, mas se mantém interessante graças ao clima reflexivo que os dois mantêm ao longo da faixa. É também graças à economia de meios deles que as faixas não se desfazem sob o próprio peso.

Talvez o mais impressionante de Singles seja o fato de que ele tem praticamente tudo para dar errado, mas dá certo. As letras excessivamente melodramáticas e a presença gigantesca de Herring poderiam, muito facilmente, transformar o álbum num naufrágio sem sobreviventes. No entanto, os arranjos interessantes e concisos das canções conseguem dar uma forma acessível e envolvente a esses dramalhões e tornar a persona do cantor mais humana e próxima. Diferentes ouvintes traçarão em lugares diferentes a linha entre o que é aceitável e o que não é em termos da dramaticidade das canções, mas o fato de que Singles é o álbum no qual o Future Islands melhor desenvolveu seu estilo é difícil contestar.

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