“Galanga Livre” o disco do Rincon Sapiência para dar o play agora!

O rapper e compositor Rincon Sapiência posa para retratos na Bela Vista, centro de São Paulo. Foto: Renato Stockler

Este disco poderia ser facilmente de qualquer artista negro que tivesse coragem de colocar o dedo na ferida, mas calhou de ser do Rincon Sapiência, rapper paulistano que lançou na última quinta-feira (25) seu primeiro álbum completo, Galanga Livre. Calma, não estou desmerecendo o trabalho do cara, estou apenas dizendo que tudo o que ele fala é de extrema importância e está totalmente ligado a situação do negro hoje no nosso país.

Em entrevista recente para o jornalista Pedro Bial, no programa que lidera hoje na TV Globo, a ex-consuelesa da França no Brasil, Alexandre Loras, disse que a imagem que se vende no país lá fora é muito boa, “parece que está tudo resolvido”, conta ela no programa. Mas a gente sabe que não tá. Não faz muito tempo que soubemos pela Folha de S. Paulo, que um rapaz negro muito qualificado não conseguiu nem conversar com o recrutador, porque ele “não entrevistava negros“.

E o absurdo vai além, quando temos apenas 18% dos negros na elite e não falamos que um país que tem 54% de sua população negra não tem a representatividade que merece. Na música isso tem mostrado cada vez mais entusiasmador. Puxa pela memória e veja quais foram os artistas que realmente se destacaram nos últimos dois anos. A gente ajuda: Liniker, Karol Conka, Baianasystem, Elza Soares, Emicida, Criolo, Mahmundi, Rico Dalasam, Linn da Quebrada… E sabe qual é o melhor dessa lista, não temos só homens e nem temos só héteros! UAUUUUU!

E nessa linhagem de grandes nomes, temos agora o Rincon, que já estava ali trabalhando sua carreira no pianinho. Um EP, participação em vídeo para a Caixa, clipizinho e por aí vai, acho que a maioria das pessoas não fazia ideia do que vinha por aí. Uma das músicas que mais de destaca com certeza é “A Coisa Tá Preta”, o motivo? Lembra que você passou anos da sua vida falando que “a coisa tava/tá/ficou preta”, porque deu tudo errado? Então, nesta letra, Rincon simplesmente inverte essa lógica e manda essa: “Se eu te falar que a coisa tá preta a coisa tá boa, pode acreditar! Seu preconceito vai arrumar treta, sai dessa garoa, que é pra não moiar”. Pow, pow, pow!

O disco é cheio de tiros como esse. Outra música que já ganhou videoclipe foi “Ponta de Lança”, que faz um belo resumo do que é ter orgulho ser negro.

Mas o que difere o Rincon se esse é um discurso que poderia (e deveria) estar na boca de vários artistas negros? O que difere além do jeito de rimar (e falar claramente sobre o racismo) é também a mistura que ele faz de rap com ritmos africanos, como o samba, sim, porque o samba tem raízes africanas (beijos!). O disco foi produzido pelo próprio Rincon em parceria com William Magalhães, da banda Black Rio e ambos conseguiram fazer o álbum dançante, provocador e cheio de atitude. Parabéns!

Dá play em Galanga Livre: