Garbage ao vivo: Wolverhampton e Manchester

Hoje, 9 de julho de 2012, faz uma semana desde que eu vi minha banda preferida pela primeira vez. O Garbage tocou em Wolverhampton, na Inglaterra, como parte de uma turnê britânica que também passou por Londres e Manchester (onde também estive) e terminou na Escócia na quarta-feira passada.

Estava na Inglaterra para ver os antológicos shows de retorno dos Stone Roses. O Garbage marcou suas apresentações quando tudo já estava comprado, e as datas eram logo em seguida, cabiam perfeitamente na agenda. Foi uma das melhores coincidências da minha vida. Esperava desde 1998 para poder vê-los ao vivo e agora era a hora.

O show em Wolverhampton era em um lugar chamado Civic Hall, não muito distante da estação de trem onde desci. Os portões abriram às 19h e eu consegui me garantir na segunda fila. Podia ter me enfiado na grade, mas eu estava confortável onde estava. Além disso, fiz amizade com uma menina que estava do meu lado, nascida na África do Sul e fã fiel assim como eu, e gastei o tempo conversando com ela.

Quando deu 21h, as luzes se apagaram e eu soube que era chegada a hora. Anos e anos da minha vida se passaram na minha cabeça enquanto o lado-b “Time Will Destroy Everything” explodia nas caixas de som, antecipando a entrada da banda. Os cinco não demoraram. Primeiro entraram os instrumentistas: Duke com seu indefectível terno e gravata, Butch de camiseta e Steve com seu boné, os três nas mesmas posições que ocuparam durante todos os shows de todas as turnês. Eric Avery, o baixista de estrada, se colocou discretamente ao lado de bateria. E, ao som dos pesados riffs de “Supervixen”, canção que abriu a maioria dos shows do Garbage na carreira da banda, Shirley Manson entrou saltitando, com o sorriso que lhe é característico. A sequência com “I Think I’m Paranoid”, um dos maiores hits, é matadora, e a plateia já estava entregue nesse momento.

Um dos trunfos desta turnê é que o setlist é quase impecável. Todos os hits estão ali, misturados com algumas preferidas dos fãs e com as melhores do novo álbum. É claro que dá para apontar ausências (a principal para mim é “Hammering In My Head”), mas 21 músicas é suficiente para garantir a felicidade. Além disso, o público de Wolverhampton estava decididamente em chamas. Pulava loucamente nos refrões e cantava tudo. Gostei que meu primeiro show do Garbage era com uma plateia que representava.

“Shut Your Mouth” e “Metal Heart” completam a intro enérgica e aí entrou “Queer”, em que Shirley derrete corações com seu “tchururu tchururu” e constrói antecipação para um final apoteótico, em que as guitarras urram enquanto a vocalista acusa alguém de ser “nothing special here, a fake behind the fear, the queerest of the queer”. Quando a música acalma de novo, Shirley nos olha com seriedade. “You can touch me if you want”, ela diz. “But you can’t stop”.

“Stupid Girl”, agora com um fundo eletrônico (dispensável, pois a linha de baixo da música é fantástica) põe a galera para pular de novo e “Why Do You Love Me”, o inesquecível single de 2005, acelera ainda mais as coisas. Aí vem a nova “Control” e Shirley reclama: “this is our new single, but only in the US because unfortunately they don’t play rock music in the UK radio anymore”. É parcialmente verdade – o Reino Unido vive uma fase terrível em termos de música popular –, mas o fato de que todo mundo sabia a letra de “Control” está aí para provar que nem tudo está perdido.

Depois da inesquecível “#1 Crush”, a banda manda um de seus maiores hits, “Cherry Lips”, com Shirley apontando o microfone e pedindo para cantarmos os “go baby go” da letra. Ela é prontamente atendida. O show segue com ótimos momentos até o final perfeito: “Bad Boyfriend”, “Push It” e “Vow”, três guitarradas que mostram o peso do Garbage e a habilidade da banda fora do estúdio. Vem o bis e, antes de encerrar com “Only Happy When It Rains”, Shirley faz a plateia cantar o nome dos outros integrantes. Empolgada, ela começa a citar coisas aleatórias, ao que público respondia cantando. No final, o single de 1995 cumpriu a tarefa de encerrar o show com um ponto alto. Não que tenha havido baixos. A cereja do bolo desse show foi eu ter conseguido pegar o setlist do Steve.

O show de Manchester, no dia seguinte, seguiu praticamente o mesmo setlist. O fato de ser Manchester fez diferença. Shirley se derreteu em elogios à cidade e contou a seguinte história: muitos anos atrás, quando fazia turnê com sua antiga banda, Goodbye Mr. Mackenzie, Shirley tocou em Manchester e teve o show aberto por ninguém menos que os Stone Roses. Anos depois, já com o Garbage, Shirley foi ao programa Top Of The Pops se apresentar e encontrou Ian Brown no camarim. O cantor mancuniano foi até ela e a lembrou de que, anos atrás, ele havia aberto um show para sua banda. Shirley, aos risos, nos contou que se fez de blasé e fingiu que não lembrava.

Depois disso, em um outro interlúdio, Shirley pediu para que cada integrante dissesse alguma coisa. Eric Avery agradeceu a cidade por ser a terra natal de seu baixista preferido, Peter Hook (New Order) e Butch lembrou-se de uma vez em que a banda, sem querer, impediu que Hook entrasse no backstage de seu show. “When we realized it was Peter Hook, we saw what jackasses we were”, contou. A plateia aplaudiu as anedotas.

Também nesse show, Shirley quis conversar com alguém da plateia. Levantei os braços pedindo que fosse eu, e Shirley me viu, mas escolheu uma menina. Perguntou a banda preferida dela, e a menina disse No Doubt. Perguntou o que a menina queria ser, e ela respondeu “you”. “Me?? But don’t you wanna be Gwen, since your favourite band is No Doubt?”, Shirley perguntou rindo. A menina não soube responder.

Esses pequenos momentos entremearam um grande show, que foi ainda mais especial para mim porque consegui um papel autografado por toda a banda, com dedicatórias. Isso foi feito antes do show, quando encontrei Billy Bush (engenheiro de som do Garbage e marido de Shirley) na rua de trás da Manchester Academy e pedi a ele algo da banda. Ele voltou 10 minutos depois com o papel.

Voltei para o hotel em êxtase depois de Manchester, com a certeza de ter visto dois dos shows mais importantes da minha vida. O Garbage, assim como os Stone Roses, foi tudo que eu esperava que fosse, e o prazer de ver as músicas que marcaram minha vida sendo tocadas uma após a outra era inigualável. Desci do ônibus e segui para o hotel tocando o álbum Version 2.0 no meu celular. Depois de quatro dias de shows, não tinha mais forças pra nada. Só para deitar na minha cama e ficar feliz porque vivi para ver isso.