Garbage – Not Your Kind Of People

“I still get you, do you still get me?” pergunta Shirley Manson lá pelo meio de Not Your Kind of People, retornando de uma dolorosa ausência de sete anos da cena musical. Após a indagação, as guitarras de “Felt” reverberam em êxtase nos alto-falantes e a sensação de que, sim, o Garbage ainda nos entende, fica mais certeira do que nunca. A recíproca também é verdadeira, pois bastam algumas poucas audições do disco para comprovar que não havia por que temer que o Garbage não fosse entregar um álbum bom desta vez. Shirley dissipa os medos – “they’re only feelings baby, they’re only feelings” – e dispara o poderoso uivo escocês que marcou os anos 90. O Garbage está de volta.

Not Your Kind Of People demorou todo esse tempo para ser feito por causa de problemas que só foram revelados agora. Em 2005, ao lançar o álbum Bleed Like Me, a banda teve problemas com a gravadora, que estava insatisfeita com as vendas do disco. Cansados da indiferença e das cobranças, os quatro membros pararam a turnê no meio, anunciaram um “hiato indefinido” e foram cada um para seu canto. Em 2010, eles se reuniram em um estúdio sem compromisso e, quando viram, estavam compondo. Era a gênese do novo disco.

De 2005 pra cá, o mundo viu surgir dezenas de bandas que misturam estilos, mas nenhuma que fizesse como o Garbage o mix de rock, pop e eletrônica que marcou hits como “I Think I’m Paranoid” e “Only Happy When It Rains”. Um dos estímulos para a volta, disse Shirley, era que, mesmo após tanto tempo, ninguém havia “tomado o assento” do Garbage. O mundo estava guardando o lugar, será? Nah, eram os fãs mesmo, e foi para eles que a banda fez seu novo trabalho.

Not Your Kind Of People é isso, desavergonhadamente: uma ode aos fãs esquisitos que sempre fizeram a fama da banda, mesmo na época em que ser esquisito não era legal e em que a luta contra demônios internos ainda não havia sido comprada pela indústria e transformada no emo. A faixa-título, uma balada em que a voz de Shirley passeia sobre um riff simples de piano, é um hino de auto-afirmação perante esses estranhos, esses outros. O vocal é modulado várias vezes durante a música, causando uma viagem sonora um tanto desconfortável, mas – esta é a palavra-chave – adequada. No final, a voz de Shirley, limpa, afirma resoluta: “we are extraordinary people, we are”.

Essa pose passivo-agressiva, que marcou tantas boas músicas do Garbage, também aparece na faixa de abertura, “Automatic Systematic Habit”, um electro-rock que soa como um cruzamento entre o Goldfrapp e os Foo Fighters. “Lies, lies, lies / You love those lies / And you’re so bad at it” acusa Shirley enquanto os sintetizadores explodem qualquer pista de dança que arrisque tocar a música. É o mais próximo do mainstream em que o Garbage jamais esteve e, ainda assim, não soa errado. Os ganchos e riffs contagiantes vêm às pilhas e nem parece que a intro foi tirada de uma música do Cream.

“Big Bright World”, com seus sintetizadores mais comportados, começa quieta e só explode após o primeiro refrão. Nesse ponto, a bateria está frenética e as guitarras soam como sirenes de tanta urgência. Dá para cavar o rock debaixo de tantas camadas, mas o excesso de produção é evidente aqui, assim como no primeiro single, “Blood For Poppies”, que traz um pecado mortal: um refrão que Shirley não consegue reproduzir ao vivo. A banda divulgou um vídeo ensaiando a faixa que mostra como, sem as trucagens de estúdio, ela fica bem melhor. Na versão do álbum, porém, a base dub com os vocais em um ritmo quase reggae não funcionam direito. Uma pena, pois é uma das melhores letras que a banda já fez.

“Control”, um grande momento, começa acústica e depois vira um rock industrial pesado e intenso, que remete às melhores músicas do Nine Inch Nails. O refrão poderoso traz Shirley se entregando nos versos (“I confess I’ve lost control, I let my guard down”) até que tudo para e apenas o baixo é ouvido. A banda retorna explosiva para um refrão final em que Shirley pede: “feel my hunger”. E dá para sentir.

“Felt”, a música em que Shirley pergunta se nós ainda a entendemos, é a primeira tentativa do Garbage, em mais de 15 anos de banda, de fazer shoegaze, e funciona até que muito bem. “I Hate Love”, herdeira direta do segundo álbum, Version 2.0, fala do sentimento universal de gostar de alguém e não ser correspondido, com um riff sintetizado capaz de animar qualquer festa – só podia ter menos versos para ficar mais simples. A intimista “Sugar” fala da ânsia de ser emocionalmente dependente de outra pessoa. A melodia agrada pela simplicidade e – por que não? – pela ternura.

A primeira música gerada pelos encontros de 2010, “Battle In Me”, ganhou espaço no disco e virou até single. Com um baixo pulsante e Shirley emulando Karen O, a faixa é um rock pesado e que flerta novamente com o industrial. O refrão brinca com o silêncio como a banda já havia feito antes em “Supervixen”, e obtém um resultado mais cru, mas igualmente apreciável. Tudo fica melhor porque a música faz dobradinha com “Man On A Wire”, possivelmente a melhor do álbum, um garage rock em que a guitarra de Steve Marker desaba com força e Shirley, cantando em um timbre acima do seu normal, declara sem culpa: “I sat myself down and shot my fear in the face”. É uma música sobre redenção, liberdade e força, e que tem em melodia e riffs tudo o que tem em pretensão.

Quando a balada “Beloved Freak” (outro hino aos desajustados) bate nos alto-falantes, a sensação já é de missão cumprida e, pela primeira vez em um álbum do Garbage, a faixa final soa como desnecessária. Cairia melhor como lado-b porque terminar um disco de retorno com a agressividade de “Man On A Wire” talvez fosse mais simbólico. Mas “Beloved Freak” não compromete, pelo menos.

Not Your Kind of People não chegou ao topo das paradas americana e britânica, e não era para menos: seu rock noventista, heterogêneo, com poucas músicas para tocar na balada, não cai bem no gosto popular atual. Mas vai ao encontro de toda uma geração que curtia o rock alternativo quando ele era realmente alternativo e quando havia espaço no mainstream para letras que não falavam só de dançar e ir pra festa. É nesse nicho que o Garbage sempre encontrou seu espaço. Dá para olhar com maus olhos também: talvez os fãs da banda sejam todos uns egocêntricos avessos a novidades. Talvez. Mas o certo é que eles não são seu tipo de gente e estão muito bem assim.