Garotas Suecas - Feras Míticas

Garotas Suecas
Feras Míticas

Independente

Lançamento: 12/08/13

Quando um disco é chamado de pretensioso, a primeira sensação que temos é de que se trata de um insulto. Despretensão se tornou, por motivos tolos, um elogio e um sinônimo de fazer as coisas com leveza e naturalidade. Mas não pode ser natural um artista procurar, com honestidade, alçar voos mais altos? Buscar evolução e ser caprichoso em música, desde sua composição bruta até seu arranjo, é trabalhar com pretensão. Boas pretensões, sem querer dominar o mundo e sem megalomania, são bem-vindas. Então, que seja bem-vindo Feras Míticas, novo trabalho do Garotas Suecas – segundo álbum da banda que foge do lugar comum tão (bem) explorado no disco de estreia, com aspiração e inspiração.

Se em Escaldante Banda o quinteto de São Paulo apostava em Arnaldo Baptista, Roberto Carlos e Moraes Moreira, bem, isso não mudou no novo álbum. O balanço do funk e do soul, a característica brasileira da banda (que fez brilhar olhos de gringos) e a sutileza jovemguardiana ainda são os principais itens que compõem a sonoridade. Mas agora tudo está mais apurado e não cai na caricatura que afetava algumas faixas de outrora. Tudo soa mais original, ainda que leve o grupo para uma década já passada e ele não se preocupe em mostrar o contrário (perceba que até a palavra “computador”, dita na faixa “L.A. Disco”, fez o item soar como uma novidade totalmente desconhecida).

Inclusive, “L.A. Disco”, que tem a participação da figura Kid Congo Powers, é um dos destaques do álbum. O suingue da guitarra de lindo timbre casa perfeitamente com todo o arranjo, que conta com metais e cordas, e dá pra música algo que vai além do balanço – dá brilho. A produção bem elaborada de Nick Graham-Smith, com a inteligência do Garotas para o desenvolvimento do formato da canção e a exploração de momentos com bastante contraste, fazem da quinta faixa uma síntese do capricho que possui Feras Míticas – inclusive no quesito poético, que aposta na simplicidade sem cair no simplório.

“Manchetes da Solidão”, que abre o álbum de forma mais silenciosa, é conduzida pela voz de Guilherme Sal, que se mostra mais aveludada do que nunca e carrega com facilidade o ouvinte e pela canção, mesmo que a voz quebre vez ou outra, só dando um charme mesmo à linha vocal. Aliás, charme é o que não falta aos vocais, que são divididos por quase toda banda. Veja o exemplo de “Pode Acontecer”, onde Irina Bertolucci seduz com graça e com sua leve rouquidão – a balada é encantadora e culmina num momento grandioso onde a guitarra rasga o arranjo de cordas sem exagerar na psicodelia. Fazendo o que é preciso, verdade constante do álbum.

Três faixas em inglês compõem o disco e não fazem nenhum estrago pelo idioma diferente – tudo casa bem dentro da proposta. Até a dicção mais “precária”, involuntária ou não, da língua, contribui. “New Country” é um rock mais reto com refrão de destaque e “St. Marks Theme” aparece em oposição ao disco com seu piano mais marcado, já “Roots Are For Trees” entra pra dupla de canções menos impressionantes, ao lado de “Charles Chacal” (regravação de uma música do Titãs, que conta com a participação de Paulo Miklos).

“Eu Vou Sorrir Pra Quem É Gente Boa”, anteriormente lançada com o nome “Eu Avisei Você”, é memorável e convida o ouvinte a tocar a “máquina do funk”, citando o jazzista Thelonius Monk e sua excentricidade. A divertida “Bicho” mais parece ter escapado do primeiro lançamento do grupo, mas contribui bem para Feras Míticas, tanto quanto a arrastada e quase dub “Bucolismo” e a fantasiosa “A Nuvem”, que conta com um bom flow de Lurdes da Luz, outra participação especial.

O perfeccionismo que, naturalmente, se soma ao suingue, onde cada detalhe em cordas, vozes e sopros se envolve com a percussão e com belos timbres, é o que faz de Feras Míticas uma obra tão sincera quanto calculada e pretensiosa – mas veja bem, isso é um elogio. O Garotas Suecas se preocupou com detalhes e em avançar positivamente na sua carreira. Buscar a evolução, para não caminhar apenas no conforto que já havia rendido frutos à banda, foi a pretensão. Mas nesse caso, a pretensão não é abraçar o mundo e nem lotar estádios – “despretensiosamente”, eles só querem te colocar para curtir.

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  • italo

    gostei da resenha!

    O Album parece ser mais completo que o outro (e ele é muito bom). Gostei bastante. Poderia ter dado um 9. rsrs