Green Day: punk, hits e risadas para fãs novos e velhos

Dá para falar muita coisa ruim do Green Day: que são vendidos, modistas, “pais do emo” (já li isso em algum lugar). O menu de críticas é grande, e mesmo as mais severas têm algum fundamento – mas isso não muda o fato de que o trio californiano tem um dos melhores shows da atualidade.

O que se viu ontem no Anhembi foi mais que um show. “This is not a party, this is a fucking celebration”, gritou Billie Joe Armstrong em uma de suas muitas conversas com a platéia. Ele estava certo. Ao longo de três horas, o grupo celebrou, junto com o público, uma carreira de mais de quinze anos e muitos hits marcantes.

No plateia, aliás, tinha bastante gente da minha idade (24 anos), que era adolescente na primeira fase áurea do grupo. Mas o que mais se via era o pessoal mais jovem, que virou fã com os dois últimos discos. E isso eu acho uma coisa muito foda do Green Day: eles são uma das pouquíssimas bandas da atualidade que conseguiram dialogar com mais de uma geração. Se nós adotávamos para hinos canções como “Welcome to Paradise” e “Hitchin’ A Ride”, esse pessoal faz isso hoje com “Jesus of Suburbia” e “Know Your Enemy”.

Dá para ver isso quando Billie chama crianças ao palco. Uma delas, um garoto de uns doze anos, sobe em “East Jesus Nowhere”, canta com o vocalista e é instruída a cair no chão durante uma explosão de fogo no palco. No final, o diálogo é antológico:

Billie Joe – What’s your name?
Fã – Gabriel
Billie Joe – Gabriel, where are you from?
Fã – Daqui.
Billie Joe – *cara de “ahn?”, enquanto a platéia ri*

Outro menino sobe mais tarde e ganha umas pistolas de água para molhar a platéia. O próprio Billy Joel brincou bastante com essas pistolinhas durante o show e encharcou o pessoal que estava no gargalo.

Teve ainda uma menina, um pouco mais velha, que subiu ao palco em “Are We The Waiting”, cantou, ganhou beijo na boca do Billie e ficou empolgada demais, a ponto de ter que ser tirada por um segurança. Mas o fã mais sortudo foi o que subiu para cantar “Longview”: não apenas ele deu uma puta performance, sendo quase um quarto integrante natural do Green Day, como ainda roubou uma baqueta da mão do Tré Cool para poder macetar um prato ao final da canção. Impressionado, Billie Joe deu nada menos que sua guitarra para o fã – que naquela noite foi a pessoa mais invejada do mundo – e declarou: “This was the best singer in the whole fuckin’ tour”.

Ah, mas e o show? O show foi fantástico, com música para todos os gostos. Os sucessos recentes (“Holiday”, “Boulevard of Broken Dreams”) foram misturados com carinho a hits antigos (“Nice Guys Finish Last”, “Burnout”) e nenhuma geração ficou sem seus sucessos. Tudo era intercalado com pirotecnias diversas no palco e falas enérgicas de Billie Joe, que enfiava “São Paulo” onde podia nas letras (“the representative from São Paulo has the floor”…) e provavelmente disse o nome da cidade mais vezes em uma noite do que eu disse na minha vida inteira. E ele ia além: “I’m gonna move to Brazil! I fuckin’ hate America!”, disse.

A banda parava as músicas, brincava, improvisava solos e, depois que parecia que a música já tinha acabado fazia tempo, retomava a canção. Isso servia para dar um pique extra na platéia e para enganar as rodas de pogo, que eram abertas e ficavam minutos esperando para começar a bateção. Toda vez que queria uma reação da platéia, Billie entoava um “eeee oooo” ou um “hey hey hey hey”, ao que era prontamente imitado pelas vinte mil pessoas que lotavam o Anhembi.

Depois de uma apresentação alucinante de “When I Come Around”, entrou um medley demolidor com “Iron Man”, do Black Sabbath, “Sweet Child O’ Mine”, do Guns N’ Roses, “Highway to Hell” do AC/DC e “Baba O’ Riley” do The Who. E aí vieram, uma atrás da outra: “Brain Stew”, “Jaded”, “Longview”, “Basket Case” e “She”. Com esse combo devastador de clássicos, não tinha como não pular e cantar junto. “Scream at me, until my ears bleed” de fato: já eram duas horas de punk e euforia e nem a banda nem o público davam sinais de cansaço.

Teve ainda outro medley (com “Break On Through” do The Doors, “(I Can’t Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones, e “Hey Jude”, dos Beatles) antes do primeiro final, que uniu novo e velho com “21 Guns” e “Minority”.

Sem demorar muito, a banda retornou e engatou uma “American Idiot” inspirada, rápida e empolgante. Aí Billie Joe declarou: “this next song is about me, about you, about all of us”, e veio “Jesus of Suburbia”, tocada integralmente, o que fez alguns irem às lágrimas (juro que eu vi).

Billie Joe volta para o segundo bis sozinho, no violão, e manda “Whatshername”. Aí vem “Wake Me Up When September Ends”, que começa acústica e depois recebe o resto da banda para completá-la como o hino de arenas que ela é. Sem que a música acabe, Billie solta o riff clássico de “Good Riddance (Time of Your Life)” e manda o último hit da noite sozinho no palco, com a platéia inteira fazendo coro. E aí ele encerra a outra música: “Wake me up, when september eeeends”. Enquanto o público se esvaía em gritos e aplausos, a banda voltou ao palco para dar tchau e Tré Cool tacou umas trinta ou mais baquetas para o pessoal (encharcado, mas com certeza feliz) da pista VIP.

Teve muito mais no show: Billie Joe com uma máquina de arremessar papel higiênico e outra de disparar camisetas, Tré Cool tocando guitarra, a banda inteira (incluindo músicos de apoio) fantasiada para “King For A Day”, o fã que, a pedido de Billie Joe, subiu ao palco e deu mosh em “Know Your Enemy”, o Pink Bunny, que subiu ao palco antes do show para dançar YMCA… mas é tanta coisa que não dá para descrever tudo.

Longo (três horas!), eufórico, divertido, nostálgico e urgente, um show do Green Day vale o preço e os perrengues causados pela desorganização. Nenhuma banda junta tão bem duas gerações, nenhuma banda faz questão de ser tão teatral e juvenil como o rock às vezes pede, nenhuma banda se esforça tanto para que a música seja apenas uma entre muitas atrações.

Dá para falar muita coisa ruim do Green Day, mas não dá para falar nenhuma coisa ruim desse show.

Fotos tiradas do Terra – Música

  • Raul Scheir Rabelo

    resenho genial, eu falaria cada palavra que tu disse, ontem eu tava lá e nunca curti e sai tã quebrado de um show. como esse..

    Perfeito.

  • Raul Scheir Rabelo

    *resenha huhuauhauh

  • Guilherme

    po cara, muito bom seu texto. foi isso aí mesmo.

  • Ian

    Eu era muito fã do “Green Day”, tenho todos discos que lançaram, sabia todas as letras das músicas, tocava todas também na Guitarra/Baixo, hj em dia me decepcionam com esse último Disco, pra mim agora nessa fase ta mais pra Green Gay…enfim, Green Day já lançou grandes discos antigamente, hj em dia ta triste a situação…

  • Victor Vasconcelos

    Adoro os fanzinhos de merda que adoram criticar últimos álbuns. Pessoas que não conhecem o efeito psicológico a que são submetidos — talvez você odiasse um certo álbum na época que foi lançado, que eventualmente virou seu preferido: tendemos a esquecer as coisas ruins de eventos e lembrar apenas das boas — e ficam criticando obras excelentes.
    Me diga, quantas vezes você já ouviu um fã de uma banda com uma enorme discografia dizendo que o CD lançamento deles é o melhor da carreira? No meu caso, nenhuma. Pense em qualquer banda com mais de 5 CDs, e logo vocÊ notará que os fãs antigos nunca gostam dos CDs novos.

    Green Day mudou de estilo no último álbum? Fato. Os outros álbuns tinham estética bem mais punk? Fato. Mas dizer que o último álbum lançado não é bom é puro cliché de quem nem se deu o trabalho de ouvir o álbum inteiramente e baseou-se apenas na opinião de outras pessoas — que por sua vez também não ouviram o álbum. E para se acostumar com um novo estilo é necessário ouví-lo 2 ou 3 vezes.

  • Fe

    concordo com cada vírgula!

  • Ótima resenha. Relatou muito bem o show!
    Faço minhas as suas palavras.

    Tenho mais ou menos a mesma idade q vc (26) e fui pro show esperando só pelo espetáculo, mesmo, pq não simpatizo com as músicas novas, e me diverti muiiiiiiiito.
    Billie Joe continua o mesmo (ou mais) fucking crazy!

  • Ian

    “Me diga, quantas vezes você já ouviu um fã de uma banda com uma enorme discografia dizendo que o CD lançamento deles é o melhor da carreira? No meu caso, nenhuma. Pense em qualquer banda com mais de 5 CDs, e logo vocÊ notará que os fãs antigos nunca gostam dos CDs novos.”

    Bom, Beatles é um bom exemplo, Pink Floyd, Nirvana (“You Know You’re Right” é uma grande prova da evolução e não regressão musicalmente falando), Green Day mesmo serve como exemplo (Após o Dookie lançaram o Insomniac que é um grande álbum, porém não obteve grande sucesso comercial como o Dookie) até o penultimo disco, American Idiot, mas esse ultimo disco que produziram é bem penoso pra se ouvir. Ainda continuo gostando da banda, pelo que ela representou para mim, e dos álbuns anteriores a este ultimo deles, porém a meu ver, o futuro da banda em questões de qualidade musical é uma incógnita; Agrada uma nova geração e esquece da antiga…enfim, gosto NÃO se discute, qualidade musical SIM!

  • Samuel Vaz

    Acredito que qualidade musical não está diretamente relacionada à manutenção de um estilo. O último álbum é bem parecido com American Idiot na questão de protestos políticos, mas um pouco mais orientado para o opera rock do que para o punk, o que por si só não tira o mérito do disco… Também prefiro os trabalhos mais antigos da banda, mas essa é uma questão puramente de gosto, pois não houve queda aparente no nível de qualidade das músicas.

  • Evandro

    Resenha digna de elogios,
    li várias outras sobre esse show, bem como sobre o Green Day,
    e esta foi a melhor, por ter se pautado no equilíbrio, na sensatez.
    Tenho todos os albuns do GD, ou, explicando melhor, todos os albuns
    até o Warning. Uma banda que me atraiu definitivamente para a música,
    e sou muito grato. Apesar de nao escutar atualmente, e isso já
    ocorre há alguns anos, escutar em algum lugar as suas músicas da
    década de 90 me causam uma comoçao, um sentimento de nostalgia
    único.
    Possivelmente a maioria dos que acessam esse blog, e que tem os seus 20 e poucos anos,
    escutaram GD na década passada, claro que variando a intensidade de pessoa a pessoa, contudo atuando como fonte de primeiras influencias musicais.
    Por fim ressalto que, o Dookie é um album atemporal, o impacto da sua audiçao é impressionante, marcou o GD e o Rock da década de 90.

  • Carlos

    Tenho 45 anos e levei meus 2 filhos ( 9 e 12 anos) ao show, eu já ouvia e gostava da banda desde 94 quando lançaram dookie. Adorei os 2 últimos albuns e já tinha ficado impressionado com a qualidade do som e energia no dvd Bullet in a Bible. Então eu já esperava um bom show, mas não, o show foi do KCT, um dos melhores shows que já fui. Já vi Rock n Rio 1 e 2, Deep Purple, Rolling Stones, AC-DC, Paul Mccartney, Eric Clapton, David Bowie, Iron Maiden, Billy Idol, Peter Gabriel, Ramones, Robert Plant, U2, REM e mais uma porrada de bandas. Estou citando isto para comparar, em termos de qualidade instrumental e vocal (fidelidade aos CDs) eles não devem nada a qualquer banda que citei, mas NUNCA vi tamanha interatividade com o público, simpatia, prazer em tocar em um concerto (parece que eles estavam se divertindo mais que o publico!), profissionalismo ( começaram ANTES do horário e por 3 ótimas horas).
    Resumindo, virei Fã pra valer dos caras, se tivesse mais um show no Brasi, pegaria o aviao até onde fosse! Realmente fiquei impressionado!
    Meus filhos foram no primeiro show de Rock deles logo neste! Se deram bem e não esquecerão nunca!

  • Carlos

    E para quem gosta dos covers do Green Day, acessem este link!

    http://www.youtube.com/watch?v=n0OTeYLggtc

  • @rique_cardoso

    O primeiro parágrafo achei totalmente descartável. Esqueceremos também quando você escreve “billy joel ” XD
    Mas enfim, o resto da resenha ta maneira.
    Sou viciado em Green Day. Fui no show do Rio, posso afirmar que foi com larga vantagem o melhor dia da minha vida ! 😉

  • douglas

    Green day … pai do emo ?? VCS DA MTV estão ficando cada vez mais isuportáveis … nem vo terminar de postar meu comentário depois dessa besteira que vi aí no post!

  • “VCS DA MTV”

  • Marina

    vi o show do Rio e foi mais ou menos a mesma coisa (tá, praticamente a mesma coisa. mesmas brincadeirinhas, mesmos corinhos, rio de janeiro em cada música, etc…). me diverti muito, é claro. mas saí do show com uma sensação estranha. como assistir no cinema uma superprodução, se divertir, e sair de lá e pronto. não sei bem o que faltou, mas parece que foi “feeling”.
    talvez seja porque já fui muito fã e não sou mais (comecei a ter interesse por música a partir do American Idiot e por isso sou MUITO grata a banda, mesmo que agora meu gosto musical seja completamente diferente), mas essa foi a minha sensação geral do show.
    bom, de qualquer jeito, foi divertido.

  • Luiza

    Que droga! Perdi o show. Deve ter sido epico. Morri. rsrsrs Espero que eles façam um show novamente no Brasil, daqui a uns anos. 😉

  • greendaylover

    a resenha da hora, tirando a parte q vcs escrevem “billy joel” e a que ‘VCS DA MTV’ falam Green day eh pai do emo!velho na boa, curto Green day faz um tempo ja,e sou mto fã,só q antes d vcs terem escrito isso deviam ter pesquisado mais. Green day é punk.entendeu PUNK não emo!!

  • danny

    q saco eu tinha 10 anos nao conhecia o green day. conheci no ano seguinte.e eu vou falar so 1 coisa pros caras q acham o green day emo:
    GREEN DAY NUNCA FOI EMO NAO EH EMO E NUNCA VAI SER.
    apenas isso e pronto