Holger – Ilhabela

Criar um movimento artístico pode ser pretensão demais. Mas quando as possibilidades desse movimento, popular ou não, inspira o artista, o tira daquele trajeto comum que ele poderia tomar e o coloca numa nova rota, a pretensão se torna irrelevante perto do quão interessante isso pode ser. A Avalanche Tropical, que é um coletivo entre amigos e não parece ainda ir muito além disso, inspirou demais o Holger em seu novo álbum, Ilhabela. O lado positivo é ver a banda tomar um rumo diferente do que a maior parte dos artistas brasileiros que flertam com a música popular. O negativo é quando se percebe que você não está totalmente imerso na música, por ela conter diversos elementos que não soam direcionados a você (mais ou menos como acontece com as piadas internas). Porém, mesmo assim, o saldo ainda é positivo: o Holger continua sendo uma das mais interessantes bandas do cenário atual – e não estou falando só de Brasil.

Falar de Brasil agora é mais seguro quando se associa ao Holger. Anteriormente, a pegada afro-pop, assim como o suingue que a banda apresentava, não vinha das raízes “africanas-brasileiras”, mas sim de uma tendência mundial que novamente abraçava o estilo (como aconteceu nos anos 80). Cantando em português na maior parte do disco, mas sem caçar uma forma poética de fazer isso e indo mais pelos instintos, e incorporando uma proposta mais latina ao seu som, já é mais reconhecível essa aura “tropical” que a banda tanto buscou. E mesmo que ainda seja mais branca do que deveria, pitadas de axé e moombahton compõem o cenário bem misto de pouco rock e bastante eletrônico que abraça influências baianas de Gil e Pepeu, assim como as oitentistas de Lulu Santos e Paralamas do Sucesso, sem deixar de lado a sensação de fazerem parte de um grupo atual de bandas, como Vampire Weekend, Givers, El Guincho e Do Amor. Mais do que música para o Brasil, é música para o calor, pra piscina (sunga?), cachoeira, suco gelado, maconha e viagem.  Bom assim?

Bom quando é possível destacar excelentes músicas como “Ilhabela”, “Another One”, “Infinita Tamoios”, “Me Leva Pra Nadar” e “Treta”, e ainda assim não querer destacar menos outras, por todas parecerem fazer parte de um grande conjunto conceitual. E não é que o disco não desacelere em alguns momentos, mas o conjunto parece essencial para o funcionamento das canções. Resta torcer para que a promessa em uma antiga entrevista de Pata, integrante da banda, de que teríamos uma trilogia tropical composta por Sunga, Ilhabela e um outro álbum, seja real.

Ainda que o álbum sugira um clima de diversão em tempo integral, mesma vibe que a banda procura emplacar em seus shows, as canções não possuem o apelo necessário para invadir o âmbito mais popular da música brasileira. Adotando uma política mais cult - voluntariamente por ser típico do cenário de “música alternativa”, ou involuntariamente por uma falta de tato para o popular mesmo – a banda vai um pouco ao contrário do que já declarou buscar: postura do Paralamas do Sucesso e shows com clima de micareta. E não acho que ninguém esperava um comportamento 100% desprendido do grupo com seu ambiente, mas talvez um certo amadurecimento possa fornecer mais coragem para a banda alçar vôos mais altos.

Mas se não há desprendimento total da banda com o cenário que integra, também não há nenhum compromisso que os prenda a um certo formato pré-programado. É muito interessante ver uma banda tão dedicada em se apresentar de maneira cativante para o público – tanto para aquele que já a admira e buscando novas conquistas sem receio. E independentemente do movimento que o Holger tem procurado representar, é o dos quadris que tem funcionado (e simbolizado) mais.