Howler no Beco 203, em São Paulo

“Anyone can chill out, have a beer with his broads, watch Nascar and not be a gringo”, disse France Camp, baixista do Howler, ironicamente vestido com um short jeans e uma camisa florida que denunciariam um turista americano a quilômetros de distância. Mas o figurino clichê era totalmente perdoável porque, em uma noite que tinha chuva, Oscar e paredão de reality show, os paulistanos que escolheram ver o Howler no Beco 203 foram muito bem recompensados por isso.

Antes dos “gringos” entrarem no palco, os paulistas do Some Community fizeram a abertura, com seu electro-rock que parece uma mistura entre Björk e Tokyo Police Club. Prejudicada pelo som embolado do Beco 203, que só permitia ouvir com alguma clareza a bateria e os teclados, a banda se mostrou bastante inspirada e arrancou aplausos sinceros do público. A segunda música, “Two Colours”, com seus tecladinhos Radioheadianos, foi um destaque. O Some Community agora sai em turnê e irá tocar no festival South by Southwest, nos EUA.

O Howler não demorou muito para entrar – ainda bem, porque era domingo e paulistano tem que acordar cedo na segunda-feira. Não precisava procurar muito para achar a animação estampada na cara da banda, um bando de moleques da gelada Minneapolis que lançou um debut garageiro não faz nem dois meses e agora se vê viajando o mundo e curtindo seu hype de nova promessa do rock. Nada mal. Mas, calouros, não trouxeram nem suportes para as guitarras, que tiveram que ficar apoiadas nos amplificadores – tudo bem, é só o começo.

O set do Howler é rápido, pesado e fatal. Dá para ficar indiferente a uma música ou outra, mas, em algum momento, você se vê dançando, impulsionado pelas guitarras de músicas como “This One’s Different” e “Back To The Grave”. No palco, era tudo festa: descabelado e usando óculos escuros em um ambiente fechado (Julian Casablancas mandou um abraço), o vocalista Jordan Gatesmith se comunicava com a plateia, pulava, dava risada com os colegas. Não demorou nem um minuto de show para o seu microfone cair e ele ter que ir cantar no do guitarrista Ian Nygaard. Enquanto isso, o tecladista Max Petrek fechava os olhos e alucinava sozinho conforme viajava nos backing vocals. O Howler não se levava a sério e não pedia a ninguém para levar.

Lá pro meio do show, a banda pediu ao público que cantasse o hino nacional brasileiro. “It’s too long”, alguém gritou. “It’s long? That’s ok, we have time”, disse Jordan, a essa altura já sem os óculos, insistindo no pedido. E, quando você achava que já tinha visto tudo na rua Augusta, lá estava um bando de indies inebriados cantando o hino na balada, errando a parte do “sonho intenso, raio vívido” (ou é “amor eterno, seja símbolo”? Socorro, Vanusa) e tudo.

Algum fã pediu uma música. “We don’t know how to play it”, disse Jordan, aproveitando para fazer piada sobre a banda não saber tocar as próprias músicas. Mas tudo bem, porque “Beach Sluts”, no começo, e “Told You Once”, no final, cumpriram os papéis de hits, sendo inclusive cantadas pelos fãs mais preparados que já conseguiram decorar algumas letras. E ficou óbvio que os Strokes, comparação preferida da imprensa brasileira e internacional, é apenas uma de muitas influências do Howler, que também empresta muito do Jesus & Mary Chain. “Black Lagoon” veio no bis para coroar a noite e encerrar a apresentação curtinha – onze músicas. O show acabou às 23h, a tempo de dar para encarar a tradicional filona do Beco e ainda conseguir chegar ao metrô antes dele fechar – pena que tenha que ser domingo para o público ter esse tipo de respeito.

Aliás, o Howler, que deveria ter tocado na sexta e foi impedido por uma nevasca em sua terra natal, não deixou de reparar na data incomum. “It’s Sunday now. It’s the Lord’s day. But that’s just in America, I don’t know”, disse Jordan. Bom, o nome do primeiro disco da banda é justamente America Give Up. Eles já conseguiram que São Paulo desistisse de se resguardar para o Senhor, apostamos que não vai demorar muito para convencerem a América também.

  • Nicole

    A parte do hino achei muito cafona, sério! Mas foi um belo show, apesar de breve! Jordan tava soltinho

  • Fernando

    Jesus & Mary Chain? Sério? Como assim? Acho que o autor do texto anda meio, digamos, inebriado. Acho que não chega nem a ser uma ofensa ao J&MC uma derrapada informativa dessas, porque tanto faz pra banda, mas pro leitor isso é um tanto ofensivo, sim, à inteligência. A não ser que a molecada do Howler tenha afirmado isso em entrevista, tenho minhas dúvidas se a banda sequer conhece o J&MC (assim como o autor do texto).

  • Rodrigo Miranda

    Citar que banda X tem influência de J&MC já virou segundo mandamento de crítica musical. Apenas perde para influência do The Strokes.

  • Vi o show do Howler em Porto Alegre. Achei a banda muito fraca. Garanto que muita gente só gosta deles pq a NME disse que era bom.

  • Caroline

    Na verdade, Howler deveria abrir o próximo show do Some Community.

  • os keridinhos da crítica (sic)

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