OK Go - Hungry Ghosts

OK Go
Hungry Ghosts

Bmg Rights Management

Lançamento: 14/10/14

Às vezes precisamos, de provas para contar certas histórias, de tão inacreditáveis que elas possam parecer. E há algo bem difícil de acreditar, mas que é importante ser dito sobre o OK Go: a cerca de 10 anos atrás, eles faziam música realmente boa.

Hoje, vendo uma banda completamente focada em fazer o próximo videoclipe sensação, é duro de imaginar que um dia ela deu prioridade às suas composições. Não que o OK Go fosse o supra-sumo da criatividade em 2002, mas naquele ano, o grupo lançou seu disco de estreia recheado de empolgantes faixas, brincando com indie rock cheio da força power pop que o influenciava. Competente e eficiente, o álbum teve sua sequência em 2005 com Oh No, que tinha também diversos momentos ótimos. E foi com um deles, precisamente “Here It Goes Again”, que o quarteto conseguiu, enfim, emplacar, em gigantescas proporções, sua até então segunda vocação: chamar a atenção através de seus vídeos. O famoso clipe das esteiras dava continuidade a diversas outras tentativas de viral da banda no mesmo formato. Foi quando a vitrine do OK Go se expandiu, cruzou oceanos e culturas. O vídeo era ótimo e a trilha tinha um punch perfeito. Mas então a banda escolheu ficar com apenas um de seus talentos.

Se o momento era perfeito para se exibir, eles não perderam a oportunidade – mas, infelizmente, escolheram o caminho que não era o de fazer boas músicas. Desde então, o OK Go tem oferecido ótimos e surpreendentes vídeos, com trilhas absolutamente dispensáveis. Em 2010, lançaram o insosso Of the Blue Colour of the Sky, que parecia ter somente a função e interesse de criar desculpas para produzir novos clipes. Com Hungry Ghosts, o cenário não é muito diferente: apostam em 12 faixas, entre as quais poucas se salvam.

Mesmo trabalhando com o experiente e competente produtor Dave Fridmann (The Flaming Lips, Weezer, Spoon) e com centenas de recursos sonoros, a maioria essencialmente eletrônica, não foi possível corrigir a rota da principal falha de Hungry Ghosts: a falta de de inspiração do compositor (ou ao menos a falha de aplicar suas ideias). Já não há ganchos que seguram o ouvinte, não há refrões de força e nem contagiantes exercícios de bateria, baixo e guitarra – veja bem, falamos de um álbum inclinado a canções com premissas dançantes.

São em raros momentos, como em “Turn Up the Radio” e “Upside Down & Inside Out”, que a banda consegue exibir alguma reação gerada pelo passar dos anos. As canções, que não são grandes feitos, chamam atenção por sua energia e modernidade. Já “The Writing’s on the Wall” recorre aos anos 80 e consegue também se safar com certa competência. “I Won’t Let You Down” são os últimos minutos válidos da audição, pois consegue trazer um pouco de funk bem arranjado para um potencial hit. Mas só – e a isso se resume uma esforçada audição de Hungry Ghosts. Talvez esteja na hora do quarteto se focar apenas nos grandes contratos publicitários de investimentos feitos nas únicas obras de arte que atualmente consegue produzir com qualidade, e transformar a banda apenas em um canal do YouTube. O sucesso será garantido.

Exageros à parte, é uma pena literalmente assistir ao declínio de artistas que um dia souberam realmente nos divertir com sua música. O que sobrou foi a mesma sensação tida por alguns críticos há 10 anos (aqueles a quem não dávamos ouvido por estarmos nos divertindo): a de que o OK Go não passava de uma armação “indie” que apenas emulava todos os trejeitos do estilo.

Viciado em plano-sequência, o OK Go só reforça em Hungry Ghosts que, em sua carreira musical, não mais acertou a continuidade. O brusco corte dado, após 2005, afetou a direção da banda até hoje. E isso não fica charmoso nem com a mais ousada produção visual, pois são os ouvidos que, há tempos, exigem um pouco mais de dedicação.

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