Indie Rock Festival em São Paulo – 10.11.09

indie rock festival

Público no Indie Rock Festival (Foto: Silvio Tanaka)

É fato que o último dia 10, uma terça-feira azarada, vai ficar nas nossas memórias por muito tempo: Foi nessa data em que, de uma hora pra outra, milhões de brasileiros ficaram sem luz por uma falha na Usina de Itaipu. Mesmo assim, um número reduzido de pessoas terá mais um motivo para guardar lembanças desse mesmo dia: Justamente na noite em que dez Estados brasileiros ficaram sem luz, a paulistana Via Funchal foi casa do Indie Rock Festival, que recebeu as megabandas Super Furry Animals e Gogol Bordello (os outros dois grupos do evento, Holger e El Mató a un Policia Motorizado, apareceram apenas na edição carioca). O público foi pequeno e, como de praxe, poderíamos enumerar uma série de fatores que contribuiram para isso: Os shows aconteceram num dia de semana, o que afastou quem cedo madruga. A má fama do festival também pode ser considerada e, talvez, o próprio apagão pode ter feito centenas de pessoas ficarem em casa. De qualquer forma, Natalli Tami (2 Many Weirdos) e Gabriela Hesz, assim como uma série de amigos que compareceram ao festival, me asseguraram que a noite foi linda. Os relatos das moças estão na sequência.

Super Furry Animals

Por Natalli Tami

Um seleto público para uma seleta banda. Como em sua apresentação anterior no país, em 2003, no Tim Festival, nada de apelações ou modernices. Uma banda com formação rock tradicional, com distorções e letras interessantes, um indie rock verdadeiro. Ah, e placas para comandar a platéia, bem práticas.

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Gruff Rhys, vocalista do Super Furry Animals (Foto: Silvio Tanaka)

As luzes se apagaram (como parte do clímax, não por causa da falha em Itaipu) e a batidinha eletrônica introdutória de Slow Life (do disco Phantom Power) começou, enquanto roadies faziam os últimos ajustes e os Furries tomavam posição. Com poucas pessoas no local, era possível ver tudo perfeitamente, ir pegar uma cerveja e voltar ao mesmo lugar, apesar dos fãs do Gogol Bordello colados frente ao palco.

A sequência inicial foi somente de hits do Rings Around the World (2001) e do Phantom Power (2003), discos com menos experimentalismos e mais pitadas de pop e romance. Hello Sunshine é trilha de seriado americano adolescente, então soa como familiar. Após esse aquecimento, a banda apresentou algumas músicas do disco novo lançado no início desse ano – Dark Days/Light Years – intercalando com antigos sucessos. Em meio a troca de seus instrumentos (muito bonitos, por sinal), Gruff Rhys, frontman da banda, erguia os cartazes dizendo ‘obrigado’ e ‘aplauso’.

Da leva de músicas novas, The Very Best of Neil Diamond é uma homenagem ao cantor folk, em que Gruff toca um bandolim elétrico. Essa música foi muito bem criticada, bem como o álbum inteiro, por marcar o “retorno” do SFA a uma estrutura rock old school, mesclando os seus experimentalismos eletrônicos (Gruff é o Neon Neon, junto com o DJ Boom Bip) e letras sócio-políticas divertidas. Em Inaugural Trams, Nick McCarthy do Franz Ferdinand faz uma aparição especial em forma de fotocópia ampliada, juntando-se aos Furries numa declaração utópica sobre a redução da emissão de poluentes em 75%, ditando frases em alemão. E em Crazy Naked Girls, obviamente psicodélico, Huw Bunford é possuído pela vibe setentista e quase toca a guitarra com a boca enquanto Gruff manda a platéia gritar “WOAH!”, que faz parte do refrão.

super furry animals

McCarthy soltando a voz em “Inaugural Trams”. Ou algo parecido. (Foto: Diego Maia)

Pra encerrar, dois clássicos da banda The Man Don’t Give a Fuck (single de 1996) e Keep the Cosmic Trigger Happy (Guerrilla, 1999), que fizeram a felicidade dos fãs antigos da banda e me estimularam a questionar porque o SFA é tão desconhecido por aqui. Imaginei, ao ver a casa vazia, que fosse o acaso da avalanche de shows na cidade somado ao fator meio da semana. Mas talvez seja somente uma questão de gosto mesmo. Qualquer que seja a explicação, não pareceu afetar esses galeses, que fizeram um show bem profissional.

Obs.: Acabei de ler no Guardian um artigo sobre o filme do Gruff – Separado! – sobre a formação da comunidade galesa na Patagônia, que é pano de fundo pra achar o tio dele, René Griffiths. Clica aí.

Gogol Bordello

Por Gabriela Hesz

Ao vivo, pode-se dizer que o Gogol Bordello faz jus à empolgação dos CDs, com as músicas se atropelando, os refrões sendo retomados entre uma canção e outra  e com a banda pulando muito o tempo todo, fazendo com que público a acompanhasse. Mas, apesar da agitação de todos, as coristas fazem toda a diferença no show: Não dá pra não pular quando elas chegam pertinho da platéia e ficam apontando pra galera, com seus micro-uniformes do Santos F.C.

gogol bordello - indie rock festival

2/3 do Gogol Bordello (Foto: Diego Maia)

A baixa lotação da Via Funchal, que atingiu apenas 20% da capacidade total da casa, agradou para a platéia no final das contas: Graças a isso, todo mundo conseguiu ficar muito perto do palco. Dava pra ver que a galera tava ali porque curtia a banda, e todo mundo entoou junto os refrões de “Start Wearing Purple”, “Wonderlust King” e “Think Locally, Fuck Globally”. Foi uma verdadeira micareta do rock, com pessoas tão empolgadas que às vezes era preciso fugir pra não apanhar feio.

O violinista, Sergey Ryabtsey, (que parece muito um marujo clássico) também agita muito, encarando a platéia e pedindo palmas, além de fazer umas pontinhas no vocal. Quem também faz participações vocais durante a apresentação, além (obviamente) do frontman Eugene Hütz, é o percurcionista Pedro Erazo, que deu uma de MC e chegou a vestir uma máscara de luta mexicana por alguns minutos.

Toda essa mistura étinica, que já é marca registrada da banda, somada à empolgação do Eugene (que entrou de blusa, tirou rapidinho, cantou com uma camiseta com a bandeira de Pernambuco e logo depois já estava sem camisa novamente), fez um carnaval cigano no Via Funchal na noite do apagão.

O bis veio com “Alcohol”, “Ultimate” e um “No fucking light for anyone else but us! You choose the right place to be tonight”, quando a banda se despediu, literalmente, cumprimentando todo mundo que quisesse ganhar um aperto de mão. O público realmente sabia que havia escolhido o lugar certo para aproveitar o apagão.

Existem vídeos das duas edições do Indie Rock Festival no canal do evento no YouTube.

  • se o line-up paulista mantivesse as mesmas bandas do carioca, eu mataria as provas da faculdade fácil. hahahaha
    pena :T