“Isto não é uma resenha sobre os quatro shows do Pearl Jam que eu vi na Europa”

Texto: Ana Freitas

Do que é feito um show de rock?

Desses em que você perde a voz, se arrepia, ri e chora, pula e dança, abraça desconhecidos por alegria, ensopa as roupas de suor e isso nem te incomoda? O que faz um show ser catártico, daqueles em que você sente a alma lavada? O que transforma um show em uma reverência coletiva, um culto?

O mais importante – quando foi a última vez em que você viu um show assim?

O Pearl Jam é uma banda única por uma série de razões que você deve ou não saber. Quando o Kurt se matou, em 94, eles decidiram boicotar a mídia tradicional. Pararam de fazer clipes comerciais e de dar entrevistas. Bateram de frente com a Ticketmaster, que monopolizava o mercado de ingressos nos EUA. Eventualmente, se desvencilharam de gravadoras e se tornaram uma banda independente. Até hoje, eles gerenciam a gravação e o lançamento de todos os discos, e mantém uma loja na internet com uma extensa linha de produtos raros: de pôsteres a camisetas, de vinis a adesivos, sem contar que lançam versões digitais e físicas do áudio de todos seus shows.

Vinte anos depois de decidirem que a velha mídia não os merecia, a gente percebe que não haveria estratégia de marketing melhor do que se retrair. A maioria dos shows do Pearl Jam hoje em dia tem ingressos esgotados em poucas horas. Nos shows, hordas de fãs que acompanham a banda pela Europa e sempre as mesmas caras na primeira e segunda filas. Eu conheci dezenas de italianos, poloneses, israelenses, argentinos, portugueses, americanos… Depois do segundo show, você já começa a cumprimentar as pessoas.

Esse “OoooOOOooo” é coisa dos sulamericanos que estavam por lá – e na real, isso confundiu o Eddie, que não conseguiu voltar no refrão

O Pearl Jam nunca repete os setlists, e esse talvez seja um dos motivos pelos quais os fãs compram ingressos para vários shows em uma única tour. Só uma banda com 20 anos de estrada e um catálogo de canções tão vasto pode se dar ao luxo de repetir apenas uma música, ou nenhuma, em dois shows seguidos numa mesma cidade, como foi o caso dos últimos dois setlists em Amsterdam, dias 26 e 27 de junho. Há, inclusive, canções que nem sequer foram tocadas ao vivo ainda na história da banda.

Eddie pode não ter a mesma voz – a verdade é que ele não tinha desde No Code, o quarto disco da banda, de 1996 – e o Pearl Jam, verdade, tem dois últimos discos bem medíocres, com poucas músicas realmente boas. Mas nenhuma de suas performances ao vivo deve nada para o que faziam no palco em 1992.

A química da banda é impressionante. E é como se eles soubessem o que cada um vai fazer antes que fizessem. Eddie é um dos grandes frontmans da história: é carismático, agregador, seguro da posição que exerce. O grupo todo é consistente, tecnicamente impecável e, principalmente, muito honesto. É tudo entregue com uma honestidade de arrepiar, rara de se ver. O show inteiro é uma troca constante entre público e banda, e isso fica claro, não importa onde você esteja dentro do gig – na beira do palco ou sentado na arquibancada. No fim do show do dia 05/07, em Berlim, Eddie cantou “Yellow Ledbetter” junto com outras 10 mil vozes, distinguíveis. De luzes acesas, era possível ver gente desconhecida se abraçando e se cumprimentando, gargalhando sem motivo aparente, berrando alto o suficiente pra não se importar que isso fosse esquisito.

Eu assisti a quatro shows do Pearl Jam aqui na Europa, e posso dizer que sofro de depressão pós-tour.

Eu não tenho a resposta para as perguntas no começo do texto, mas eu preciso saber se sou só eu ou o mundo realmente carece de shows de rock. O Rapture foi preciso quando cantou que “People don’t dance no more, they just stand there like this. They cross their arms, stare you down and drink and moan and diss”, porque é essa a constante nos shows descolados por aí. E atenção, porque eu estive em muitos shows descolados nessa vida, então sei do que eu estou dizendo.

É por isso que shows como o do Pearl Jam te tiram da zona de conforto do que é um espetáculo de música. É que um show desse estabelece novos parâmetros do que é aceitável para um show ser incrível. Depois de um do Pearl Jam, fica difícil se contentar com uma performance mediana de qualquer uma dessas bandas novas.

Vocês não vão acreditar, mas eu tenho testemunhas: esse “HEEY! HEEY!” fui eu que puxei.

Eu soo como uma daquelas pessoas velhas que gostam só de música velha e acham um lixo tudo que é novo. Não é o caso, eu te garanto. No meu Top 5 de melhores shows da minha vida, três são de bandas com dez anos ou menos, parte da leva do novo rock e tudo mais. Mas é que não tem nada, nada como um verdadeiro show de rock.

Ana Freitas conheceu Eddie Vedder em Berlim, bêbado, em um museu dos Ramones, e ele é a pessoa mais simples do mundo. Ela assistiu a quatro shows da banda na Europa na última tour, que terminou em Copenhagen, no último dia 10 de junho, na Dinamarca. Com isso, ela chega à modesta marca de 8 shows da banda.

  • Carlos Amato

    Texto perfeito. Só tiraria a parte dos 2 últimos albuns serem mediocres. Realmente não sou muito fã do Abacatão e merece as críticas, mas o Backspacer é de muita qualidade. No mais, faço parte do coro de “fiéis” que consideram essa a maior banda de rock dos últimos 20 anos. Não há conexão entre fãs e banda que funcione tão bem. Segui a banda nas 2 turnês da América Latina. Não fui a todos os shows, mas tenho 7, inclusive 1 na Argentina em novembro/2011. Tive essa experiência de viajar com fãs amigos e conhecer outros loucos como nós, de todos os cantos do mundo, que seguem com a banda como uma peregrinação quase “religiosa”. Uma grande e única família.

  • rafael

    que ele não tem mesma voz desde o No Code é verdade – ainda bem. Canta muito melhor desde então do que no começo da banda

  • Guilherme

    Esse é o “problema” de assistir shows incríveis como o do Pearl Jam, depois que acaba dá essa depressão. Assisti em Porto Alegre o Paul McCartney, o Pearl Jam e o Roger Waters. Foram 3 das coisas mais incríveis que eu já presenciei, e dá essa depressão de saber que o leque de bandas que podem transmitir essa sensação novamente cada vez é menor.

  • Ana

    @Carlos Amato, não significa que eu não ouça o Backspacer e o Abacate de cabo a rabo algumas vezes por dia, hahahaha, mas eu sou fã… em valores absolutos, acho bem irregular.

    @rafael, prefiro a versão pós No Code da voz do Eddie, também. Mas não é mais a mesma, e isso pra alguns é um problema (pra mim não é).

    @Guilherme, é 🙁

  • Ótimo texto, Ana. É sempre um prazer ler relatos como o seu, fato corriqueiro entre nós fãs do Pearl Jam. Estive lendo alguns reviews dos shows da turnê em questão e me impressiona tanta satisfação expressada pelos que tiveram oportunidade de ir aos shows. São relatos recheados de emoção, contando experiências bacanas, principalmente no que se refere à relação da banda com o público e até mesmo do público entre si. Tive o privilégio de ver o Pearl Jam ao vivo por duas vezes e me senti rodeado de verdadeiros amigos, mesmo nunca tendo visto todas aquelas pessoas a minha volta. A banda transmite esse espírito de camaradagem, um clima amistoso e que faz com a gente se sinta plenamente à vontade frente aos nossos maiores ídolos na música. Espero que eu ainda consiga ir a algum outro show do Pearl Jam, atestar que como um bom whisky, o Pearl Jam melhora com o tempo. E mais de 20 anos é coisa de primeira, rs.

  • Juliana

    Adorei o texto e me arrependi de não ter planejado ir à Europa para acompanhá-los. Seu texto expressou bem a razão da banda ser viciante.

    Já fui em (apenas) quatro shows deles aqui no Brasil e depois do último que fui, em Curitiba, quase larguei tudo para vê-los em Porto Alegre, mas em cima da hora ia ficar absurdamente caro ir de SP pra Poa e eu desisti. E olha que no começo do show de Curitiba eu estava achando que o show ia ser bem parecido com os de SP, mas depois de Dissident a coisa engrenou e acabou sendo o melhor show que fui!

  • Fui nos dois shows deles em SP no ano passado e, mesmo de férias e viagens marcadas, minha vontade foi largar tudo e acompanhar os outros shows da turnê aqui do Brasil, porque foi sensacional. Fazia muito, MUITO tempo que uma banda não me deixava tão embasbacada assim.

  • igor

    parabéns por tudo! fui a um show da tour do ano passado e se eles voltarem no próximo irei a todos… meu maior sonho de rock (acho que cumpri quase todos os shows que já esperei ver na vida) é ver um show do eddie solo, até já sonhei dentro de um show dele, antes de começar, na expectativa e acordei

    =D

  • Safira

    Olá Ana!!!

    Fiquei arrepiada em ler o teu relato, porque estive em Berlim também para ver este show do PJ. Este foi o meu 4º show e depois dele, é indubitável: não há nada como PJ! NADA!!! É uma entrega incondicional!
    Conheci o Eddie aqui em Curitiba, e realmente é fato: é o cara mais simples do mundo! Droga!! Eu queria tanto me decepcionar com ele para gostar menos!!! Hahahahaha!!!
    E vamos combinar de ver PJ em algum lugar por aí!

    Safira

    PS: só faço a ressalva no que tange aos seus comentários sobre os dois últimos álbuns. Não são os melhores, mas também não são medíocres, em especial o Backspacer.

  • Ana

    @Safira, esse foi meu ponto quando eu sai do show, uma tentativa vã de racionalizar aquilo. MInha conclusão, que eu disse aos amigos que estavam comigo, nas mesmas palavras que vc suou: não há nada como o Pearl Jam no mundo. O que eles fazem nos shows e a maneira como a plateia e eles se conectam é inexplicável, nunca aconteceu em nenhum outro show em que eu estive.

    Óia, só de falar eu me arrepio. hahahaha

  • Que texto incrível. É sempre muito bom encontrar um texto com que me identifique tanto. Mas é melhor ainda olhar os comentários e ver tanta gente compartilhando o mesmo feeling.

    Só imagino o quanto deve ter sido sensacional encontrar o Eddie num museu dos Ramones. Hahaha eu acho que ficaria com cara de tonta e esqueceria todas as palavras , tirando “potato”.