Jens Lekman – I Know What Love Isn’t

Corações recebem discos do Jens Lekman, basicamente, das seguintes formas: os despreparados podem achar brega demais; os bem recheados acham tudo bem bonito; os feridos, tudo muito sensível. Aqueles que se mantêm indiferentes ou inertes, não podem realmente ser considerados corações. Não como uma caldeira de emoções, apenas como um músculo.

De forma abstrata, é isso que também divide a categoria dos compositores. Existem aqueles que convertem sentimentos em música e aqueles que vão além disso, transformando cada canção em sentimentos, novamente, no ouvinte. Talvez fique mais fácil de compreender tudo isso ao ouvir I Know What Love Isn’t, o terceiro LP do Jens Lekman, que parece especialista no assunto desde sua estreia.

O sueco chegou a dizer que não pretendia voltar, cinco anos depois de seu último disco Night Falls Over Kortedala, com um álbum sobre fins de relacionamento. Pra isso tentou se reinventar, mudou o ponto de vista, procurou sinceridade em cada composição e, no fim, estava novamente no ponto de partida: cantando exatamente sobre términos e desilusões amorosas. Então, já que faria isso de novo, decidiu fazer da melhor forma que poderia (e um pouco diferente do que vinha fazendo até então).

Se a estreia When I Said I Wanted To Be Your Dog mostrava arranjos mais crus, e o segundo lançamento momentos bem mais elaborados, o terceiro disco procura o meio termo e expressa o que o compositor entende por um minimalismo. Basicamente composto por cordas e poucos sopros, as faixas prezam pelo lirismo de cada canção. E o capricho não fica só em cada harmonia – letras que destacam momentos como “You don’t get over a broken-heart / You just learn to carry it gracefully” são de preencher e aquecer aquele músculo do qual falei lá no primeiro parágrafo.  Resumindo, Jens Lekman é puro amor.

Nem mesmo o solo brega de saxofone consegue estragar a linda canção que é “Erica America” – mesmo não sendo a melhor do disco, o single representa bem a entrega do cantor. Destaque para as melancólicas “She Just Don’t Want to Be with You Anymore” (que nome de cortar o coração!) e “I Want a Pair of Cowboy Boots” (talvez a mais bela do disco, ao lado de “Become Someone Else’s”).  Para as mais animadinhas, “Some Dandruff On Your Shoulder”, “The World Moves On” e “I Know What Love Isn’t” lembram o lado mais twee de Lekman.

Os momentos ruins do álbum surgem quando um exagero ou outro te lembra como soar romântico e sentimental anda tão fora de moda. E é também isso que faz I Know What Love Isn’t parecer tão deslocado no tempo, mas não de uma maneira somente negativa. Se em certos momentos ele fica fora da sua realidade, em outros ele funciona e deixa a sensação de que irá funcionar a qualquer hora, com uma impressão maior de longevidade para cada faixa.

Se o compositor quis tomar um caminho diferente para se tornar mais distante do que vinha fazendo, a capa desse lançamento ilustra bem o sentimento que fica ao final da audição: não há como fugir de si mesmo sem olhar pra trás. E talvez fique para um próximo álbum essa mudança acontecendo, porque, por enquanto, ainda temos o mesmo Jens Lekman sentimental de sempre – não tão certeiro como pede o roteiro, mas mais sincero do que a maioria dos cantores de sua geração.