John Grant - Pale Green Ghosts

John Grant
Pale Green Ghosts

Bella Union

Lançamento: 11/03/13

Just when I think I’m winning
When I’ve broken every door
The ghosts of my life blow wilder than before
Just when I thought I could not be stopped
When my chance came to be king
The ghosts of my life blew wilder than the wind

Japan, “Ghosts”

Pale Green Ghosts é um daqueles discos. Aqueles que oferecem um bando de coisas. Você não tem outra escolha a não ser se sentar e sentir tudo. Parece ser feito do mesmo tecido que Maxinquaye, do Tricky- ambos te arrastam para um armário cheio de fantasmas do passado. Em vez da sampledelia de Tricky, Grant escolhe o glamoroso synth pop; em vez de ser gravado na vibe caótica de Londres nos anos 90, Pale Green Ghosts foi gravado na remota Islândia, em 2012: o disco é espaçoso, a parte eletrônica perfeitamente arranjada por Grant e por Bingi Viera, da banda Gus Gus, com backing vocals de ninguém menos que Sinead O’Connor. O “gelo antártico” da música eletrônica combinado com o calor da voz de Grant é irresistível, arrebatador – imagine o resultado da parceria de John Foxx com David Bowie na sua época de “The Man Who Sold The World”. Ou podemos imaginar “Tin Drum” do Japan David Sylvian sem a androgenia.

Eletrizante e capaz de arrepiar todos os pelos de seu corpo, “Pale Green Ghosts” abre o disco: o ritmo pulsante é carregado pelos sintetizadores. Você sente que está no carro com Grant, olhando à sua frente a estrada aberta e deserta e à sua janela a linha do horizonte que separa o oceano e o céu. Em seguida, “Black Belt” é o “Gold Digger” de Grant: com uma bassline groovy, aguardando um remix do The Shoes certamente, Grant expõe um Toy Boy de seu passado: ele pode gostar de S&M e ter lido um ou dois livros sobre o pós-estruturalismo francês, mas nunca será hardcore. Jamais. Grant é dono de um radar que enxerga através de todas as suas besteiras. Talvez seja porque ele mesmo aprontou de todas. É justamente esta habilidade excepcional, um tanto peculiar, que faz de “GMF” um ótimo (porém sarcástico) pedido de afeição à la Heathcliff, de O Morro dos Ventos Uivantes: apesar de ser um moço difícil, de reputação notória, e caráter duvidoso, Grant irá te amar/odiar como ninguém na sua vida.

“Vietnam” tem um gosto amargo. Imagino Grant como um crooner em um salão vermelho com sua orquestra, contando como o amor é um campo de batalha (sorry, Pat Benatar!) e como apanhou da vida, e como acabou com a raça dela também. “It Doesn’t Matter To Him” é uma carta aberta para um ex-amante: Grant tem sucesso e prestígio, mas nada disso importa se ele é invisível para o seu sweetheart. Sufoco, vergonha e incerteza – sentimentos não muito agradáveis, eu sei, mas humanos, demasiamente humanos – escancaram a vulnerabilidade de Grant em “Why Don’t Love Me Anymore” e “You Don’tHave To”. Nada como o desprezo, hein? “Sensitive New Age Guy” tem uma batida 4/4 de house digna da legendária Paradise Garage. Imagino o que o Andy, do Hercules and Love Affair, pode fazer com essa música. O clima muda de eufórico para melancólico em “Ernest Bornigne”: o clímax é atingido e dissipado através de grito estridente – como se Grant estivesse experimentando um episódio de despersonalização, um surto, como se o seu self estivesse se desintegrando lentamente. Os pedaços que restaram do homem que ele já foi são colocados juntos na saudosa “I Hate This Town”, enquanto “Glacier” conclui que o melhor a se fazer é seguir em frente, doa o que doer – enfim, o final perfeito para um disco tão puro e magnífico.

O sucessor de The Queen of Denmark, eleito o melhor disco do ano pela revista inglesa Mojo, não é pouca coisa. Pale Green Ghosts é cinemático, envolto em histórias e anedotas vindas de um homem que viveu várias vidas. Grant passou por maus bocados: sua banda antiga The Czars terminou de uma forma traumática, após 10 anos na estrada; Grant lidou uma vida inteira com a depressão e alcoolismo e em 2012 recebeu o diagnóstico de que era HIV positivo. Acho que aí está o fator X do disco: acontecimentos tempestuosos, um atrás do outro, e Grant se mantém invencível. Um disco parecido tematicamente seria o de James Blake, Overgrown – ambos tentam enfrentar o terrível labirinto da ambiguidade da vida, embora Overgrown seja signo da melancolia do homem do século 21, este sendo cada vez mais enjaulado pelo neoliberalismo. Já Grant luta contra seus fantasmas assim como Teseu combateu o terrível Minotauro. É necessário coragem herculana ao revisitar seus erros e acertos para qualquer um de nós, mas em nenhum momento você sente pena de Grant, pois você sabe que ele merece mais. Ao escrever sobre seu personagem Philip Marlowe, Raymond Chandler poderia estar falando de Grant: “Seu destino é ser solitário e confuso, mas nunca derrotado”.

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