Jónsi – Go

Sigur Rós é uma daquelas bandas que, apesar de ter um som muito peculiar, são aclamadas por muita gente. Quem nunca viu todos os elogios rasgados da Pitchfork – ou até mesmo de Chris Martin, vocalista do Coldplay – endeusando o grupo islandês? Todos eles são justíssimos – afinal, ouvir Sigur Rós é uma experiência quase espiritual.

Sendo assim, quando o hiato da banda foi anunciado e Jónsi, líder do Sigur, disse que iria lançar um álbum solo, muitos torceram o nariz. Mas eis que o primeiro CD do cantor, composto em inglês quase integralmente, vem com força total, traçando um estilo novo em meio à “névoa sigurosiana” e, também, com elementos já mostrados aos fãs.

Para apresentar essa nova fase do cantor, nada melhor que a faixa de abertura do álbum, “Go Do”. Nela, o que se pode ouvir é um Jónsi bem mais empolgado e animado do que de costume, carregando os batuques remanescentes da faixa “Gobbledigook” dentro de uma atmosfera leve, pouco apressada. A sonoridade de todo o álbum casa perfeitamente com a linha visual adotada por Jónsi: um clima naturalista, com uma arte que faz referência a pássaros e com cores quentes destacadas.

A segunda música do trabalho, “Animal Arithmetic”, ilustra o exemplo ainda melhor, mostrando versos em que os falsetes, velhos amigos de Jónsi, não predominam.  Isso volta a acontecer em outra faixas, como em “Tornado”, que vem na sequência – e vem para deixar suspirando os fãs de Sigur Rós, apesar de não ter o perfil exato das músicas do principal trabalho de Jónsi. Há toda a orquestração, mas um clima único, diferenciado, é criado pela associação de batidas cheias de contratempos. “Boy Lilikoi”, a primeira música do trabalho que chegou aos nossos ouvidos, é mais uma da fase animada e colorida anunciada.

“Sinking Friendships” se inicia com um interessante jogo de vozes dispostos de uma forma a criar o ritmo da música. Essa faixa se situa entre os dois “extremos” do álbum: as músicas enérgicas, que parecem celebrar a vida, e as músicas mais lentas e “reflexivas”. “Kolniður” entra para o segundo grupo, mostrando que Jónsi pode também arrasar corações sem o falsete a todo o tempo. “Around Us” é linda, agitada e com um refrão bem harmônico,  que em determinado momento nos apresenta uma das passagens mais interessantes de Go: há uma mudança estrutural sutil e eficiente da música de quatro para três tempos – tão sutil que você nem chega a percebê-la se não estiver atento. Ponto pro Jónsi! Para finalizar o disco, vêm as duas músicas com mais cara de Sigur Rós: “Grow Till Tall” e “Hengilas”, ambas  altamente reflexivas.

Depois de ouvir Go por várias vezes, o que se pode perceber é que o trabalho parece ser uma evolução do que o Sigur Rós começou a fazer em seu mais recente álbum, Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust. Aliado ao estilo artístico naturalista e às músicas em inglês, o CD solo de Jónsi parece algo bem mais convidativo (principalmente para o público americano) do que os registros do Sigur Rós. Independente de teorias sobre o propósito dessa renovação sonora, uma coisa é certa: Jónsi acertou mais uma vez, para a alegria daqueles que buscam um plus quando o assunto é emoção e arte.

  • Eduardo Azeredo

    Muitos fãs torceram o nariz pro último álbum do Sigur Rós por ele soar mais acessível que tudo o que o Sigur Rós tinha feito até o “Takk…” e isso pareceu mexer com a banda a ponto de terem vendido o estúdio moderníssimo que tinham no interior da Islândia.

    Posso estar enganado mas o Sigur Rós preferiu mudar de direção e largar o caminho pro pop em que estava o Endalaust. Mas ao mesmo tempo é um álbum muito bom pra muita gente e é legal ver o Jónsi continuar essa campanha por esse pop diferente.

    No final das contas temos um grande álbum saído da mão do Jónsi (que evoluiu monstruosamente desde o começo “metaleiro aguado” Sigur Rós) com uma sonoridade que pareceu quebrar a cabeça do Sigur Rós.

    Não podia ser melhor. Todo mundo ganha!

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  • Vitor,

    Inicialmente quero agradecer a excelente máteria sobre Jónsi…mto bom mesmo…amei qdo vc. fala em estado de espirito…isso só nos alimenta a cada dia…parabéns.

  • Vitor

    Valeu Zeca!!