Juçara Marçal - Encarnado

Juçara Marçal
Encarnado

Independente

Lançamento: 18/02/14

Exato um ano atrás, o Passo Torto de Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral subia o volume das guitarras em riffs carregados de sujeira, travando espaços com os dedilhados melódicos de um samba incomum na produção de Passo Elétrico (2013). Hoje, a recusa em se fazer simplista encontra a voz da veterana em disco estreante Juçara Marçal para traçar caminhos pouco visitados. Em meio ao descompasso natural dos paulistanos, a temática se descobre tão naturalmente quanto se poderia supor: a obsessão da cantora última ação antes do fim, acompanhada pelos dedilhados tortos de sua banda de apoio, conduzem os envolvidos na criação de um álbum que fala de morte. Deixam a morbidez de lado, entretanto, para praticar um zoom sobre o que de nobre o ser humano é capaz ante a finitude inevitável dos dias, ou de desesperado no momento em que nota o ponto final de uma história.

Figura conhecida da vanguarda paulistana desde os idos da década de 90, Juçara finalmente sentiu a necessidade de se expressar como unidade, não mais parte da influência conjunta dos muitos grupos dos quais já fez e faz parte, mas tomando as rédeas de um álbum sob nome principal e assumindo as responsabilidade por seus resultados sozinha. Afoita pela canção tradicional brasileira e suas influências, qual gênero/sonoridade assumiria Juçara na construção do pano de fundo de suas faixas? As opções entre os nove álbuns dos quais já participou como nome de decisão no todo eram múltiplas: o estudo de ritmos africanos do Padê, a linha que se aprofunda no cancioneiro tradicional nacional d’A Barca, a ausência qualquer de instrumentos no grupo Vésper, ou o instável cenário que desmontava a MPB para reformá-la torta e suingada no Metá Metá, ao lado de Dinucci e Thiago França. Marçal optou – então – pela desordem que ouviu ao presenciar um show do Passo Torto, apontou seus interesses para a desconstrução e convidou parte da banda (Dinucci e Campos) para ampará-la na criação do primeiro solo.

O conformismo ou a simples constatação do fim abre os ouvidos e o disco em “Velho Amarelo”, composição de Rodrigo Campos onde a morte chega inevitável a um velho que muito viu, mas nem por isso se entrega sem implorar pela vida: “Não diga que estamos morrendo/ Hoje não.”

Revivendo músicas de outros compositores que se encaixem na temática de desaparecimento ou nos ritmos que remontem o mistério da finitude, Marçal enfileira faixas como “Pena Mais Que Perfeita”, de Gui Amabis, uma valsa desafinada em contraponto à comedida versão originalmente lançada em Memórias Luso Africanas (2012); a esquizofrenia – simbolizando a morte da razão em um corpo ainda com vida – em “E o Quico?”, samba do ídolo Itamar Assumpção retirada do álbum Sampa Midnight (1983); além do viés cômico nas reflexões da morte como personagem principal em “A Velha da Capa Preta”, canção de Siba sob sombras mais coloridas junto a sua Fuloresta. Desavisada, porém, ao recriar faixas de outros artistas, somando suas experiências e impressões, acaba por produzir a própria cria, descobrindo-se também compositora na quase prece “Odoya”.

A anarquia dança ao redor das notas escolhidas para pontuar o disco. Berros e as linhas de guitarra criadas por Dinucci e Rodrigo Campos encontram campo fértil na manifestação de sensações como  loucura, o caos e a desordem de faixas como “Não tenha Ódio no Verão” do prolífico Tom Zé,  revelando ainda que o clima de desestrutura ausenta, inclusive, o uso de instrumentos de percussão. Baixo e bateria dão lugar às já citadas guitarras, além de cavaquinho e rabeca numa óbvia recusa às fórmulas fáceis e abertura a uma dimensão de experimentações. Todo o caminho seguido de modo torto prepara o ouvinte para a segunda parte do álbum, onde as composições têm seus melhores resultados, caso do verdadeiro tour de force que é “Ciranda do Aborto”, praticamente uma síntese das ideias que permeiam o álbum, onde inconstância, dor e adeus se solidificam  em um ambiente repleto de pontas de instrumentais seguindo um acesso particular, acompanhadas pela voz de Juçara numa crescente carregada de sofrimento; faixa que na certa tem vaga garantida nas listas de melhores  do ano. Após a desordem, Marçal se aquieta e fecha o registro em voz tímida de contadora de histórias na crônica “João Carranca”; sem ruídos, profusão de cordas ou gritos, testemunha a morte da juventude e da beleza em tom observador, como quem diz que viu mais do que gostaria.

Apesar de conter um punhado de faixas já vistas anteriormente – ao menos pra quem mantém atenção na cena independente paulistana –, este não é um disco de relançamentos. Juçara definitivamente não é só uma cantora fazendo releituras de canções, mudando um arranjo aqui e acolá pra mascarar a falta de novidade em sua obra. Marçal traz de volta a rara qualidade da intérprete que cria: guia seus músicos na direção da reinvenção e manipula a própria voz na tentativa de transformá-la em instrumento independente. Verve antes vista em pouquíssimas situações, seja o furacão que marcou a curta existência de Elis, o eterno descobrimento de bons compositores que marca a obra de Ney Matogrosso, ou o peculiar timbre de Tulipa Ruiz.

Preocupa-se também em não apenas soar “oposta” à canção original, mas apropriada.  Afinal, a desconstrução por si só não é garantia de qualidade.

É certo que o cenário internacional abrirá seus olhos ante a multiplicidade de Encarnado, assim como o fez a revista The Wire, observando os sons do Metá Metá muito antes que muito blog independente em terras daqui os desse devida atenção. Aqui, Juçara revira os holofotes e demonstra o que se pode fazer quando suas influências são estritamente nacionais e tão profundas que se misturam aos sons africanos e a ode às religiões que culminaram no candomblé. Inova  ao trazer novos argumentos a um tema tão sombrio e de pouca aceitação quanto a morte, sem abraçar obviedades como baixos lúgubres e bateria nervosa. Consegue, ainda, apresentar-se a um novo público, que, na certa, já a ouvira antes mas não deteve atenção suficiente para desvendar seus interesses; e aos que já a acompanhavam, prova-se merecedora de tal observação. Enfim, você precisa conhecer Juçara Marçal, uma artista que não tem medo da estreia, ou da morte. Tanto que se veste de fim para encarnar o próprio corpo.

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