Julia Holter - Loud City Song

Julia Holter
Loud City Song

Domino Records

Lançamento: 20/08/13

Tragedy, o disco de estreia da Julia Holter de 2011, era uma obra ferozmente experimental: com faixas longas, colagens sonoras e a voz fantasmagórica da cantora acompanhada por todo tipo de sons estranhos, ela não faria feio no meio do catálogo da Tzadik (gravadora do John Zorn). A partir dela, a cantora parece ter se esforçado para domar e disciplinar seus instintos vanguardistas. As primeiras amostras desse desenvolvimento apareceram em Ekstasis, seu álbum de 2012, já bem mais acessível e coeso que o primeiro trabalho. Mas o que a Julia Holter nos entrega em seu terceiro álbum é ainda melhor do que aquele disco permitia esperar. Em Loud City Song, a cantora dá forma perfeita ao seu estilo incomum de compor, resultando numa obra que consegue ser cativante, apesar de ser totalmente inusual.

A voz de Holter é o fio condutor do disco: suave, clara e perfeitamente articulada, ela atrai e prende a atenção do ouvinte através das faixas, que fogem da forma tradicional de refrão-verso-refrão sem que, por isso, se tornem “difíceis”. A genial “In The Green Wild” é o melhor exemplo disso: começa com um riff de baixo acústico matador e vai seguindo, de melodia em melodia, sem largar o pescoço do ouvinte em momento algum. As sílabas ligeirinhas que a cantora entoa mostram o controle estarrecedor que ela tem da própria voz, pela forma como ela consegue se manter delicadamente afinada mesmo em baixo volume e alta velocidade. Na “Hello Stranger”, por outro lado – a única faixa à qual talvez fosse aceitável aplicar o rótulo de “ambient”, que separa as duas metades do disco como um lago tranquilo entre montanhas -, Holter derrete sua voz como manteiga por cima de um belo arranjos de cordas, cantando melodias compridas que se desenvolvem lenta e languidamente.

Assim como a ótima “Goddess Eyes”, do disco anterior, “Maxim’s” – uma das faixas mais legais – é desdobrada em duas partes (ou seriam duas versões?) ao longo do disco. A primeira apresenta melodias e letra num clima grandioso e confortável, em meio a ondas de pratos ruidosos. Na segunda, porém, essas ideias são desenvolvidas e distorcidas, a sonoridade é mais agressiva aos ouvidos, o clima é mais incômodo e hostil, e a faixa desemboca numa incrível cascata de saxofones dissonantes. A letra se encaixa bem no conceito do álbum: parece falar sobre fofoca – uma ideia que os sussurros da cantora traduzem maravilhosamente – e sobre a tensão que a vigilância dos outros traz, através do ponto de vista de um casal que se encontra no restaurante que dá título à faixa, e sente sobre si os olhares inquisidores dos pássaros. Essa mesma tensão parece ser o tema da “Horns Surrounding Me”, uma das poucas com um claro refrão, que começa com o som de passos rápidos e respiração ofegante. Logo, metais insistentes entram na faixa, criando uma cena de perseguição ou de caça, que culmina nos acordes incomuns do refrão.

O disco, aliás, tem uma coesão temática admirável, que faltava nos outros álbuns da compositora. A capa escura e o título sugerem a sensação de solidão e leve ameaça que a noite urbana às vezes proporciona, e essa sensação é explorada amplamente ao longo do disco, tanto nas letras quanto nos sons. A primeira canção, chamada “World”, parece um monólogo da cantora sobre as bizarrices da vida “civilizada”, acompanhado por sons orquestrais que crescem com a voz dela.  Mas é a faixa final, “City Appearing”, que melhor evoca esse clima, com a voz suave da cantora acompanhada por um baixo acústico, piano e uma bateria tocada com vassourinhas cheia de lindas nuances – quase como se ela tivesse convidado Bohren Und Der Club Of Gore para acompanhá-la na faixa. Faz sentido que ela encerre o álbum, já que resume, em seus sete minutos, as melhores qualidades dele.

O maior mérito do álbum, no entanto, é que, por mais que certos aspectos de suas faixas tragam à mente outros artistas, o resultado final é lindamente original. Há algo de Kate Bush na forma como Holter se envolve com suas letras e, mais que simplesmente cantá-las, interpreta-as. E também não seria inadequado compará-la à Björk, pela forma como ela experimenta com a própria voz, cantando de várias maneiras estranhas e harmonizando consigo mesma. Mas para se chegar a esse álbum partindo dessas duas cantoras, seria necessário acrescentar um pouco da sonoridade do jazz, um pouco de música erudita do século XX e uma pitada de surrealismo nas letras e nos arranjos. Loud City Song é a impressionante conquista de uma compositora que, partindo de experimentações radicais, atingiu uma sonoridade fascinante, convidativa e só sua.

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