Julianna Barwick - Nepenthe

Julianna Barwick
Nepenthe

Dead Oceans Records

Lançamento: 20/08/13

Nepenthe é o terceiro álbum de Julianna Barwick (contando o relativamente obscuro Sanguine, que ela lançou por conta própria em 2006) e sucessor do belo, porém imperfeito The Magic Place, de 2011. O som do disco é o que se poderia esperar da cantora norte-americana: longas e melancólicas notas de sua bela voz, formando melodias curtinhas, sobre as quais ela começa a empilhar mais e mais vozes, criando uma atmosfera extremamente envolvente e emocionante. O resultado desse processo é um som que lembra as faixas mais compridas de Brian Eno (como as do Music For Airports) e que não está muito distante do som do Grouper – embora a ênfase que Barwick dá à sua própria voz (que não canta em nenhuma língua conhecida, na maior parte do tempo) torne o som geral do álbum ainda mais orgânico e “vivo”.

O maior problema do The Magic Place era que seu som começava a ficar repetitivo e, consequentemente, desinteressante mais pro final. Era um álbum cheio de momentos lindos, mas com um ritmo desequilibrado, por mais que Barwick acrescentasse um piano aqui, um baixo ali, para dar variedade às faixas. Em Nepenthe, a cantora aborda esse problema: ele é um pouquinho mais curto que seu antecessor; a média de duração de suas faixas é menor; e mesmo assim, ele tem dez canções, contra as nove do último disco. Além disso, o álbum (gravado na Islândia com o produtor Alex Somers, colaborador de longa data do Sigur Rós) conta também com participações do quarteto de cordas Amiina em algumas faixas. Embora essas mudanças amenizem esse empecilho, elas não o eliminam de todo.

“Offing”, a faixa que abre o disco, mostra que o modo de composição de Barwick permanece inalterado: um fragmento melódico lento e profundo é desenvolvido, e vai se tornando cada vez mais envolvente e etéreo ao longo de três minutos. Mas a faixa seguinte, “The Harbinger”, escapa um pouco dessa fórmula monotemática, variando entre algumas melodias, e o resultado é sensacional. Começa com um chiado estranho e levemente desconcertante, mas logo as muitas vozes da cantora amenizam essa tensão. A elas, se une um piano, e eles vão crescendo e se modificando até mais ou menos a marca dos três minutos e meio, quando, após uma breve pausa (e uma intervençãozinha de uma flauta!), as cordas entram e os instrumentos todos atingem um apogeu maravilhoso. Talvez seja a melhor faixa da cantora, além de uma das mais belas do ano, e seria surpreendente se ela não fosse usada por nenhum diretor de cinema como acompanhamento para alguma cena tocante.

Sobra beleza ao restante do disco, mas falta variedade: às vezes é difícil distinguir uma música da outra, e os traços característicos de cada faixa aparecem apenas após algumas audições. “One Half”, por exemplo, é notável por ser a faixa da cantora que mais se aproxima de ter uma letra, e é interessante ficar tentando discernir as palavras que a cantora escolheu. Algo semelhante acontece no final da “Forever”: por cima do enorme coro de vozes, uma linha melódica mais suave se sobrepõe entoando algumas palavras quase inteligíveis. A linda “Crystal Lake” também chama a atenção por acrescentar alguns sons diferentes, como um sintetizador levinho e um piano gravado através de algum filtro estranho. “Look Into Your Own Mind” e “Pyrrhic” são faixas típicas da cantora, e as cordas do Amiina ajudam a torná-las ainda mais emocionantes. Cada faixa, porém, por mais bela que seja, é cercada por outras bastante parecidas, o que acaba diminuindo seu impacto individual.

É gostoso deixar-se afundar no oceano de vozes que Barwick conjura, ainda que a sonoridade do álbum se torne um pouco previsível e cansativa ao longo da segunda metade. Quando a cantora nos dá tchau na última faixa, “Waving to You” (a única na qual nenhum som é imediatamente identificável como uma voz), ela deixa ótimas memórias, mas não muita saudade. O formato do álbum, com dez temas curtos, parece ir de encontro ao som que a cantora busca desenvolver. Seria possível que ela juntasse as melhores desse disco e lançasse um EP estarrecedor. Outra possibilidade interessante seria que ela trabalhasse com músicas de duração mais longa, que permitiriam que ela desenvolvesse melhor os elementos melódicos que ela apresenta, e aprofundasse ainda mais a imersão do ouvinte ao longo de mais tempo. De qualquer forma, mesmo com esses defeitos, Nepenthe tem momentos lindos, é uma obra bastante original e interessante, e um notável passo adiante em relação a seu antecessor.

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