Kanye West - Yeezus

Kanye West
Yeezus

Roc-A-Fella

Lançamento: 18/06/13

Um estrondo equivalente a um blitzkrieg vindo de um modulador me faz sobressaltar da cadeira. Jesus, o que é isso? É Yeezus, sexto disco de carreira do narcisista mais adorado do showbizz: Kanye West. West, que vem crescendo e diversificando a sua paleta de sons desde seu debut em 2004, já flertou com synthpop, industrial, soul, indie-rock, freak-folk, enfim, como um bom performer/artista ele nos confunde, mistifica e enfeitiça. Yeezus é monstruoso – somos afrontados com a aberração do Abjeto de Kristeva, o horror do Outro lacaniano que nos alucina, fascina. Oscila entre o fascismo corpóreo da EBM (Eletronic Body Music) e a euforia cibernética da acid house – o uso engenhoso de samples de West desconstrói todos seus (pré)conceitos formados até então. Curiosamente, um conceito que me vem sobre Yeezus acerca das rupturas sonoras seria o de bondage: o Noise recorrente te deixa a mercê de West, completamente passivo e imobilizado. Por isso a minha ambivalência em relação a este disco: ao mesmo tempo em que me entrego completamente ao glam-punk tribal feroz de “Black Skinhead” (uma das minhas músicas favoritas do ano), fico em conflito interno com a misoginia implícita que permeia as rimas de West em “I’m In It”.

Abrindo o disco com uma discordância sonora, “On Sight” é um bombardeio com o riffs teutônicos modulados por um Moog, logo o ritmo é catapultado por um sample de um cântico gospel repentino – temos aqui o artifício modernista da antropofagia, o digital canibalizando o analógico. “Black Skinhead” é uma versão demente do fervoroso “Rock’N’Roll PT. 2” de Gary Glitter, aqui o grandeur militar de West te chama para ir à luta, como um César/Czar pronto para liderar seus rebeldes, um iconoclasta invencível e incansável. “I am a God” é o hino de afirmação egotista no mesmo tom que “Zerstörte Zelle” do Einstürzende Neubauten, os gritos estridentes de West servem o mesmo propósito do grito do enfant terrible do post-punk, Blixa Bargeld: ambos através do grão de suas vozes libertam suas almas famintas da prisão de seus corpos venais.

Retomando o raciocínio do bondage: Battaille, Sade, Genet em suas obras demonstram que tudo se resume em sexo e violência quando se trata das pulsões humanas. West vê liberdade na libertinagem assim como esses pensadores, parece batalhar entre o desejar manter-se em um constante fluxo regulado pelo princípio do prazer (quero minha gratificação agora), e o potencial escondido em um futuro que só existe no princípio da realidade. “Bound 2” é a antítese de todo o catálogo do açucarado grupo de R&B Boys II Men: West distila rimas sobre as mitologias acerca do Romance, narrando o primeiro encontro repleto de entusiasmo e expectativas (ser consumido pelo desejo, o querer ser feliz), a repetição cotidiana que traz as duvidas e incertezas de um futuro (será que até lá chegamos no altar?). Lasciva e extremamente sugestiva, o dancehall robótico de “I’m In It” Kanye cai no clichê misógino do útero que emascula, engole egos – West está dentro e não consegue sair. Contraditório, paradoxal, West desmitifica o encontro carnal entre duas almas, revela o duelo velado entre o Homem e uma Mulher no contexto doméstico (perdão pelas lentes da heteronormatividade) e não oferece jouissance, aquele gozo de se entregar por completo no prazer no/com outro, estar nas nuvens.

Se o “pessoal é político”, então Yeezus consegue escapar de uma possível armadilha binária, o discurso político em Yeezus prova ser bem mais complexo e extremamente pessoal. “New Slaves” é a prerrogativa de West: hoje em uma sociedade cada vez mais desigual, o racismo institucionalizado presente mais do que nunca, ser afluente ou ser influente, eis a questão. Antes o negro era a mão de obra escrava da indústria têxtil americana, agora é o público-alvo do mercado capitalista, logo, para Kanye a escravidão ainda existe, só mudou a marca. A fama transformou West no falo, detentor de todo Poder (dinheiro & mulheres: a economia do cool), ele circula no meio de uma versão sem classe social da História, corrompendo e sendo corrompido pela cidade dos pecados, Los Angeles. “Hold My Liquor” é a confissão sem remorsos de um lobo solitário que se arrasta de festa em festa sob o pretexto de que estar sóbrio é como estar em um coma, à intoxicação é a solução.

O idiossincrático Yeezus ganhou o selo de aprovação do provocateaur de plantão, Lou Reed – coincidência é pouca entre os dois. Embora os assaltos sônicos semelhantes ao muro de feedback de Metal Machine Music são exercícios sobre a psicologia do Terror, a parte mais assustadora de Yeezus não é tão descaradamente violenta. O sample de uma banda hungariana chamada Omega no minuto final de “New Slaves”, logo após as acusações raivosas de West, é um número extremamente melódico, flui como uma canção de ninar, te envolve como um cobertor quentinho, para você depois perceber que ao invés de te acalentar, está te sufocando. Outro momento estranho no disco foi o dueto fantasmagórico de West com Nina Simone em “Blood on the Leaves”, o encontro mórbido entre os dois me lembra como Barthes define gravações; diz que estas são como fotografias, um “ectoplasma do que-já-foi”, pois evocam emoções mesmo depois da vida orgânica se materializar em um objeto inorgânico. “Send It Up” explora a atual condição pós-moderna em retroceder, como existisse a possibilidade de livrar-nos do peso da História. Proust já nos assegurou que para melhor ou pior as “lembranças do passado não são necessariamente de como elas eram”, talvez seja West tentando achar uma resolução para o trauma passado e gravado em My Beautiful Dark Fantasy?

Kanye West é um enigma para a cultura pop desde quando emergiu na cena musical em 2004, críticos e o público quebraram a cabeça tentando decifrar seus feitos para o hip hop. As colagens de sons e samples, com as rimas afiadas e meio cantadas, vinham de alguém que incorpora a militância política do Public Enemy, com o rap consciente do De La Soul, sem abandonar o lado gangsta da vida assim como o N.W.A. West e seu ecletismo o salva de ser rotulado, mas como conseguir manter-se sempre a frente de seus contemporâneos? West resolve esse dilema dos inovadores: experimentar com o estranho, navegar em águas desconhecidas. Em Yeezus, predomina a faceta Afro-Warrior do ego de Kanye West, em seu DNA corre o mesmo do Curtis Mayfield, Sun Ra, Miles Davis, Goldie. Um übermensh acima de todas as leis e códigos morais ocidentais falíveis – mas se não existe a Verdade, tudo é permitido? Yeezus, como um intenso encontro com o Sinistro, te faz ir além da capacidade humana para a boçalidade ou sapiência, é uma experiência por si só. Não consigo chegar a nenhuma conclusão, tamanha complexidade inibe qualquer tentativa de raciocínio lógico. Somente tenho certeza de uma coisa: para Kanye é fácil amar e ser amado, odiar e ser odiado, o difícil é ser gentil.

  • PAMPLONA

    esse disco é muito fino…