Katy B - Little Red

Katy B
Little Red

Columbia

Lançamento: 07/02/14

O pop é pra ser fácil. Ponto. Canções de fácil assimilação seguindo fórmulas preconcebidas décadas atrás, como os refrões chiclete e os impiedosos timers de 4 minutos, que exigem que as faixas de um disco sejam tão longas quanto um comercial de TV – mas, nem por isso, sem conteúdo artístico algum. Essas são bases quase que escritas em pedra por gigantes do gênero, como Madonna, Prince, Michael e companhia. Verdade é também que do boom das boys bands aos dias de hoje, poucos são os artistas que mostram preocupação em fazer com que os pés de seus admiradores dancem sem que seus ouvidos sintam repulsa pelo que toca ao fundo. Fato que torna uma passeada por estações de rádio tarefa cada vez mais desafiadora. Da noite britânica, girando entre canhões de luz e uma voz que pega emprestado a malícia do R&B, Katy B lança seu segundo álbum, derrubando um pouco mais a noção descartável que o pop recebe da crítica e avançando um pouco mais numa estética que evolui de suas próprias convicções.

Espremida na luz que traz aos ouvidos dos passantes mais informações que se parece possível de absorver, Kathleen Brien conseguiu espaço, ao menos na cena britânica – sempre carente da pop music desde o hiato de Lily Allen –  no bem recebido debute On a Mission“(2011). Retorna agora com Little Red (2014), em mais uma investida ao centro da noite, entre influências musicais que seguem a curtos passos de distância o dubstep, UK garage e um pouco de house, servindo de pano de fundo para suas voltas numa madrugada que reserva de transtornos de ansiedade a ciúme de observar outra mulher dar em cima de seu namorado DJ. Katy canta de forma madura e acessível na mesma medida, esperando uma expansão em seu público-alvo.

“Next Thing” abre o álbum no talo: beats eletrônicos do final da década de 90 com a – quase – veterana da noite Katy disparando dicas de como se divertir. “Aaliyah” resgata verve nostálgica em letra ciumenta com participação da onipresente Jessie Ware, uma das vozes responsáveis pelo retorno do R&B noventista ao status cool e colaboradora em outro ótimo representante do pop/eletrônico: Settle (2013), dos irmãos Disclosure. Mas é “Crying For No Reason” que revela alguns dos novos interesses e pontos divergentes de Kathleen, como, por exemplo, subverter uma faixa aparentemente simples, cria fácil de Rihanna ou Katy Perry, e revelar seu potencial de hit ao construir uma balada melancólica sem pontas soltas ou exageros de divas pop norte-americanas, feito que até o momento só viu trunfo nas mãos de Robyn e seus hits de auto-piedade quase exorcizantes.

Em Little Red, Brien diminui o ruído da histeria house que se apresentava na boa, mas pouco dinâmica estreia, sabendo dosar melhor seus interessantes. Impulsiona ainda a imagem que a fortifica cada vez mais como figura da noite, usando de vídeos que mostram investidas a mansões em festas particulares até faixas que trazem óbvias referências, como a relação amor-solidão-drogas em “5 AM” e na ótima “All My Lovin’”, mas sem se deixar cair no lugar comum. A cantora escolhe se deixar mais assertiva em vez de simplesmente empunhar um “I need you more than dope” qualquer. Inteligente, traz boas letras para embalar o corpo sem que outros sentidos se ofendam, entre faixas que versam sobre o vazio de fim de noite, corações partidos ou a simples dádiva de poder dançar sem se importar com o resto.

Não reinventa o gênero ou traz novos elementos à velha (e cansativa) discussão que inquere sobre a seriedade da música pop, claro. Mas ao menos Katy subverte clichês, como as baladas de abandono e os passinhos no centro da pista, como o fizeram Justin Timberlake e Beyoncé em seus últimos lançamentos. Sem dúvida, a pompa e a circunstância que embalam o pop em papel brilhante comerciável são importantes, mas não seria ainda o centro disso tudo a qualidade musical? Entre espetáculos teatrais com roupas esquisitas e línguas de fora, Katy tenta seu lugar ao sol. Resta saber se a voz limpa e de poucos vícios da cantora tem força pra ecoar numa América que ainda exporta o grosso da música pop para o exterior. Torçamos para que sim.

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