Laura Mvula - Sing To The Moon

Laura Mvula
Sing To The Moon

RCA

Lançamento: 01/03/13

Sing To The Moon é o álbum de estreia de Laura Mvula, cantora britânica formada em composição pelo Conservatório de Birmingham. Essa formação não é mero detalhe: talvez a característica mais marcante desse debut sejam os deslumbrantes arranjos orquestrais, elaborados pela própria cantora, que dão às músicas uma profundidade e um peso incrível, e às letras um impacto muito maior. Graças a eles, as faixas vão além de sua base pop/soul/gospel e se tornam pequenos hinos, o que beneficia bastante as canções individuais, mas acaba prejudicando o álbum como um todo.

O primeiro exemplo desses belos arranjos aparece assim que o disco começa: os maravilhosos e densos acordes vocais que envolvem o ouvinte no começo de “Like The Morning Dew”. Eles se alternam, na música, com seções mais esparsas e calmas, mas reaparecem cada vez mais cheios de detalhes. “Make Me Lovely”, a seguinte, tem uma introdução linda e uma bela melodia. É a primeira de várias do disco compostas em 3/4, com alguns compassos pares sorrateiramente inseridos no meio, e o ritmo imprevisível que esses compassos criam é outro elemento que ressalta a formação erudita da cantora. Nesse aspecto, ela é semelhante à ótima “Can’t Live With The World”, que é suave e tranquila como de uma canção de ninar, e que tem um acompanhamento da orquestra digno de uma cena importante de musical.

Os melhores momentos do disco são esses, em que os arranjos emolduram belas melodias, tornando-as mais impactantes e ressaltando o significado das letras. É o que acontece também em “Sing To The Moon”, que não à toa dá o título ao disco. A orquestra tranquila acompanha a cantora até o edificante refrão, no qual todos os instrumentos e a voz dela (que lembra uma Amy Winehouse menos espontânea, mas mais controlada) desabrocham lindamente. Na bonita e triste “She”, uma batida simples entra no poderoso final da faixa, articulando as inúmeras vozes que cantam juntas. Já “Flying Without You”, embora também tenha um arranjo legal e um ritmo interessante em 7/8, acaba cansando um pouco por não ter melodias tão notáveis quanto as outras, e por não variar muito o volume ao longo de sua duração.

E há também a genial “Green Garden”, de longe a mais descontraída e animada do disco, que tem um ritmo divertido, um monte de sons legais, várias linhas vocais grudentas cantando juntas e um clima contagiante de festa. É um destaque imediato no álbum, e é uma pena que o disco não tenha outras faixas como ela, porque acrescenta algo que falta ao resto do trabalho: descontração. A única outra canção que tem um ritmo parecido é “That’s Alright”, um marcante hino de empoderamento e amor próprio – mas, justamente por tratar desse assunto sério, ela se torna menos imediata. Também não há como negar a beleza da “Father, Father”, um ótimo tema sobre família, nem como não se impressionar com a cuidadosa disposição de elementos musicais na tensa “Is There Anybody Out There?”. Mas a seriedade dos temas abordados pelas letras, associada aos imponentes sons de orquestra que as acompanham, faz com que muitas das faixas do disco sejam mais admiráveis do que propriamente divertidas.

Sing To The Moon prova, de várias formas, a competência e a musicalidade da Laura Mvula. Poucas cantoras conseguiriam tocar de forma tão convincente e comovente nas questões que ela levanta em suas letras, ou vestir suas melodias com arranjos orquestrais tão ricamente detalhados e laboriosamente construídos. Infelizmente, porém, o álbum acaba se curvando por conta de seu próprio peso, e o resultado final do trabalho é menor que a soma de suas monumentais partes. Há ideias musicais suficientes na estreia da cantora pra revigorar vários dos gêneros musicais que ela referencia (e para inventar alguns novos), mas há também uma certa rigidez na forma como elas se articulam que torna a audição mais custosa do que deveria ser. Falta ainda um pouco de tempero à sisudez das composições de Sing To The Moon para que a cantora consiga criar a obra-prima que ela tem o potencial de fazer.

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