Lollapalooza 2013: como se saiu a segunda edição brasileira do festival de Chicago

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Fotos: Divulgação/ I Hate Flash

E lá se foi mais uma edição do gigante americano Lollapalooza em solo (lamacento) brasileiro. O de 2014, pra quem ainda não viu, já está confirmado: será nos dias 18, 19 e 20 de abril. Sobre 2013, ficarão marcados alguns grandes shows, mas que dividiram o palco com erros e perrengues desnecessários.

Na sexta, dia de abertura do Lolla, o Holger começou os trabalhos do Palco Butantã com guitarras agudas e sua festa percursiva-tropical, que tinha, curiosamente, uma extensão eletrônica ao lado, com um set diversificado e agitado de Boss In Drama. Em seguida, o Of Monsters and Men chamou a chuva e entregou uma das performances mais divertidas e bonitas de todo o festival. Com bons músicos e uma loirinha que se revezava entre vários instrumentos com graça e competência, os islandeses surpreenderam – e bastava uma olhada ao redor para mirar rostos encantados com a improvável festa indie folk promovida no palco.

Depois da primeira “lavada de alma”, uns churros cairiam muitíssimo bem não fosse o preço nada convidativo daquele copinho com alguns exemplares da iguaria. Vai ficar pra próxima. Mas se não temos churros, temos… Cake! Que, na verdade, não fez lá muita coisa, mas animou o público com seu “rock de pai”, alternando músicas chatinhas com outras animadas, como “Short Skirt/Long Jacket”. E aí teria o Flaming Lips na sequência, pra quem tivesse paciência. Uma boa troca foi pegar uma cerveja e se surpreender com o Red Bull Technostalgia Feat. DJ Marky & Bid. Bela performance! Marky bancou o maestro enquanto uma extensa banda disparava hits de nomes como Daft Punk, Chemical Brothers e New Order. Injeção de ânimo pra encarar um pouco de lama até chegar no palco onde estaria o Passion Pit.

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A banda americana, apesar de ter sido prejudicada pelo som quase sempre baixo do Palco Alternativo (aliás, aqui, o parêntese é válido para perguntar: o que diabos aconteceu com o som geral do festival de 2012 para 2013? Várias apresentações foram prejudicas por problemas com volume, oscilações e interferências de outros palcos. Ponto perdido nesse quesito, infelizmente), conseguiu empolgar quem já era seu fã. Os hits dos dois álbuns lançados pelo grupo preenchiam o espaço com sintetizadores e com a curiosa voz fina de Michael Angelakos, um frontman inquieto no palco e que liderou bem sua trupe em execuções empolgantes de números como “Take A Walk” e “Little Secrets”. No geral, uma ótima abertura para o The Killers, que fez um competente show de fechamento do primeiro dia de Lolla. Com apenas quatro músicas do fraco Battle Born, Brandon Flowers cantou temas infalíveis e fez com a pista do Palco Cidade Jardim se transformasse num imenso karaokê, com todos os fãs soltando palavra por palavra a plenos pulmões. Bonito de se ver e combustível para encarar outras duas maratonas nos dias que se seguiram.

E o sol brilhou no começo da tarde de sábado com a divertida Graforreira Xilarmônica, banda-patrimônio do rock gaúcho que levou em suas letras vários elementos da cultura sulista do país, além de ter feito com que vários fãs conterrâneos chegassem ao local com camisas do Grêmio e do Internacional. Se o Zero Hora este espaço fosse, seria o momento ideal para falar que “Heróis gaúchos abrem o melhor dia do Lolla”, não fosse o fato de que quem fez isso foi o Wannabe Jalva, no domingo.

Em questões musicais, o sábado foi pesado e dançante. Toro Y Moi jogou com sua soft-chillwave-good-vibe, seguida pelo indie rock contagiante do Two Door Cinema Club, que fez meio Jockey pular às 5 da tarde, com o sol já baixinho. Enquanto isso, no Palco Alternativo, Gary Clark Jr. e Alabama Shakes agradaram quem encarou pequenos pântanos e poças de lama para vê-los. Grandes shows, grandes vozes, apesar de Clark exagerar brevemente em seus solos e do som dos Shakes não estar na altura adequada – mas nada que desanimasse a maravilhosa Brittany Howard, uma das figuras mais unânimes do evento.

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E em um festival grande e cheio de palcos como o Lolla, é impossível ver tudo. Então, pra cada showzaço do Alabama, um Franz Ferdinand é perdido – dilema que foi repetido na sequência, com o rapper Nas se apresentando praticamente na mesma hora da turma de Josh Homme. Uma pena. Mas o sentimento foi embora já no primeiro acorde do líder do Queens of the Stone Age. Que banda – e fica quase incompreensível um mundo em que o grupo tenha que “abrir” um show do The Black Keys. Com o som no talo, Homme conduziu com peso inacreditável mais uma performance histórica do QOTSA em solo brasileiro. E isso aconteceu mesmo sem tocar “Feel Good Hit Of Summer” e contando em sua formação com o recém-integrado Jon Theodore, ex-Mars Volta e responsável por descer a mão sem dó no kit de bateria. Mesmo errando uma virada ou outra, a aprovação ao novo membro foi imediata – assim como o lamento ao ver Homme e companhia se despedirem do público, hipnotizado e embasbacado depois de tanta porrada stoner na cara.

E teve o Black Keys. E que show a dupla de Ohio fez. Show este que seria ainda mais inesquecível se o público pudesse ouvir com clareza o que estava sendo tocado e cantado. Deu pena ouvir as batidas monstruosas de Steve Aoki, que saíam com fúria do Palco Perry, a cada execução mais calma da banda liderada por um exímio Dan Auerbach. À certa altura, era possível imaginar com facilidade como seria “Little Black Submarines” em versão remix. Spoiler: não seria muito boa. Mas pra quem teve paciência com os decibéis abaixo do esperado, a performance do grupo foi satisfatória. E o fechamento com “I Got Mine” foi arrebatador. A dúvida que fica é: o Black Keys, por mais que faça músicas e discos ótimos, é mesmo um headliner com capacidade de segurar o fechamento de festivais gigantes como Lollas e Coachellas da vida? Ainda acho que seria mais interessante e confortável ver o duo se apresentando em um espaço reduzido.

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Os pés já pediam arrego quando o domingo começou com o Foals. “Inhaler”, uma das músicas do ano, foi um dos grandes momentos do evento. Em seguida, veio a provável atração mais inesperadamente boa do Lolla. Ok, o Kaiser Chiefs tem certa história e já lançou bons discos no começo da carreira. Mas a saída do baterista Nick Hodgson e o fraco The Future Is Medieval jogavam contra. Sobrou para Ricky Wilson virar a partida. E que virada! Se você reparou na magreza do vocalista e ainda não sabe como ele perdeu tanto peso, preste mais atenção, porque você presenciou parte de sua dieta: corre de lá, corre pra cá, sobe aqui, desce ali, pula pro outro lado, volta às pressas pro palco, chuta isso, joga aquilo. Quem precisa de academia quando o palco é seu treino, sua esteira? Além de fazer todo mundo pular com ele, Ricky agitou seus fãs e atraiu curiosos que nunca tinham visto mais gordo – ou mais magro, no caso. Um bom show (apesar de que o som poderia ter sido melhor regulado), e título de melhor frontman do Lolla para o inglês, que deve estar até agora se descansando de sua maratona no Palco Butantã.

Fim do Kaiser Chiefs, corrida pro The Hives. E mais um showzaço. Também se movimentando de um lado pro outro, o sueco Pelle Almqvist e sua banda descarregaram seus temas com fúria quase punk, fazendo com que os fãs de Pearl Jam se esquecessem de Eddie Vedder por alguns minutos. Quem estava presente e não deu sequer um pulo ou um grito durante o show precisa rever seus conceitos com urgência.

E enquanto todos já se posicionavam para saudar o grunge, o Hot Chip começava seu baile fundado em guitarras indie, sintetizadores pegajosos, barulhinhos curiosos e melodias fortes o suficiente pra dar ânimo a um público já exausto e cheio de lama nos pés. Mostrando várias músicas de seu álbum mais recente, o grupo surpreendeu também com a baterista Sarah Jones, ex-New Young Pony Club, acertando a mão e deixando tudo mais divertido. Momento inesquecível: “Flutes”, uma das grandes canções do ano passado.

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No Palco Perry, o Major Lazer fazia uma bagunça por vezes surreal (com direito a muitas bundas e camisas sendo tiradas e jogadas para o alto) diante de uma plateia ensandecida na tenda eletrônica. Diplo e outros dois parceiros promoveram uma mistura de ritmos inacreditável, colocando até senhores para dançar o mais chulo dos funks. Não era difícil ver um sujeito fantasiado de Jesus, mas com trajes menores, encoxando qualquer coisa que respirasse ao seu redor. Saindo dos amplificadores, era possível ouvir “Dança do Créu”, a música do ” Ah Lek Lek Lek” (sei lá como escreve), M.I.A., “Harlem Shake” e Nirvana, entre outros, além de hits do próprio combo da Mad Decent, como “Pon De Floor” e a recente “Watch Out For This”.

Já no palco principal, o todo-poderoso Pearl Jam encerrava as atividades do Lollapalooza 2013. Com seu show vetado para transmissão ao vivo (mas se você quiser ver como foi a apresentação, se ligue no próximo dia 6), Eddie Vedder e seus comparsas de camisa de flanela voltaram ao Brasil e não surpreenderam em termos de setlist e execução, mas também não deixaram a desejar. O PJ concedeu mais de duas horas de show a seus fãs, que berravam cada palavra juntamente com o líder grunge. Destaque para o coro emocionante durante o hino “Jeremy” e a furiosa “State of Love and Trust”.

Apesar de tantos shows e momentos que ficarão na cabeça de muita gente por um bom tempo, ainda há MUITO o que melhorar para o Lollapalooza 2014. Afinal, é inacreditável você ter que escolher entre ir ao banheiro e ver o show da banda dos seus sonhos. E usar instalações higiênicas que de “higiênicas” têm só o nome? À noite (e provavelmente durante o dia, também), era possível ver pessoas da organização implorando para homens não fazerem suas necessidades em espaços abertos que cercavam o espaço do festival. Pedido este que era ignorado com desdém e deboche, obviamente. O sanitário masculino da tenda eletrônico, à direita do palco, por exemplo, só era acessado por quem quisesse passar através de um mini-lago de lama e xixi. E a saga que tinha que ser feita caso você quisesse jogar um simples copo de cerveja no… lixo? O número de latas de lixo espalhadas pela área do Lollapalooza só não estava mais baixo do que o volume do show do Black Keys. As longas filas também marcaram presença, seja para retirada de ingressos na bilheteria, comprar fichas, comida, bebida ou ir ao banheiro. Ter alguma dessas necessidades já implicava em desânimo e checagem no line-up para ver qual apresentação seria perdida ao embarcar em tal saga. E isso não estava no job description de quem pagou caríssimo para ir ao Lolla. Além disso, a Trip aponta um acontecimento inexplicável e revoltante: pessoas que compraram ingressos e foram retirar na hora, na bilheteria, não conseguiram. Suas entradas simplesmente não estavam disponíveis no local e estes ficaram sem entrar no festival. Isso sem falar em relatos de assaltos com FACAS dentro da área do festival.

São problemas assim – que, NA TEORIA, podem ser resolvidos com um pouco mais de cuidado e carinho no planejamento e estruturação do evento – que fazem você chegar em casa e responder, na melhor das hipóteses, “foi bom” pra quem perguntar como foi o festival. E pra que se contentar com “bom” quando o “excelente” e o “sensacional” estão aí, na ponta dos dedos? Os amantes de festivais têm tudo para amar, de fato, o Lolla. Mas isso irá ficar para o ano que vem. A organização tem à sua frente um bom tempo para se planejar melhor e rever o que deu errado neste ano. Se não conseguir, bem, pelo menos fora do Lollapalooza, a fila anda.

Abaixo, você pode relembrar alguns dos shows que rolaram no Jockey Club:

Queens of the Stone Age:

Planet Hemp:

The Hives:

Of Monsters And Men:

Two Door Cinema Club:

The Killers:

Deadmau5:

The Black Keys:

  • Gostei do texto, e concordo que comparando com ano passado, o festival apresentou diversos problemas técnicos, e estruturais que espero que seja resolvido no próximo ano.
    O que fico intrigado é que em todos os blogs, ou em qualquer cobertura sobre o evento, ngn quase nunca comenta dos shows da tenda do Perry. Ponto p/ MTJB que aos menos citou Major Lazer e Nas (que por sinal fizeram alguns dos melhores shows que a tenda recebeu).
    Acho que a musica eletrônica sempre passa desapercebido, Madeon por exemplo fez um dos melhores lives que eu já vi (e ele tem apenas 18 anos), sem falar no deadmau5, que embora nada de novo tenha feito não deixou de surpreender.

  • Iris Lima

    Excelente o artigo!
    Concordo plenamente que a organização errou um pouco ao escalar o The Black Keys, ainda mais com um som baixo, para fechar um dia de Lollapalooza. A diferença de animação do público para os outros dias era visível. Apesar de ser fã da banda, não acho que os caras seguram o último show da noite.

    Gostaria de salientar a falta de educação dos seguranças do evento, principalmente na entrada. Todos, sem exceção, gritavam com o público que entrava no evento, sem ao menos pedir por favor ou dizer um simples obrigado. Além de constranger as meninas que estavam paradas nas filas, inclusive com seus namorados.

    Fora, a revista, no meu ponto de vista e dos meus amigos, patética. Não fazia o menor sentido jogar fora um batom de maquigem, álcool gel desinfetante para maõs e bombinha de asma das pessoas no lixo, enquanto nossos bolsos não eram ao menos revistados. Ou seja, sem detectores de metais, muitos foram assaltados com facas dentro do evento, ao mesmo tempo que as meninas não podiam entrar com um blush sem espelho dentro da bolsa. Sem o menor sentido.
    Funcionários mal treinados já nos trazem desânimo antes mesmo de entrarmos no festival. Essa sensação de poder provisória dada a essas pessoas sem a menor instrução deve ser repensada pelos organizadores do festival.

  • Mariana Lima

    Esse ano foi realmente triste em questão de organização. Ano passado cheguei ao festival com expectativas baixas, afinal, é quase sempre assim quando a gente vai em alguma coisa grandiosa aqui no Brasil. Mas fiquei surpreendida com a quantidade de banheiros e com a velocidade que você pegava comida e bebida. Esse ano estava esperando algo igual ou melhor. E foi bem triste ver aquele monte de lama cheirando bosta de cavalo, as inundações nos banheiros, a demora pra pegar comida e ela ser entregue fria, e todas coisas que já foram ditas aqui. Em questão do som, eu fiquei na parte da frente dos 3 shows que consegui assistir e estava muito bom, só no do Queens que a voz dele estava baixíssima.
    A gente se conforta com os belos shows que assistimos, mas com certeza a gente espera um Lolla 2014 muito melhor.

  • Dudu Bitencourt

    Ótima resenha José.
    Como alguem que foi nas duas edições de festival acho que não dá pra deixar de comparar 2012 com 2013, e sei lá, acho que apesar de termos 1 dia a mais de festival o primeiro foi muito mais empolgante.
    Talvez por ser o primeiro, talvez por ter 2 bandas que eu sou muito fã. Mas esse faltou algo com certeza.
    Hoje várias pessoas me perguntaram como foi o festival, e a única resposta que consigo dar é “Foi bom”…
    Obviamente acho que todos vamos ficar ansiosos pra saber os headliners do ano que vem, e muito provavelmente vamos novamente.
    Mas pra mim, faltou algo…

  • Mariana L.

    Também fui ano passado e fiquei impressionada como esse ano tudo piorou. O banheiro feminino no ano passado era em “zigue-zague”, com vários corredores com cabines. Esse ano, tinha um corredorzinho com, no máximo, 20 cabines.
    Quanto ao som, não sei o que aconteceu. Não ouvi NADA do Cake, mesmo não tendo ficado tão longe assim do palco. Consegui ter conversas inteiras enquanto o show rolava. O show mais alto de todos foi o do Queens, e isso porque eu fiquei meio longe, mas de frente pro palco, então as caixas estavam bem na minha direção.
    E quanto a assaltos, fiquei em choque! Vi duas ocorrências: um menino sair correndo gritando “pega ladrão” com o nariz sangrando e outro saindo do meio da multidão durante o show do Black Keys falando “tão roubando, tão roubando”. Ano passado não teve nem sinal de briga/violência/roubos.
    Espero que, pro ano que vem, eles voltem a fazer tudo direito como no ano passado. Sem condições de pagar 160 reais por dia pra não ouvir, pegar filas quilométricas e ainda ficar com medo de te roubarem e/ou machucarem.

  • joao magalhaes

    Olha, eu sinto muito por esta edição ter sido inferior à primeira. Acho que Black Keys tem sim capacidade para ser headliner de festival. Vi um show deles em Paris e fiquei absolutamente boquiaberto, pena que por diversas condições o show nao ter sido o mesmo no loola. Agora tenho MUITA pena de quem não foi ver como disse caio acima uma LENDA do rap como o NAS e um monstro do eletrônico como o Major Lazer. Nossa cultura se limita demais a bandas indies/pop/altrock e quebra a cara com shows mornos e apáticos quando com um pouco mais de conhecimento musical pode tirar maior proveito de um festival desse porte. um abs