FKA twigs - LP1

FKA twigs
LP1

Young Turks

Lançamento: 06/08/14

A música também é visual. Do momento em que David Bowie iniciou sua criação à prova de erros de inúmeros personagens, aos cenários e promos do álbum mais recente do Arcade Fire, passando pelo trabalho que Beyoncé teve em produzir inúmeros clipes para lançá-los como pacote em seu “visual album” Beyoncé (2013), a imagem criada por um artista e as lendas que ele permite que se criem ao seu redor ajudam a instigar e impulsionar a curiosidade do ouvinte em meio a uma época tão bem servida em ritmos, gêneros, sonoridades e discursos. Não à toa que a imagem de uma garota longilínea, com adereços poucos usuais no cabelo, expressão que pairava entre a inocência e um apelo sexual digno de filmes B capturasse sua atenção na timeline de notícias musicais. FKA Twigs é o tipo de artista que já nasceu com concepções bem definidas de si mesma: dos vídeos em que mostrava toda estranheza do universo que criou às recentes entrevistas em que é descrita como cruzamento entre ser etéreo e alienígena tímido; combinou uma figura instigante a um som experimental em essência, pacto de sua voz aguda e bem afinada com arranjos de um r&b dissonante.

Debute muito aguardado principalmente por Tahliah Barnett, real nome por trás da figura, ser um dos nomes com maior senso de observação no movimento de recriação do r&b, gênero que demorou bons anos a mostrar novidades realmente interessantes. Quebrando esse jejum, uma onda de novos artistas estudaram suas bases e reelaboraram conceitos usando preceitos de roupagem mais moderna. Para citar poucos nomes, temos Jessie Ware, Sampha e Jhene Aiko. No entanto, Twigs pareceu ser a única com real capacidade de criar sonoridades que tivessem pés fundos e distintos na sonoridade, mas com ousadia suficiente para quebrá-la em dezenas de pedaços e reapresentar de modo contemporâneo. Por exemplo, tomamos os excêntricos alicerces eletrônicos de EP1 (2012), que desprezava estruturas convencionais em nome de uma criação mais livre, experimental em tese. Chega agora LP1 (2014), estreia oficial de FKA twigs, um disco fiel às crenças de Tahliah em não descomplicar sua música, para descê-la mais facilmente pelo rolo compressor do que a média considera inteligível. Mas engana-se também quem esperava de Barnett a reconstrução de um gênero quase da estaca zero.

Felizmente, twigs escolheu um meio termo entre conversar sozinha e ser louvada como gênio ou produzir canções com o mínimo de estrutura que possibilitassem revisitação. Ao contrário do que pode parecer a olho nu, Tahliah não está propositalmente se servindo de uma veia mais popular, criando uma versão de si mesma menos complicada, como fez – e inclusive o admite Tom Krell em seu How To Dress Well –, mas refinando sua obra e excluindo experimentações que antes não tinham real significado; funcionavam mais como testes em que a britânica se dava a liberdade de exercitar produção de sons e efeitos. Escolhidos seus ponto fortes, a carta de apresentação que traz em mãos é uma versão mais madura de suas triagem anterior. Saem as sobras robóticas e descartáveis de faixas como “Weak Spot” e “How’s That” e entram canções de sentido mais profundo que o da livre criação. Das melhores do registro, os resultados que mais impressionam são justamente os de sonoridade mais ampla, como a abertura de todo um universo de possibilidades em “Two Weeks”, “Pendulum” e “Give Up”, uma trinca capaz de ofuscar muitos discos inteiros lançados em 2014.

A personagem criada ao longo do registro por Tahliah, e que até o momento pouco se dissocia de sua pessoa – dadas as poucas informações que temos de quem ela é -, tem resultado altamente sexual e dosa o modo sugestivo como canta aos suspiros acompanhada por sonoridades quase sempre lentas, pano de fundo a uma voz que enche o imaginário mas que não avança em direção a detalhes do ato, como o faz The Weeknd ou Del Rey e sua vagina com gosto de Pepsi. Sob esse aspecto, os efeitos que consegue em canções que sequer referenciam sexo, como em “Video Girl”, demonstram competência e dependem do fato de Barnett ter inteligentemente associado o conceito de seu projeto à sensualidade gradativamente, fosse em vídeos como o de“Papi Pacify” ou em apresentações em que usa o background de bailarina para dançar hipnoticamente no palco.

Seu discurso, apesar de fazer leves referências e de até poder se encaixar na prateleira da “fuck music”, junto a Woman (2013), da dupla Rhye, não se restringe à música feita para ouvir horizontalmente. Em suas letras, a britânica demonstra interesse em analisar o campo minado que tece o envolvimento entre duas pessoas. Suas faixas falam sobre a troca de confiança que é o sexo (“Lights On”) ou o difícil terreno dos relacionamentos que ainda não chegaram à fase de definição de um status (“Number”). À medida em que corre voz por diferentes temas, faz cada vez mais clara sua intenção: FKA twigs é um projeto pessoal, que expõe a vulnerabilidade da imagem de sua cantora para reforçar a ideia de fragilidade emocional no imaginário coletivo. Barnett se coloca em posição de extrema delicadeza para pintar o que suas composições, ainda em processo de evolução, não conseguem: demonstrar que o contato íntimo pode nos deixar em posição de submissão, como ela mesma recita na introdução do disco: “I love another, and thus I hate myself.”

Tailah Barnett é dessas artistas que aparecem de tempos em tempos, criadora de um alter ego que impulsiona todas as opiniões que se formarão sobre ela. Gosta da imagem? Vai apreciar a música que se funde ao estético. Suas aspirações podem não ser inéditas – Lana Del Rey, Lady Gaga e outras (bem menos talentosas) ansiaram arquitetar um espectro ao redor de sua música. twigs, uma conhecida de memória de quem já assistiu a clipes de Jessie J ou Ed Sheeran e a viu de relance, dançando ao fundo, gera curiosidade e assim fascina pela música. Dona do próprio carro criativo, não se deixa perder nem com os nomes de reputação de seus produtores (Dev Hynes e Paul Epworth). Suas facetas mais reconhecíveis, como as linhas de baixo oitentistas de Dev em “Pendulum”, acabam reduzidas a meros detalhes que a britânica adiciona a outras influências.

FKA twigs é um projeto para ser seguido de perto, mas nem por isso é provável que você desvende os muitos rostos de Barnett: a garota escondida dos vídeos; a cantora de voz sussurrante; ou a musicista de sonoridades lentas, sempre próximas da destruição. Pouco importa. É plausível que assim como outros artistas que dependem da imagem para intrigar, ela abandone a carapaça atual e se vista em outras nos próximos registros, feliz por confundir e hipnotizar.

1 Comentário para "LP1"

  1. Oi, Allan! Muito boa a tua resenha do LP1. Pra mim foi especialmente bom ler isso, porque já tinha visto vários vídeos da FKA; inclusive baixei o cd, ouvi uma vez só e nada dela me descer. Reconheço que esse estranhamento inicial é comum, ainda mais ouvindo alguém tão singular feito ela, mas mesmo assim. Depois de ler o que tu escreveu, revi o clipe de Two Weeks e acho que entendi melhor a proposta dela: reinventar o r&b, mas sem descaracterizá-lo completamente. Depois de ter visto/ouvido tanta coisa dela e de ler teu texto hoje, minha conclusão é que ela consegue. Ainda dá pra reconhecer a influência de gente como Aaliyah, mas o fator experimental de FKA tá muito presente. Como continuo estranhando um pouco, acho que vou dar um tempo, mas continuar atento aos lançamentos futuros dela. Obrigado!

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