Mais do que parte do festival, Coldplay faz show intenso no penúltimo dia de Rock In Rio

Chris Martin no Rock in Rio

Dia de calor absurdo e noite de ventos fortes na Barra da Tijuca. Primeiro de outubro fora alcunhado, em algum passado pouco distante, de “dia do alternativo”, sabe-se bem que isso não aconteceu. Mesmo com a glamourização do conceito “alternativo”, ele ainda figura longe de um evento para massa como o Rock in Rio. Ser genérico só é bom para quem abraça mais pessoas, foi o objetivo alcançado pela pelo festival.

Caricatura disso é o grupo liderado por Dinho Ouro Preto como símbolo de “roqueiros brasileiros”, extensivo ao falso polêmico Tico Santa Cruz. Gente posta em destaque apenas para reforçar o imaginário de um público que, em maioria, acompanhou de longe a cena nacional. Frejat foi um dos selecionados, abriu a noite seguindo a constante dos seus contemporâneos: sucessos, reações do tipo “eu sei cantar isso!”, e a memória sobressaindo a novidade.

Simultaneamente, o Palco Sunset contava com Erasmo Carlos. Mais velho, Erasmo tenta a todo tempo renovar a sua imagem. Lançou discos chamados “Rock’n Roll” e “Sexo”; sua banda de apoio é a carioca Filhos de Judith. Junto com músicas dos álbuns novos, adapta a Jovem Guarda da sua juventude a um formato rock e dialoga com um público muito mais jovem que ele. Empolgou a boa quantidade de pessoas que estavam lá com clássicos “É proibido fumar”, “Quero que vá tudo pro inferno” e “Festa de Arromba”. A apresentação começou com show de Arnaldo Antunes, que retornou na última música para encerrar.

Até o show do Coldplay faltava música interessante para se ouvir. Quem ainda não tinha andado na roda gigante ou montanha russa, a hora era aquela. Skank seguiu a base das outras apresentações de bandas dos 80’s no festival: mandou os sucessos, gostou de tocar para cem mil e “tirou o pé do chão” dos que estavam mais no clima. Convidou Negra Li para cantar “Ainda Gosto Dela” e lembrou de Erasmo no cover frequente de “É Proibido Fumar”. Palmas.

Encaixado antes das principais atrações da noite, o Maná não tinha mais que uma música de novela como trunfo. A banda pop rock mexicana atraiu atenção, mas o clima era o de apreensão para ver quem conseguiria os melhores lugares para os shows seguintes. “Viver Sin Aire”, o ápice do show, teve coro e respostas positivas ao estimulos feitos pelo vocalista, mas poucos foram para a Cidade do Rock ansiando o Maná. As pessoas começaram a se apertar de vez no final do show.

Maroon 5 no Rock in Rio

A histeria começou junto com o Maroon 5. Sua presença no festival definiu um pouco a cara de quem iria nesse dia. Foram chamados de última hora para cobrir Jay-Z, que cancelara o show. De um lado observa-se o acerto da produção em trazer uma banda de grande apelo pop para tocar; por outro, chega a ser engraçado substituir um cara tão importante pra música hoje que é o Jay-Z por um grupo pouco expressivo.

A radiofônica banda do animado frontman Adam Levine é especialista em melodias fáceis e canções com o refrão calibrado. Com padrão de beleza aprovado pelo público feminino, a banda foi só sorriso às fãs brasileiras. “Sunday Morning”, “Makes Me Wonder”, “She Will Be Loved” e “This Love” – as mais conhecidas por aqui – movimentaram o show, que estagnava quando a banda investia em músicas novas. A nova “Moves Like Jagger”, abrindo o set, conseguiu cativar, mas outras menos conhecidas esfriaram um pouco — não importava quanto Adam corresse no palco.

Minutos antes do Coldplay entrar, o DJ disparou “99 Problems” do Jay-Z. Não sei se foi escolha da banda, mas a atitude de tocar o som do headliner ausente no dia foi ousada. Depois do momento hip-hop, inicia a sequencia de lasers, luzes e fogos de artifício. Coldplay chega com “Hurts Like Heaven”, música nova que Chris Martin e cia. experimentaram em outros festivais também, pegou bem junto ao frenesi início de show com platéia. E quando puxaram “Yellow” em sequencia, comoção geral.

Coldplay no Rock in Rio

Termômetro de boa situação é arrancar sem um esforço maior que a própria música a reação dos ouvintes. Se na maioria dos shows o público se notava mais por gente a fim apenas de “curtir o festival”, quando o Coldplay seguiu o concerto todos valorizavam a atividade do palco mais que uma ideia de festival. Emendando com “In My Place” a noite já parecia ganha, Chris ainda fez uma graça ao pichar “Rio” — com um coração no lugar do “o” — na estrutura.

“Major Minus”, tocada logo depois, reforça a ideia da banda em cativar o público com as faixas mais recentes. A recepção é positiva, mas não intensa como antigas conseguem produzir. Pelo equilíbrio em dosar o setlist com clássicos e novinhas, a moral da apresentação fica sempre em alta; mas seria incrível o coro incessante de 100 mil pessoas cantando os hits. Mágico como “The Scientist” emocionou e retribuiu quem reserva parte da vida em se esconder na música.

Portando um relógio amarelo, violão e piano aparentemente personalizados por uma criança, Chris Martin se entregou. Fez questão de externalizar tudo. Quando rumava para a seriedade de um culto, ele mesmo fez brincadeiras para descontrair. Puxou “Rehab” da Amy Winehouse antes de “Fix You” (segunda música do bis) e solfejou “Mas Que Nada” de Jorge Ben em uma de suas incursões no piano.

Brian Eno, quando produziu os britânicos no álbum Viva la Vida or Death and All His Friends, devia saber muito bem da fórmula que criou. Ao vivo, “Viva la Vida” explode de uma maneira diferente das demais canções. Caminha no limiar de uma rave com um som introspectivo indie; é festa, eles devem explorar isso mais a fundo no disco a ser lançado.

“Clocks” abriu o bis para lembrar no final do show o primeiro contato de muitos com o Coldplay. O contágio-reflexivo de “Fix You”, penúltimo passo, teve pirotecnias e uma resposta calorosa da multidão quando Chris perguntou se tinha tempo para mais uma música. “Every Teardrop Is A Waterfall” encerrou com lasers e mais fogos de artifício. A euforia foi tanta que teve quem achasse que o encerramento do festival, com mais fogos e a música tema, fosse um retorno do Coldplay. Alarme falso depois de tantas palavras verdadeiras.

  • Renato

    Bom texto. Só para complementar: a música do Jay-Z antes da apresentação do Coldplay é escolha da banda. Todos os shows da nova turnê começam com “99 Problems”, no Lollapalooza foi igual. Abraço.

  • every teardrop is a *WATERfall

  • Henrique

    A respeito do comentário sobre “Viva la Vida” e o novo cd da banda, o que me pareceu foi que “Viva la Vida” deu tão certo que eles resolveram reproduzir o modelo em um CD inteiro. As músicas novas tocadas no show me pareciam (quase) todas uma nova versão da Viva. Se é bom ou ruim, isso eu não sei, mas às vezes, apesar do show ter sido espetacular, eu achei que o modelo estava um pouco repetitivo.
    Vou esperar o CD e ver no que dá.