Miles Kane – Colour Of The Trap

Não existe resenha do primeiro disco solo de Miles Kane (e provavelmente não existirá dos próximos também) que deixe de mencionar Alex Turner, Noel Gallagher, Gruff Rhys e todos os outros amigos/colaboradores do rapaz. Esta não é exceção. Mas justifica-se: Miles, como vários grandes nomes da música, se cerca dessa gente porque sabe que pode tirar o melhor deles para incorporar a seu trabalho. E sabe que a experiência é recíproca.

Em tempos de internet, aliás, é bastante saudável que Miles escancare os meandros de seu trabalho para todo mundo, em vez de escondê-los e dizer que fez tudo sozinho. Então temos Turner como co-autor de metade das músicas, Noel como guitarrista, Rhys como produtor e backing vocal, e por aí vai.

Mas é a personalidade de Miles que se impõe durante todo o disco, visível principalmente em sua mania de colocar a percussão e os vocais acima de tudo e em não se preocupar em ter uma base de guitarra na maior parte do tempo. Essa mesma mania é que fazia do The Rascals uma banda bem ruinzinha, mas, aqui, dá certo. Talvez sejam os amigos, talvez seja a experiência como Last Shadow Puppet, mas o fato é que, agora, Miles consegue deixar suas músicas com menos cara de demos.

“Come Closer”, a melhor do disco, é a faixa de abertura, com uma bateria e um baixo que constroem a tensão até que os riffs de guitarra deslizam naturalmente e a voz de Miles, acompanhada de espertos backings femininos, explode no refrão pegajoso. “Rearrange” é um dos muitos momentos em que Miles consegue utilizar lounge music como influência positiva e fazer sua voz anasalada jogar a favor de si mesmo (o segredo: backings femininos, sempre).

“My Fantasy”, que supostamente tem um backing vocal de Noel escondido em algum lugar, é algo que lembra um Jackson 5 mais relaxado e resulta em uma balada simples, de refrão cantarolável – uma daquelas músicas que seus pais conseguiriam gostar, se ouvissem. “Counting Down The Days” segue na mesma linha (tirando o Jackson 5) e, não fosse a guitarra fuzzy psicodélica que fica reverberando no fundo, poderia ser lado-b dos Last Shadow Puppets.

“Better Left Invisible” começa com um baixo que parece que vai chamar “Get Back”, mas, quando a bateria e a guitarra entram, é “Cold Turkey”, da carreira solo de Lennon, que surge como referência óbvia, reformulada como uma música menos crua e mais psicodélica, mas mantendo o peso. E aí vem “Quicksand”, um ponto alto, que recicla o tema de abertura dos Banana Splits em uma canção felicíssima (culpa de Rhys, co-autor e eternamente um super furry animal). São 3:19 de alegria eterna que fazem você lembrar de tardes no parque, animais correndo, desenhos da Hanna-Barbera e todas essas coisas bonitas.

Pena que depois entre “Inhaler”, música chata, repetitiva e de letra ridícula que, inexplicavelmente, foi escolhida como primeiro single, e depois “Kingcrawler”, uma farofada com influências árabes que retoma o que havia de pior nos Rascals. A curva ascendente é retomada com “Take The Night From Me”, uma balada com cara de música de serenata onde a baqueta vassourinha ginga o prato de ataque e conduz o ouvinte até o refrão marcado pelo ukulele vibrante e pela voz de Miles em seu melhor estado crooner. Lembra (e isso é um elogio) os pastiches que Ringo Starr faz em seus discos, mas Miles é apenas romântico, não engraçado.

“Telepathy”, guiada pelo ótimo riff de baixo, emula uma qualidade dos Puppets: fazer parecer que estamos ouvindo uma trilha do James Bond até que, no refrão, a coisa toda vira uma bela música de rock. “Happenstance”, que traz a atriz Clémency Poésy como vocalista convidada, é uma canção menor do álbum, e a mais esquecível também. “Colour Of The Trap” encerra a coisa toda com dignidade. Uma balada simples com aspirações power-pop que empresta para o refrão a cifra de “You’re The Inspiration”, do Chicago (uma banda que, com certeza, seus pais já ouviram e gostaram).

No geral, Miles Kane criou um álbum que lembra um pouco cada coisa que ele fez antes, mas que consegue ter personalidade própria. Há defeitos e qualidades, mas a melhor característica do disco é nunca soar como um conjunto de sobras dos outros trabalhos. Com elegância, Miles colocou todos seus amigos atrás de si assumiu o controle total pela primeira vez. Colour Of The Trap é, portanto, Miles pondo a cara pra bater e também dando um belo passo para frente. Come closer, Miles.

  • guru do amor

    Eu adorei o álbum, estarei no show gratuito dele no fim do mês, ai se fosse o arctic ou até last shadow..

  • Gabriela Alves

    Cara, no geral, é um álbum bom, mas deixou algo a desejar em duas ou três músicas. As que eu curti mais foram “Come Closer” e “Telepathy”.

  • Victor

    King Crawler é muito boa cara

  • leonardo

    será ele uma mistura entre Liam e al pacino jovem?
    achei ele muito igual ao liam, na minha humilde opinião, seria bom se nao fosse tao igual.

  • Soraia Alves

    Curti o álbum. Na verdade foi melhor do que eu esperava.
    Destacaria “Come Closer”, “Inhaler”, “Telepathy” e “Better Left Invisible”.

  • beto kitagawa

    O Album e foda! Um disco que abre com Come closer, Rearrange e My fantasy com Noel Gallagher no back so pode ser bom, nao tem como ser ruim.
    Better Left Insible (cold turkey), Inhaler e a balada perfeita Colour of the trap
    Bolacha matadora, deixa esse Strokes novo no chinelo
    Dia 29 tamo la

    abracos

  • Murilo (@MuriloPepler)

    no geral, o disco é bom demais, de ouvir sem reclamar de nenhuma música, um acerto do Miles. mas eu tenho que admitir que as músicas ao vivo ficaram muito melhores. ouvi Come Closer pela primeira vez naquele vídeo “ao vivo no estúdio” que eles fizeram, e quando fui ouvir a versão de estúdio mesmo, me decepcionei. mas apesar disso continua sendo um belo disco, sem nenhuma exceção!

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