Nine Inch Nails - Hesitation Marks

Nine Inch Nails
Hesitation Marks

Columbia

Lançamento: 30/08/13

Foi uma ressonância magnética que, há dois meses, me diagnosticou com hérnia de disco. Não quero começar esse texto como se fosse um testamento. É apenas uma hérnia, uma dor na região lombar, uma inflamação do nervo ciático. Conto isso apenas pelo incômodo constante gerado por essa alteração física – inclusive até para sentar e escrever, como faço agora. Incômodo é o tema dessa resenha. Minto,  o verdadeiro tema é Hesitation Marks, o novo e oitavo álbum do Nine Inch Nails. Não haveria razões para ser diferente, mas o incômodo acerca dele será o guia.

A começar, minha admiração pela sonoridade de Trent Reznor, e seja lá qual seja a formação da banda que ele intitula como seu projeto Nine Inch Nails, sempre foi acompanhada por um desconforto. Grande admirador de belas canções, foi um grande feito para a banda em questão me conquistar por ritmo, texturas e sujeira sem tanto foco nas melodias. Elas estavam lá e ainda estão, com as camadas ásperas, os ríspidos beats e as sujeiras mais contraditoriamente cintilantes que fazem esse “rock industrial” (poucos termos são tão ruins quanto esse) da banda de Cleveland algo tão sedutor.

Então, é com esse incômodo que eu continuo a encarar essa massa ruidosa de compasso convidativo. Em Hesitation Marks não há muitas mudanças no formato das canções, principalmente se comparado aos trabalhos da história recente da banda – antes do hiato anunciado em 2009, você pode encontrar as sombras dos mesmos elementos que norteiam a criação da maioria das canções do novo disco nos álbuns The Slip, que tinha um caráter mais complacente, em Year Zero, que teve uma campanha de lançamento mais relevante do que suas próprias canções, e With Teeth, que foi um retorno ao básico sete anos após o exacerbado The Fragile. Porém, veja que quase viajei 10 anos para falar da história recente da banda e não poderia viajar mais – comparar o novo LP com The Downward Spiral ou Pretty Hate Machine seria covardia. Esses continuam lá, intactos como as obras mais importantes da história da banda. E não é um saudosismo – todos os lançamentos do NIN são altamente relevantes, mesmo que os novos trabalhos não superem os anteriores. Com Hesitation Marks, isso não muda: ele é relevante, porém não é superior aos clássicos.

Não se tratando de fazer grandes mudanças (ou quase nenhuma), percebemos que voltar com o NIN foi uma decisão para Trent Reznor também baseada em, veja bem, algum incômodo. Se foi para apenas voltar à ativa com esse projeto, visto que ele possui outros, mas talvez seu perfil workaholic não o tenha permitido deixar seu principal “cargo” ali abandonado para “simplesmente” ganhar Oscars; ou se foi para colocar dinheiro no bolso, já que inacreditavelmente a banda voltou a trabalhar com uma gravadora após toda revolução que o próprio Reznor liderou; não sabemos. Mas a verdade é que não ter mudanças nos garante certas coisas: um bom disco e ótimos momentos. Dentre esses momentos destaco “Copy of A”, coerentemente repetitiva e empolgante; “Came Back Haunted”, intensa e com o melhor da característica canalha dançante da banda; a introspectiva “Find My Way”; a sensual e lisérgica “All Time Low”, que nos trará boas lembranças do maior clássico da banda; “In Two”, com sua engenharia impressionante; e o pop-punk vagabundo de “Everything”, que elabora um cenário totalmente descaracterizado para o NIN, que ainda passeia por esse local como se nada estivesse acontecendo e agrada os menos pragmáticos.

Se há poucas mudanças para pontuar, só restando destacar detalhes como o lirismo menos autodestrutivo de Reznor (que agora é um pai de família reabilitado) ou falar de uma certa aproximação com o rap ou com Radiohead, vou mesmo falar do incômodo. Por enquanto, não há nenhum em receber mais um disco repetitivo do Nine Inch Nails – pelo contrário, é um prazer. Mas se incômodo é a coceira que move o artista, e sendo Trent Reznor um músico, engenheiro, produtor e compositor tão extraordinário, eu quero mesmo que ele se incomode, assim como eu aqui com minha hérnia, com sua estagnação. Seria um desperdício não vê-lo novamente lançando algo tão espetacular com o NIN como fez há quase vinte anos. E me incomoda não entender porque isso ainda não aconteceu, já que sabemos que ele é mais do que capaz de realizar tal feito.

Nos incomode de novo, Trent. Por favor.

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  • Nina

    Porque a vida é feita de momentos e o grande momento do NIN já passou, junto com aquele nosso momento, em que o que ele fazia tinha muito mais sentido pros nossos ouvidos.

    (desculpe a redundância de “momento”. )

    MAS, não deixa de ser um ótimo álbum 🙂

  • Concordo que sim, a vida é feita de grandes momentos, mas discordo que o grande momento do NIN já tenha passado afinal, não há apenas um grande momento de uma banda. Acredito que teremos ainda sim, grandes momentos do NIN pela frente.