Noel Gallagher’s High Flying Birds

Durante a divulgação de seu primeiro disco solo, Noel Gallagher manteve uma pose de austeridade. Convocou uma coletiva onde disse que não queria ter que recontar a história do rompimento do Oasis em todas as entrevistas (o que acabou fazendo mesmo assim). Disse que abominava o fato de ser obrigado a recomeçar do zero a essa altura de sua vida. Foi humilde ao assumir que as gravações que havia preparado em Londres foram consideradas horríveis pelo produtor Dave Sardy e tiveram que ser refeitas. Não destratou o Beady Eye e fez elogios aos ex-colegas de banda. Por fim, foi taxativo em entrevista à revista Mojo: “isto não é Oasis”.

Por trás da pose, a verdade: há sim muito de Oasis no disco de Noel, como a mídia especializada  se apressou a apontar. Basta ouvir “Stop The Clocks”, a música que serviu até para nomear uma compilação do Oasis, mas que nunca saiu pela antiga banda. Ou “(I Wanna Live A Dream In My) Record Machine”, que é uma daquelas baladas sinfônicas que marcaram alguns dos melhores momentos do Oasis. Mas há muito mais também, para quem está disposto a encontrar. E é aí que está a diferença: Noel solo é um Noel de detalhes.

“AKA… Broken Arrow”, por exemplo, tem bongôs, algo que dificilmente se encontraria numa música do Oasis. E o instrumento joga a favor da canção, dando uma sensação de que ela é mais rápida do que realmente é. “(Stranded On) The Wrong Beach”, herdeira das músicas cantadas por Noel em Dig Out Your Soul, último álbum do Oasis, é um proto-glam em que a guitarra country se junta ao baixo pulsante e a uma nota de piano tocada repetidamente. O resultado é a música mais encorpada de Noel em o quê, dez anos? E que, ainda assim, consegue soar despretensiosa.

Paul McCartney e seus Wings emprestam o riff de piano de “Nineteen Hundred And Eighty Five” para Noel em “AKA… What A Life”, que remonta o tema como uma música… disco! Com o piano e a bateria acelerados ao fundo, Noel mantém os vocais no midtempo e capricha nos falsetos, criando um cruzamento improvável entre o Oasis e os Bee Gees. É tão disco que não seria estranho se as moças do Abba surgissem ali no meio com suas vozes estridentes.

“The Death Of You And Me”, o fabuloso single de estréia e a melhor música do disco, é o momento jazzístico de Noel, com suas influências de New Orleans alternando com puros momentos de rock britânico. Os metais da música resgatam as big bands dos anos 50 sem que nada soe ultrapassado. Uma obra-prima.

Os Kinks, referência em “The Death…”, são homenageados em “Soldier Boys And Jesus Freaks” tanto na letra (“ All the people in the village green…”) como na melodia, um tanto influenciada pelo clássico “Dead End Street”. Nessa faixa, o groove do staccato de Noel se mostra em sua melhor forma.

E por aí vai. Cada pequena peça do quebra-cabeça é um componente da música característica de Noel, aquela que aprendemos a amar. As paredes de guitarras, os teclados épicos, os coros, as letras meio românticas e meio existencialistas e os solos virtuosos estão todos lá, como se o Oasis nunca tivesse acabado, apenas perdido sua voz principal. Noel não se arrisca muito e não inventa moda, mas entrega o que se espera dele. E o que esperamos de Noel é o épico, o impressionante, o arrebatador.

O Gallagher mais velho pode se orgulhar, pois todos os boxes estão ticados. “Não é Oasis”? Talvez não, mas é primo em primeiro grau. Se a banda nunca mais resolver suas diferenças e clássicos como “Live Forever” nunca mais puderem ser executados da forma como deveriam, pelo menos teremos isto, que é mais do que um disco: é um honesto passo adiante. Para onde, talvez nem Noel saiba. Mas ele está voando alto.

  • Questionadora

    Peraí: comparar Gallagher com disco-anos-70 não é muita viagem ñ, fio???

  • Pra mim é um dos discos do ano. Muito foda!

  • Vanessa

    Adorei a a resenha. Alguns podem até julgá-la pouco crítica, mas não há muito a se criticar de um álbum tão bom, que acredito o melhor do ano.

    Quando você comentou a semelhança com Oasis, mesmo com Noel tendo afirmado que o que ele estava fazendo não era Oasis, acredito que era inevitável ser parecido com Oasis, pois o Noel era a alma da banda, ele compôs a maioria das músicas, todas as clássicas, que quando se ouve pensa-se rapidamente em Liam Gallagher. O Noel preparou tudo no Oasis e deixou o irmão com o simples papel de cantar as músicas. Nenhum dos dois foram conhecidos por esbanjavam simpatia nos shows, todos sabemos, porém sempre que vejo alguma apresentação antiga deles, na parte em que o Noel canta Don’t Look Back In Anger, ele demonstra um Noel humilde a ponto de deixar o público cantar o refrão sem a interferência da voz dele, como se estivesse aceitando que o show, na verdade, não é feito pelo Oasis e sim pelos fãs.

    Enfim, concordo com o que você disse sobre ele estar mais maduro para começar mais uma jornada sozinho, sem perder o dom em fazer músicas de um sentimentalismo único. Destaque para a frase final da resenha que me arrepiou. Parabéns. Realmente uma crítica digna e bem escrita.

    Achei esse álbum divino, quando soube que ele estava preparando um debut, não tive dúvidas de que seria algo grande, e mesmo assim me surpreendi com o que ouvi. Espero que o Noel faça mais álbuns como esse nos próximos anos.