Nova formação, novo show e um papo com Gabriel Thomaz sobre o futuro do Autoramas

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O Autoramas foi convidado pelo pessoal do festival In-Edit Brasil para uma apresentação logo após a exibição do documentário Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94, do diretor Ricardo Alexandre. Como já dissemos aqui, o filme trata da época em que o rock nacional floresceu na década de 90 e trouxe à tona bandas como Raimundos, Little Quail, Mundo Livre, Nação Zumbi e muitas outras. Algumas delas passaram pelo selo criado pelo Miranda e os Titãs.

Gabriel Thomaz fez parte de uma delas, o Little Quail and the Mad Birds, e o convite foi para apresentar músicas de vários desses artistas. Uma lógica perfeita. Daí, ouvimos versões de “Queimando Tudo”, do Planet Hemp; “I Saw You Saying”, dos Raimundos; “Sobre o Tempo”, do Pato Fu; e ainda teve Graforreia Xilarmônica, Little Quail, Mundo Livre S/A e, imaginem vocês, uma inusitada presença no palco de Marcelo Vourakis, o Salsicha, do Maskavo Roots, que apenas assistia ao show dos amigos, numa participação especial em “Besta Mole”.

Os Autoramas apresentaram sua nova formação, agora com Érika Martins, que é esposa de Gabriel há 13 anos, cantora e foi a frontwoman do grupo Penélope (quem não lembra?), Fred na bateria (ele fez parte dos Raimundos e hoje toca na banda de Érika) e Melvin no baixo (que faz parte junto com Gabriel e Érika do Lafayette e os Tremendões). Ou seja, ficou tudo em casa.

Isso quase se reflete no palco. O Autoramas ganhou uma injeção de ânimo com a entrada dos novos integrantes. Érika pula, dança, cativa o público e ainda arranca suspiros e elogios da plateia. Já o Melvin parece um pouco mais introspectivo, algo que não funciona muito bem. Uma das coisas que chamava atenção, quando ainda eram apenas um trio, eram as coreografias “guitarradas/baixadas”. Daí, este é um ponto para acertar neste “namorinho” que a banda ainda está tendo.

Eles também mostraram uma música nova, “Quando a polícia chegar”, que estará no disco novo, intitulado O Futuro dos Autoramas, mais um bem sucedido projeto de crowndfunding. O que mostra que mesmo com a saída de Flávia Couri (baixo) e do Bacalhau (bateria), os Autoramas estão olhando para frente e rápido, muito rápido.

Quer um pouco de como está essa nova fase? Então escute “Quando a polícia chegar” logo abaixo e, em seguida, leia o papo que batemos com o próprio Gabriel Thomaz.

No filme Sem Dentes…, uma das coisas que se fala do Little Quail não ter conseguido o sucesso que poderia ter tido foi o fato de vocês terem um disco muito barulhento. Queria saber sua opinião sobre isso.

Talvez o que o Miranda e o público em geral esperava era uma coisa que não tão pesada, que, realmente, a gente não sabia assim fazer um som mais pesado [antes]. Com o passar do tempo, a gente realmente começou a ter influências mais pesadas e tocar naturalmente. Não é nem mais pesado, mas um pouco mais rápido, sabe? E realmente foi o que rolou. Se você pega a demo, ela é muito mais limpa do que o disco. Só que, cara, tinha muitas coisas que a gente já ouvia na demo, e as pessoas até podiam gostar, mas a gente mesmo achava que poderiam ficar mais cheias. Mais produzido no sentido das guitarras e tal, da energia. Até o Charles Gavin fala assim: “Tinha tanta energia!”, que a nossa intenção era essa, a energia. A energia que tinha do show de passar isso por disco. Era uma obsessão.

Mas talvez o caminho não fosse fazer um disco um pouco mais leve e “pesar” no show?

Mas, cara, o negócio é o seguinte: para um caminho comercial talvez, sim, é verdade! Mas a gente não tava pensando nisso. Se a gente tivesse pensando em fazer um som comercial lá em Brasília na virada dos anos 80 para os anos 90, a gente teria feito uma banda imitando a Legião Urbana, sabe? A gente não pensava nisso. A gente fez, cara… O que tava ali no nosso lance, na nossa cabeça, o que a gente tava sentindo e de uma forma que a gente achava ultra positiva. O engraçado é isso, a gente tava no Banguela, o Raimundos tinha acabado de estourar, tinha o disco do Mundo Livre, que foi ultra elogiado como genial da música brasileira. E a gente pertencia muito mais ao universo que o Raimundos participava do que do Mundo Livre. Hoje em dia tudo se relaciona, mas eram assim, eram sentimentos muito ecléticos. A gente saía com a galera do Mundo Livre para tomar uma cerveja e se dava muito bem com eles. Só que o nosso lance era o nosso lance. E naturalmente a gente pensava em registrar do jeito que a gente fazia no show. Só que quando você chega em um estúdio e pega um amplificador e a bateria, aquilo tudo soa magrinho. No show, a gente tocava com um PA enorme, com som alto… Pammmmm! (imita o som das guitarras). Era uma coisa louca. A gente queria reproduzir aquilo. Depois, a história viu que aquilo não era comercialmente viável. Eu acho que, sem querer nos auto proteger, eu acho que existia um espaço para uma banda pesada, uma coisa de rock n’ roll direto e tal, que o Raimundos ocupou. E a gente não conseguiu abrir outra vaga. É que nem no vestibular: são tantas vagas para tal curso, mais ou menos isso.

Eu senti que no filme tem muito ressentimento. Tem o Fred Zero 4 defendo que o Samba Esquema Noise não foi feito no estúdio, como muitos falaram. Ou o Samuel Rosa dizendo que sofreu críticas porque o Skank buscou um caminho mais comercial. Você acha que existe um ressentimento de o rock dos anos 90 não ter conseguido continuar depois dos Mamonas Assassinas?

O Little Quail é hoje uma banda ultra cultuada, só que a gente não conseguiu um sucesso comercial. O engraçado é isso: o Skank, por exemplo, é uma banda cujo sucesso comercial é incontestável. E é legal que tenha esse lado também, porque às vezes você se acostuma só com a glória.

E sobre o Autoramas: agora vocês estão com uma nova formação. Como você escolheu as pessoas? E só agora a Érika, depois de 13 anos de casados, está tocando com você. Por que só agora?

Essa é uma pergunta de família na festa de Natal [risos]. “Mas Érika, mas você canta e o Gabriel também canta. Por que vocês não cantam juntos?” Toda a nossa vida a gente ouviu isso. E, cara, agora rolou! Quando a gente se conheceu, a Érika já tinha a Penélope e eu tinha o Autoramas que tinha uma outra formação, que estava muito bem construída… Olha ela aí!

[Érika entra na sala]

Nossas vozes também combinam, além de tudo.

[Gabriel continua]

Tem essas coisas, sabe? (pausa) As músicas que eu sempre compunha, a primeira pessoa que ouvia era a Érika, a primeira pessoa a criticar, a gostar, ou a não gostar, era a Érika e ela tá sempre ali. Ela sempre foi a primeira pessoa a saber das coisas que iam rolar com o Autoramas. A relação dela com o Autoramas é muito íntima. E rolou essa história, a gente sempre quis fazer.

[O produtor da banda pede para apressar o papo. Sugiro que façamos a entrevista indo para a van, mas Gabriel continua parado]

A gente sempre quis ter uma voz feminina e rolou agora, funcionou e tal. Eu já tinha gravado um EP com a Érika, Érika e Gabriel, e a gente fez quatro músicas. Quando rolou da Flavinha e do Bacalhau saírem eu virei para a Érika e disse: “A gente podia era chamar uma baixista e um baterista e você vir cantar com a gente”. E ela topou na hora e foi isso. O Fred que gravou a bateria, então também me pareceu muito natural chamar ele para tocar. Ele é um amigo meu de muitos anos, da cena de Brasília. Eu compus para os Raimundos, ele tocou já substituindo o Bacalhau.

Virou uma coisa de amigos?

É. Agora tem uma coisa que foi o seguinte, eu tive que tomar uma atitude muito rápida, porque a gente tinha muitos compromissos para cumprir e eu não queria desmarcar. Então, a gente tá se conhecendo musicalmente, sabe? A gente tá ficando, sabe?

Namorinho de portão.

É! A gente tá começando a namorar. Porque, sabe, antes eu tinha um casamento. Agora a gente tá ficando, a gente tá aí… Eu não sei o que… E, sabe, existem coisas que o Autoramas já tinha muito… Uma maneira de trabalhar muito firme e às vezes eu tenho que me adaptar a eles, eles têm que se adaptar à nossa estrutura. Vamos ver o que vai acontecer. A gente já gravou um disco novo.

Essa era minha próxima pergunta.

Pois é. O Autoramas na antiga formação estava com tanta coisa para fazer que as músicas estavam só nos cadernos, nas anotações, na cabeça, nas passagens de som. E essa foi a outra atitude que nós tivemos que tomar em conjunto muito rápido. E fizemos de uma maneira agressivamente rápida e o resultado que eu ouvi, eu estou adorando. Para mim, é o conjunto de músicas que eu mais gosto, que eu já fiz na minha vida.

Chama-se O Futuro dos Autoramas.

Esse também é um título que… A gente sempre brincou muito com o futuro, muitas vezes de uma maneira… Eu sempre fui apaixonado pela maneira que determinadas gerações viam o futuro. Então, eu gostei desse lance. Eu procurei no Google o nome de outras coisas, outros artistas e ninguém lançava um disco com o nome do “futuro”. Acho uma coisa assim, pretensiosamente bem intencionada, então achei legal isso. Simples.

A Flávia (Cori) saiu porque casou e está morando agora na Dinamarca. E o Bacalhau?

Cara, rolou uma confusão. A Flávia saiu porque ela foi morar na Dinamarca, mas ela nunca falou que iria sair. Ela falava: “Tá tudo certo e beleza e eu vou conciliar as duas coisas”. E rolou uma falta de comunicação tremenda, rolou uma briga, como acontece em qualquer relação. E no meio dessa briga o Bacalhau achou que tinha que sair fora. Para mim, foi uma grande surpresa quando ele me falou isso, mas como era um momento de mudança eu não insisti e é isso. Agora, a história é longa e eu não aguento mais contar ela.