O carioca Cícero fez show em Fortaleza no sábado (29) e bateu um papo com o Move; leia a entrevista

cícero

Fotos: Adnayara Medeiros e Gabrielle Tavares

No último sábado, 29, o cantor Cícero fez um show memorável em Fortaleza. Levando mais de quinhentas pessoas ao House Of Sensations, o carioca tocou músicas de seus dois álbuns e foi surpreendido por um público que cantou, dançou e se emocionou. “Eu sabia que ia ser assim, só não imaginava que seria TÃO assim”, disse o cantor em meio aos aplausos. A beleza da interação dele com o público, as pessoas que cantavam abraçadas umas às outras e o coro que se manteve alto em todas as canções tornaram a noite ainda mais mágica. Antes de sua apresentação, Cícero respondeu algumas perguntas feitas pelo Move. Veja como foi o papo a seguir:

Move That Jukebox: Você é formado em Direito. Quando e por que decidiu investir na música?
Cícero: Quando eu terminei a faculdade em 2008, a banda (Alice) acabou junto. Então, era escolher continuar com a advocacia ou investir na música – e eu acabei ficando com a música.

Quando você disponibilizou Canções de Apartamento para download, você imaginou que teria uma repercussão tão grande?
Não. Eu coloquei na Internet porque foi um disco que eu fiz em casa, sem muita produção e porque era o jeito mais fácil de divulgar. Colocar um disco no iTunes, por exemplo, requer muita burocracia.

Quais são suas influências musicais?
Tom Jobim é uma das maiores, assim como Beatles. Como eu era DJ em festas no Rio de Janeiro, eu tinha contato com muita música, mas um disco que marcou minha vida foi o Nevermind, do Nirvana.

Em Canções de Apartamento, diferentemente de alguns artistas que utilizam figuras de linguagem para abordar sentimentos, principalmente em canções de amor, você constrói um cenário muito palpável, através de detalhes minimalistas. Como foi o processo de criação dessas músicas?
Observando cenários. Como eu estava dentro do apartamento a maior parte do tempo, eu o observava e acabei transformando isso em músicas que deixavam o ambiente palpável. Sábado foi mais urbano. Porém, eu sempre busco tornar o álbum identificável pra quem escuta. Senão, é só uma coisa abstrata que não se comunica. Não sou muito fantasioso em composições – eu toco o tempo inteiro. Faço e depois vejo se aquilo interessa. É natural e cotidiano, não tenho a hora de tocar. Eu sempre estou tocando. Eu toco e vou lavar a louça, depois toco mais um pouco (risos).

sábado

Quando observamos as capas de seus dois álbuns, a diferença já é perceptível. Você pensou nisso pra ajudar a criar a atmosfera de cada um deles?
Sim. Na verdade, as músicas não andam sozinhas. A obra é pensada como um todo. A capa ajuda você a entender o arranjo, que ajuda você a entender a letra, que ajuda você a entender o que está sendo dito no disco. Quanto mais você puder amarrar tudo numa coisa só, mais fácil é para os ouvintes pegarem aquilo como um livro, para eles interagirem com isso.

Sábado foi um álbum que dividiu opiniões, tanto da crítica como de seus fãs. Você esperava isso?
Não, porque no Canções de Apartamento eu não imaginava a quantidade de pessoas que conheciam meu trabalho, até porque eu não fiz tantos shows. Então, quando eu lancei Sábado, ele dividiu opiniões de fãs que eu nem sabia que tinha. Pra mim, eu estava continuando uma narrativa que comecei na sexta, continuei no sábado e vou adiante. As pessoas estavam tão apegadas ao Canções (e eu nem sabia) que isso ocasionou em um choque de momentos. Algumas pessoas ainda não estavam dispostas a entrar no momento Sábado. Só que eu não penso nos discos com essa cronologia imediata. Daqui cinco anos, terá cinco discos pra você escolher qual ouvir naquele dia. Se tiver cinco discos iguais, é desinteressante. O artista acaba se tornando um funcionário público dele mesmo ou às vezes fica só estético. E eu estava querendo abrir as portas da estética ou do protocolo, fazendo algo diferente do esperado.

Li que você tem vontade de lançar um livro de poemas. Você musicaliza alguns deles?
Sim. Em Canções, algumas músicas eram poemas, como “Cecília e os Balões”. Em Sábado, também. Eu pretendo parar daqui algum tempo e me focar na criação de um livro, porque isso requer muita concentração.

Você tem feito alguns shows fora do país. Como está sendo essa experiência?
Ótima. Portugal é foda. Lá as pessoas tem uma identificação com harmonia, melodia e com a letra, porque é o “mesmo idioma” e eu acho demais. Fui tocar em um festival e descobri um público grande que eu nem sabia que tinha. Agora estou voltando pra tocar nesse festival novamente porque é assim que estou fazendo. Estou produzindo discos e esperando que exista interesse em lugares e que esse interesse seja suficientemente grande para me levar a tocar. Você acaba criando relações com as cidades e isso continua pela vida inteira.

Você ainda acompanha o cenário musical mais underground do Rio de Janeiro?
O Rio de Janeiro não tem um cenário musical tangível porque você tem pessoas fazendo todos os tipos de música com os mais variados tamanhos de público e ocupando as mesmas casas de show. É uma cidade gigantesca com umas cinco casas. Então, todos os tipos musicais acabam ocupando os mesmos lugares. A cena acaba se tornando um circuito, mais do que uma unidade de música, e eu sou mais um dessa cena com vários artistas e tipos de público.

Você tem algum ritual que faz antes de entrar no palco?
Eu bebo um pouco. E… Só isso mesmo (risos).

Você é muito assediado nas ruas ou ainda pode assistir a um filme no anonimato ou coisa assim?
Eu posso sim. Eventualmente alguém me para na rua, mas sempre de forma respeitosa. Nunca é nada invasivo.