O começo do Rock in Rio 4 e algumas impressões gerais

Público animado no Rock in Rio

Acreditar no Rock in Rio parecia uma questão mais de se entusiasmar por um evento do que pela música. Penerando a escalação, quase todo mundo consegue encontrar ao menos uma banda boa de se ver, mas para um festival grande era esperado mais: atrações diversificadas, uma ou outra banda que não tocou no Brasil e menos chorumelas como headliners.

Deixando isso de lado, adentrar na Cidade do Rock impressiona. A estrutura montada para os sete dias de evento é enorme. Um palco principal (Palco Mundo) servido com oito torres de som te põe na pilha pra ver aquilo tudo funcionando – e, claro, bate uma lamentação se você não encontrou um show promissor no line-up. Um shopping center  construído nas beiradas da Cidade cumpre a promessa quanto a variedade de serviços, assim como guarda suas bizarrices. Qual a utilidade de um estande do ECAD? Ok, é fácil ignorar, e a simpática loja de LPs (com promoções verdadeiras!) ficava ao lado.

Caminhando para esquerda do Palco Mundo, a Rock Street é uma cidade cenográfica baseada em Nova Orleans antes do Katrina. Representa bem o festival e a sua função de “lugar para passear”. Atrações menores se apresentaram na praça montada. Mera distração para quem não se interessasse pelos shows. Outra peculiaridade do festival carioca é não ter planejado shows simultâneos. Mas eles acabaram acontecendo por conta dos atrasos no palco alternativo, o Palco Sunset.

No lado oposto à Rock Street, o Palco Sunset hospeda as atrações menos badaladas e encontros programados exclusivamente para a ocasião. O sol realmente se põe atrás dele, e formaria uma bela imagem não fosse as inúmeras marcas tomando toda Cidade do Rock. Com equipamento menos robusto, destina-se a entreter quem chega cedo. Eu deposito um crédito maior aqui: em alguns dias esse stage traz bandas mais interessantes que o principal. Na sexta (23), primeiro dia, foi ali que eu fiquei.

André Gonzales do Móveis Coloniais de Acaju

Móveis Colonias de Acaju, Mariana Aydar e Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz tocaram juntos como a primeira atração do festival. A mistura de uma orquestra de influências afro com uma cantora talentosa e a máquina de animação que é o Móveis prometia um grande encontro. Mas não foi tão bem misturado assim. Faltou ensaio e passagem de som, a qualidade do audio não estava satisfatória e foram poucas as músicas que todos tocaram juntos. O show foi composto sets divididos dos artistas, o público parecia se importar apenas quando o Móveis aparecia no palco.

As falhas técnicas da produção prejudicaram a orquestra de Letieres Leite. Em apresentação no Teatro Casa Grande ano passado, o maestro mostrou de forma exuberante o som de sua orquestra. Ritmias incursivas na batida afro com arranjos de sopro bem postados. Sem dúvida, ele se esforçou para repetir, mas não deu. Abriram o show com um tema curto e o Móveis Coloniais, sozinho, tocou sua primeira música. Incrível notar que a maioria das pessoas ousadas em chegar cedo eram fãs dos brasilienses.

Eles param e Mariana Aydar, auxiliada com a orquestra, canta duas canções mornas. A platéia só é ganha quando o André (vocalista do Móveis) aparece no palco para dar uma força. A essa altura as fãs não paravam de gritar “O Tempo! O Tempo!”. Música que entrou na trilha da novela Araguaia parecia ser a preferida do público. Tiveram seu pedido atendido, e até rolou a tradicional roda de “Copacabana” em que os membros da banda descem do palco e vão pra farra. Um cover dos Beatles fechou a apresentação.

Ed Motta e Andreas Kisser

Após um breve intervalo, o show de Ed Motta, Rui Veloso e Andreas Kisser começa. Alguns receios cercavam: o que Ed Motta faria para “compor o ambience”; se o português Rui Veloso cantaria fado; e o medo de uma egotrip de Andreas em solo de guitarra. Os três supreenderam. Fizeram um ótimo show de rock, a formação se revelou uma excelente banda cover de clássicos do gênero. Versões irrepreensíveis de Led Zeppelin, Hendrix, Beatles e até com a genial “Please Don’t Let Me Be Misunderstood” do The Animals. Fizeram a alegria das pessoas de meia idade presentes e dos aficionados nos clássicos.

Na sequência, Sandra de Sá e Bebel Gilberto tiveram sua vez. Som mais do mesmo, fica a impressão de que foram chamadas apenas para encher linguiça. São simpáticas e não incomodam quem se propõe a ignorar. Os menos críticos se divertiram, beberam e viram o sol se por atrás do palco. De noite o nome “sunset” perde o sentido, e ainda restava a apresentação conjunta do The Asteroids Galaxy Tour com The Gift.

Mette Lingberg vocalista do The Asteroids Galaxy Tour

Demorou um pouco, mas as bandas conseguiram tocar. The Gift faz parte da cota lusitana do festival, a banda portuguesa faz um pop rock pouco notável. Ganharam uma viagem ao Rio e a oportunidade de tocar para a pequena parcela de pessoas que ainda não tinha se aglomerado em frente ao palco principal.

É uma pena que uma banda legal como a dinamarquesa Asteroids tenha ficada desvalorizada no lineup do dia. Foi uma das poucas surpresas, merecia mais moral. Se você não conhece de nome, com certeza já ouviu “The Golden Age” num comercial da Heineken. Tá lembrado da menina bonita que canta num timbre parecido com o da Gwen Stefani? Ela tem outras músicas ainda mais divertidas. Pop festivo com pequeno naipe de metais para embalar a dança.

A produção transformou esse show no mais bizarro do Rock in Rio. No final do show do Gift, o telão no fundo do palco passou a exibir imagens do constrangedor Milton Nascimento cantando “Love of My Live”. Fogos de artifício fizeram os poucos presentes se virarem de costas pro palco e ver a luzes tomando o céu. Quando o Asteroids entrou menos de 100 pessoas restavam. Poucos, mas animados e que compraram a ideia de apresentação dos dinamarqueses. Mas era impossível ignorar as imagens de Milton e Orquestra Sinfonia, totalmente descoordenada com a lindinha cantando à frente.

Direção obrigatória para o Palco Mundo. Era hora de ver aquela estrutura gigante funcionando. Paralamas e Titãs fizeram boas apresentações, incluindo uma gravação de DVD, antes do Rock in Rio. Show certo para agradar. E novamente, o som estava um caos. Impossível se aproximar do palco com a multidão a frente, rodei por toda extensão da área tentando me alocar em algum lugar privilegiado para ouvir e não tive sucesso. Algumas torres com caixas eram figurativas e ruídos foram constantes. Hebert pediu uma salva de palmas para os técnicos da noite.

Herbert Vianna

O repertório dos representantes dos 80′ girou em torno de hits.  Os Titãs não cansavam de interagir com a multidão, o Paralamas seguiu a cartilha de uma apresentação competente. Todos cantavam as músicas e se divertiram com os ídolos, ignorando a precariedade do som.

Último acorde soou da guitarra de Hebert com um aviso: Claudia Leite vem aí. Melhor não. A poluição sonora me desestimulou de ver os shows de Elton John, Rihanna e Katy Perry. A curiosidade que eu tinha por eles não seria saciada naquela condição. Volto ao Rock in Rio na quinta feira e no sábado para Stevie Wonder e Coldplay. Depois conto como foi.

* Fotos retiradas do Flickr do Rock in Rio

  • @igordisco

    Excelente post… Bem equilibrado e com muita coisa que tinha visto mas não tinha me atentado… O QUE ERA AQUELA BARRACA DO ECAD?

    E outra coisa? Precisa MESMO de pizza dominos?