O Secret Festival fica como referência para festivais indie do futuro

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Secret Festi teve saldo super positivo! Foto: Luiz Sontachi/I Hate Flash

Quem chegou às 16h no local do Secret Festival encontrou um espaço super fofo e arrumado para o evento. Era uma espécie de fábrica abandonada que havia sido transformada num agradável espaço de shows, com um palquinho montado no meio diante de um monte de pufs e almofadas. O palco principal, no entanto, ficava na área externa, assim como um dos bares e um carrinho que vendia crepes franceses.

Na área interna ainda havia um bar, dois caixas e um espaco que vendia tapiocas. Também por lá estava uma área do Spotify, onde as pessoas podiam ouvir alguns sons dos artistas que iriam tocar na noite e, em alguns momentos, acompanhar enquanto membros da banda criavam playlists com base em suas influências – se bem que isso acabou ficando em segundo plano diante do tanto de coisas que havia para ver e fazer por lá.

O resultado disso tudo foi um espaço intimista e relativamente pequeno – mas que não ficou absurdamente lotado, o que conta a favor da organização. Também foi positivo ver preços decentes para os itens que estavam à venda lá: uma long neck de Sol custava R$ 7, uma tapioca ou um crepe R$ 15, um drink de whisky R$ 12.

Terno Rei, Mahmundi e Charles Coombes

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Mahmundi trouxe o versão de volta em seu show. Foto: Luiz Sontachi/I Hate Flash

Mais um ponto a favor da organização do evento: lá pelas 16h45, quando eu terminei de ver tudo isso, começou a chover. Forte. O carrinho de crepes entrou no espaço coberto e o Terno Rei, apesar do imprevisto meteorológico, começou o show pontualmente às 17h. O toldo que cobria o palco se estendia para cobrir também um pedacinho diante dele, e quem quisesse ficar perto do palco podia confortavelmente ficar na cara da banda sem se molhar. Se não, era necessário ficar alguns metros atrás, na área interna, o que acabou criando uma espécie de “pista vip” sem nenhuma divisão de preço.

E foi um excelente show. De certa forma, a chuva até beneficiou o Terno Rei: o som deles parece ter sido feito especialmente para os melancólicos e reflexivos domingos chuvosos, e os membros do grupo também pareceram apreciar o toque que aquele “pé d’água” deu às suas composições. “Luz de Bem”, “Trem Leva Minhas Pernas”, e a nova “Criança” (do disco do grupo que saiu na última sexta) ficaram todas excelentes debaixo daquele temporal. Mas além da ótima performance da banda, isso foi mérito também da equipe de som, que conseguiu fazer o show deles soar melhor que outros shows que eu já vi (e que nem foram prejudicados por chuva).

A banda mal se despediu e pouco depois, às 18h, Mahmundi já estava no palco. Acompanhada apenas por um baixista e um baterista, ela anunciou que aquela seria uma apresentação “estilo pocket-show”, já que o guitarrista “tinha que trabalhar amanhã”. Quem pensou que o show seria pior por isso se enganou redondamente. A cantora abriu o set com “Desaguar” e seguiu com pegada e emoção por todas as principais faixas de seu último álbum. “Leve”, “Azul”, “Hit” e “Wild” ficaram todas excelentes no formato que a cantora as executou naquela tarde. Com o fim da chuva, o som ficou ainda melhor, a cantora e a banda pareciam ainda mais confiantes, e “Eterno Verão”, que encerrou o set, fez ainda mais sentido. As duas primeiras apresentações deixaram uma impressão excelente e parecem ter incentivado todas as bandas participantes a dar o melhor de si.

O inglês Charles Coombes, que veio em seguida, foi o que menos empolgou até então. Comparado às atrações anteriores, ele pareceu um pouco frio com a plateia e seu som também pareceu mais genérico. Ele tentou compensar isso, ao que parece, tocando três vezes mais alto que as bandas que vieram antes, de maneira que mesmo dentro do espaço fechado longe do palco ficava difícil conversar. Ele também parece ter tocado um pouco além do horário, já que o show acabou por volta das 19h30, quando o Carne Doce estava marcado para começar.

Carne Doce, TOPS e Lumen Craft

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Com show mais virtuose do que disco, TOPS impressiona. Foto: Luiz Sontachi/I Hate Flash

Eu aproveitei esse atraso para pegar uma cerveja e um crepe. A fila para o caixa estava razoável; o crepe, no entanto, demoraria ainda 25 minutos para ficar pronto, porque a energia do local estava variando, o que fazia com que a chapa não funcionasse e provocou um acúmulo de pedidos. Foi a única situação desagradável de organização que eu encontrei no evento, e pelo menos ela foi informada com antecedência e não foi acompanhada de um preço abusivo.

Mas foi assim que pouco depois me vi encarando a linda e carismática Salma Jô, do Carne Doce, enquanto comia uma tapioca de frango com catupiry. Estava boa e eu estava com fome, mas quase esqueci dela. A banda estava simplesmente furiosa no palco, com os membros tocando muito e claramente empolgados com a reação da plateia. “Princesa”, “Cetapensâno” e “Eu te odeio” ficaram todas muito mais potentes do que no disco com essa pegada incrível. Era muito legal ver os membros da banda interagindo entre si – ficava claro que eles estavam adorando tocar juntos. Isso foi especialmente marcante nas músicas mais longas, como “Açaí” e “Falo”, em que a banda parecia decidir por meio de olhares trocados para onde iria em seguida. Foi o show mais intenso da noite, com a energia da banda sobrando mesmo quando eles deixaram o palco.

A banda seguinte foi o TOPS, provavelmente a atração mais espearada da noite: seria o primeiro show em São Paulo do quarteto canadense que lançou um dos melhores discos de 2014. Os membros da banda já estavam na plateia durante os outros shows, assistindo com atenção e sendo amplamente gentis com fãs que estavam indo lá tietar descaradamente (tipo eu), e pareciam bem tranquilos ao subir ao palco.

Eles abriram o set com “Change of Heart”, um dos singles de Picture You Staring, seu álbum mais recente. Mas quem esperava que o show girasse todo em torno desse disco se enganou: o set se dividiu primeiramente entre músicas novas, como o lindo single “Anything” e outras que estarão no novo disco do grupo (marcado para sair no segundo trimestre de 2017), e canções mais antigas. A performance da banda, no entanto, impressionou em todas as frentes. Embora se trate de um som bem pop, tanto o guitarrista David Carriére quanto o baterista Riley Fleck demonstram uma competência técnica em seus instrumentos muito além do normal pra esse tipo de música. E a cantora Jane Penny mostrou que passa boa parte do tempo escondendo o jogo, porque soltou um vozeirão invejável nas músicas novas.

Tudo isso ficou especialmente evidente em “Way to be Loved”, a última música que eles tocaram (e talvez a mais famosa deles). As linhas de guitarra e bateria da faixa são bastante desafiadoras, e a banda, sabendo disso, ainda incluiu um finalzinho extra com um solo de guitarra para encerrar a apresentação. Mesmo com pedidos insistentes da plateia, a banda não tocou um bis.

Para encerrar a noite, o Lumen Craft subiu ao palco com um show de luzes impressionante. A banda, porém, menos conhecida que as anteriores, acabou ficando um pouco como som de fundo para o fim de uma noite muito memorável. Foi um pouco triste, porque o som deles é bem legal, e teria se beneficiado bastante de uma posição mais adiantada no line up do festival. Ainda assim, foi uma apresentação competente e divertida.

Conclusão: foi animal! 

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Aconchegante, bonito e organizado. Este foi o Secret Festival 2016 Foto: Luiz Sontachi/I Hate Flash

Em um local acessível, com preços razoáveis, organização extremamente competente, plateia espaçosa e atrações excelentes, o Secret Festival é uma referência absoluta para como festivais indie devem ser. O local conseguiu gerar uma intimidade entre os artistas e o público que numa casa maior não seria capaz de oferecer.

Por outro lado, foi espaçoso o suficiente para garantir que ninguém ficasse esmagado, e o serviços foram muito bem gerenciados para não gerar filas excessivas. Não sei se deu para perceber, mas eu passei boa parte dessa resenha tentando achar coisas ruins para falar do lugar, mas realmente não tinha quase nada. Enquanto espectador, eu senti uma facilidade enorme em assistir aos shows de uma posição adequada – colado ao palco quando eu gostava muito da banda, mais distanciado quando eu conhecia menos.

Comprar cerveja, comida, ir ao banheiro e até mesmo conversar com os artistas enquanto eles estavam na plateia também foi muito tranquilo. O fato de a organização do evento praticamente não se fazer perceber pelas pessoas que estavam lá é, na minha opinião, um dos melhores elogios que um festival pode receber, e o Secret Festival realmente o merece.

Mais fotos aqui.

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