O Terno - Melhor Do Que Parece

O Terno
Melhor Do Que Parece

Independente (Natura Musical)

Lançamento: 09/09/2016

Música brasileira é um termo bastante genérico, afinal, reúne todas as nossas canções, estilos, movimentos, revoluções musicais, enfim, uma cronologia rica e, em certa medida, infindável. O Terno, banda paulistana na ativa desde 2009, talvez se encaixe muito bem nesse conceito. Fazendo uma busca rápida em um dicionário online pode-se encontrar genérico como o “que abarca muitas coisas”. Melhor Do Que Parece, o terceiro e mais novo disco do power-trio, que saiu com apoio do Natura Musical, e, de acordo com os caras, é uma mistura de tropicalismo, soul e rock, veio para corroborar isso. O Terno abarca muitas coisas, de fato, mas organiza isso de forma ímpar em 12 faixas dispostas abaixo, cada qual com a sua história, formato e sentido.

A faixa “Nó”, ironias à parte, por certo não desata nada e mantém um entrelaçamento instrumental e vocal. Um discurso, ora engasgado, ora resignado, sobre a vida, é embrenhado com uma melodia aparentemente simples, iniciada somente por uma harpa, mas seguida de um arranjo deveras alucinógeno. (Talvez haja Belchior aqui!) O álbum todo passa por um certo abatimento, talvez caiba dizer que Melhor Do Que Parece dispõe de um mundo próprio, e sem cor. Esse abatimento, por vezes, é amoroso, caso de “Vamos Assumir”, que soa quase como um hino para relacionamentos ultimados, frustrados, acabados e outros “ados” que machucam o coração. A melodia é instável, às vezes grita, às vezes sussurra, e tem daqueles solos rasgantes que finalizam uma música. Tem mais sofrência em “Depois Que A Dor Passar”, música com teor psicodélico, baixo forte e backing vocals que se encaixam muito bem com toda uma orquestração melodiosa. Aliás, backing vocals são regulares no disco, destaque para a faixa “Volta”, com vozes de apoio que lembram muito as cantadas em Here, There and Everywhere, dos Beatles, evidenciando mais referências sessentistas.

Tem mais de anos 60 em “Culpa”, música que abre o disco e passeia entre a soul music e a surf music. Logo de cara pode-se fazer, bem de leve, um passinho típico dos Blues Brothers ou um remelexo no estilo Beach Boys. Quem também busca referência por esses tempos é o rockão (de amor) “Não Espero Mais”. Letra limpa e um órgão forte são seus principais elementos.

Em meio a uma enxurrada de sentimentalismos (aqui, sem exageros), o disco faz uma parada em “O Orgulho E O Perdão”, um samba meio rock que não tem nada de samba-rock. (Aquele, na linha do Jorge Ben). Pode ser considerado um samba nas ondas tradicionais e intencionais d’O Terno. Quase uma brasilidade adulterada, mas no bom sentido. Outra intervenção acontece em “A História Mais Velha Do Mundo”. Esta não destoa tanto no discurso, já que mantém seus pés firmes na consternação amorosa do disco, mas tem uma sonoridade muito específica, uma simplicidade instrumental que se agiganta com uma letra que cabe em poucas linhas.

“O que a gente quer é gostar de alguém, e quer que esse alguém, goste da gente também, é a história mais velha do mundo, um destino que foi desenhado, o que mais alguém pode querer, além de amar e ser amado?”. Cabe em poucas linhas, mas rende pensamentos por páginas e mais páginas. Esse pensamento segue vívido em “Depois Que A Dor Passar”, faixa que reafirma o encontro, tão firme no disco, entre música e filosofia. E é com firmeza (também tristeza, claro) que Tim Bernardes, vocal do grupo, diz que “É bom pra gente aguentar firme, se acontece uma próxima vez”. Melhor Do Que Parece fala muito sobre a dor, mas tenta ensinar com ela também.

O disco é bem diverso, como já foi dito, mas talvez seu tema central seja o amor e seus reflexos. Dentro do próprio amor d’O Terno há variação, já que os músicos não tratam apenas do amor entre duas pessoas. Em “Minas Gerais”, faixa 8, há muito amor também, mas pelo estado que dá nome à música. Embalada por backing vocals (Acredite, eles não são excessivos!) a música exalta um sentimento por Minas quase que de forma mágica. Na mesma medida, há a surreal “Lua Cheia”, música que caminha entre explosões e ritmos mais calmos. Um Caos! Tanto em questão de letra, quanto coesão musical (aqui, um caos ideal!). “Deixa Fugir” traz o confronto, já visto antes no disco, entre letra triste e instrumental expansivo.

“Melhor Do Que Parece”, a faixa que encerra o disco e leva seu nome, talvez possa ser definida como uma multidão muda. Música com um pé na depressão, envolvida por paradinhas que lembram Led Zeppelin, “Melhor Do Que Parece” transborda em instabilidade emocional, tem um arranjo imperial e segue com uma orquestra rica, até um fim explosivo. Que O Terno siga explodindo, destruindo, construindo, descontruindo O Terno!

Escute o disco no Spotify:

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