O Terno - O Terno

O Terno
O Terno

Independente

Lançamento: 18/08/14

Após um álbum de estreia divido entre músicas autorais e covers, O Terno merecia, e também devia a si mesmo e aos admiradores, uma nova apresentação. Enquanto o primeiro lançamento apresentava diversas tentativas de passar o simples como quem almeja o genial, e tropeçava na aplicação de todos recursos de composição dito espertos, o retorno do trio paulistano se mostra, logo de cara, muito mais viável e apreciável. Sem a pressa de outrora,  eles retornam em 12 faixas, com novas inspirações e aspirações, de jovens igualmente pretensiosos, mas por ora muito mais atenciosos às suas próprias criações. Nada mais justo que esse registro se chamasse mesmo O Terno. Homônimo, o segundo álbum, dessa vez totalmente autoral, apresenta a banda como deveria: com passos próprios em um caminho de inéditas possibilidades.

Dedicando mais tempo à produção em estúdio, é possível notar a mudança estética da sonoridade já em “Bote Ao Contrário”, faixa que abre o disco e implanta uma dúvida, por seu título, se não deveríamos inverter sua rotação e procurar por alguma coisa sendo falada ao contrário (apesar de sua letra não justificar tal bobagem). Se em 66 a proposta era justamente soar como na década de sessenta, em O Terno a experiência parece inspirada na psicodelia e avança uma década, ainda que use o atalho através de bandas contemporâneas como Unknow Mortal Orchestra, Tame Impala e Foxygen, assumidamente influências, que guiam as soluções melódicas e de arranjo. Mas a década de setenta também serve de referência para a poesia, que certas vezes beira o brega (isso é um elogio), em outras remete ao lamento sofrido como o de Roberto Carlos, passando por momentos debochados, assim como Os Mutantes faziam, ou contando histórias, assim como Raul Seixas, vide “Quando Estamos Todos Dormindo”, tema que se desenvolve de forma linear a afasta um possível cansaço ao seu final, com um belo fechamento.

É válido, ou melhor, essencial ressaltar que explorar a releitura do psicodelismo em sua nova forma mais acessível, somando-a à linguagem da poesia romântica brasileira, não é exatamente inovar. Mas ao O Terno parece ter sido a solução que mais deu corpo ao seu juvenil espírito, amadurecendo-o e dando a consistência certa, sem passar do limite, onde a graciosidade se perde, mas permitindo à banda criar mais livremente e de forma também mais assertiva, da simples à mais exacerbada criação. Os fãs que contribuíram com o projeto colaborativo de financiamento do álbum podem ficar satisfeitos com todo esforço aplicado por aqueles em que apostaram.

Com sua forma mais definida, cabia aos rapazes acertar a mão em suas criações, com canções mais aprazíveis pela beleza tocante do que por seu teor cômico. É evidente, logo na primeira audição do LP, que conseguiram facilmente isso em diversos momentos. A faixa de abertura é muito bem definida, e até mesmo possui um suingue até então inexistente para eles. Percebe-se o cuidado na mixagem, mas infelizmente o efeito abafado da voz, que faz grande diferencial nessa canção, e contribuiria para uma imersão mais precisa no conceito geral, não chega a ser bem aproveitado em outras faixas. Isso deixa uma impressão de quase risco – faltou um pouco mais de coragem ou busca por unidade, visto que outras soluções diferentes são dadas à mixagem de voz, mas não alcançam a mesma precisão. Essa característica lo-fi contribuiria com a estética, já que, no quesito execução, Tim Bernardes, em grande forma, não decepciona, com um canto potencializado por sentimentos e fragilidades.

“O Cinza” e “Quando Eu Me Aposentar” evidenciam o quanto se trata de um álbum mais urbano, apesar de serem canções não tão bem resolvidas por tanto se perderem na infinidade de possibilidades. O mesmo acontece na experimental “Vanguarda?” e na imprecisa “Medo do Medo”, que conta com Tom Zé. No contraponto, “Eu Vou Ter Saudades” aparece como o melhor trabalho da banda até hoje – bem climatizada com seu hammond e cheia de entrega, é a mais sensível criação d’O Terno. Outros destaques são “Ai, Ai, Como Eu Me Iludo” e “Eu Confesso”.

Algumas escorregadas ficam mais evidentes em “Brazil”, uma “piada” não muito original que não consegue se valorizar também por isso, e que chega até a apostar em vocais harmonizados com bastante similaridade ao que faz o Grizzly Bear, na busca por atenção. “Desaparecido” tem uma linguagem de musical, e assim fica bem desencaixada na obra, apesar de sua rica criação. Veja bem, optar por novos caminhos é arriscar. Bom que o trio preferiu correr os riscos a correr das responsabilidades.

Ainda que O Terno passe longe de ser um ótimo disco, ele ainda consegue se manter exemplar, e por isso merece sua atenção.  Se em 66 a banda se dividia em duas, com toda a pressa do mundo de logo se exibir ao público, no novo lançamento o grupo apenas se divide entre aquela que, inspirado, faz belas canções, e outro que almeja demais – e pode falhar por isso. Em seu próprio caminho, O Terno se mostra muito mais interessante do que nunca.

  • lLucas

    Muito boa crítica, uma das poucas que não é superpositiva, e sim “detrinchitiva”, como a de ”66”, apesar de eu gostar bastante dos caras. Outra coisa, será que vale a pena um álbum ser muito coeso (em estilo, harmonias, melodias)? Nem sempre funciona, e inclusive pode privar o processo criativo e limitar experimentações.

  • Alexandre Junior

    Muito boa a crítica. Achei que poderia rolar um 7.5, mas tudo bem. Pelo menos a crítica é rica, mostrando os aspectos nos quais a banda poderia melhorar.