Opinião: Mallu Magalhães errou em seu videoclipe, não tem o que dizer

O clipe da Mallu Magalhães para a música “Você Não Presta” foi duramente criticado por ser considerado racista, inclusive, a gente foi citado na matéria do Buzzfeed. Teve muita gente que se incomodou, falou mal e o triste caiu na misoginia, quando disse que Mallu não era talentosa e só chamava atenção, por quê? Advinha! Porque casou com o Marcelo Camelo.

A verdade é que quando assisti pela primeira vez o clipe, não vi nada demais, apenas pessoas dançando e sinceramente, a única coisa que me incomodou foi uma cena em que a barriga é mostrada de pertinho e ela está suada. Sim, porque há anos a pele negra sempre foi considerada “da cor do pecado”, como se trasar com um pessoa de pele escura fosse algo proibidamente bom, mas que você não poderia revelar pro coleguinha, muito menos para sua família. Até novela com esse nome a gente sabe que já teve, né? Vocês lembram?

Pois bem, acontece que a matéria do Buzzfeed mostra vários outros erros, uns que concordei e outros que achei pegaram pesado. Como o que pega a letra e fala que a artista estava mesmo era fazendo uma música dizendo que quem não presta são os negros. Para mim está meio claro, que ela está falando de outrem e esse outrem parece ser uma figura masculina. Mas uma amiga no Facebook foi quem fez a melhor crítica, disse ela: “Parece um vídeo de: ‘Olha como eu sou descontruidona, tenho até amigos negros!”.

A principal crítica ao clipe foi de que a Mallu não interagia com os dançarinos todos negros, que faziam passos de balé clássico, kuduro e afro-house. Ah! E que foi gravado em Lisboa, capital de Portugal, onde Mallu reside. Muitas das cenas os dançarinos estão atrás dela, ou seguindo, numa cena até do lado, mas nada de olhar para eles. Não precisa ir muito longe para achar outros artistas que fazem isso também. Daí, nesse ponto, o racismo caiu por terra. Daí, teve gente que mandou: “Os dançarinos não são burros, não iam estar em uma produção racista”. Concordo. Mas a verdade é que, como eles iam saber que o produto final iria ficar racista? Não dava, né? Passou por eles? Passou por algum negro? Passou por qualquer pessoa que sabe o que é racismo na pele?

Para ter recebido uma enxurrada de crítica, a resposta está muito clara: Não! Engraçado, que fez me fez lembrar em dois seriados, um Black-ish, com um chefe que sempre submete ao seu funcionário negro todas as peças, porque ele “pode soar” racista (e nossa! Todo dia o mano solta um preconceito diferente!) e uma a recente temporada de Master of None. Dev, interpretado pelo ator de origem indiana Aziz Ansari, conhece uma moça, vai até a casa dela e eles transam. Quando ele vai embora comenta sobre um pote de uma mulher robusta e negra, onde ela guarda as camisinhas:

“Qual é a desse pote?”. A moça fica confusa, ele diz que é meio racista e ela discorda (claro!), ao passo que ele diz: “Eu sou a pessoa com a pele mais escura que esteve aqui nos últimos meses, estou dizendo que o pote é racista e você não acredita em mim?”. Por que eu trouxe essa cena? Simples, se você não quer soar/ser/parecer racista, querido amigo branco, por que você não chama uma galera negra para a sua produção, que nem o amigão do Black-ish? E cara, se algum negro se incomodou, é porque tem alguma coisa errada! Acho que a primeira coisa que todo ser humano branco tem que entender para se livrar do racismo é: amigo, você é racista.

Eu sou racista. Você é racista. Minha mãe que é casada com um homem negro, é racista. As pessoas são racistas. Algumas não por culpa delas, mas porque foram criadas dentro de um sistema racista e simplesmente não conseguem enxergar ou nunca discutiram sobre o assunto. Ou não problematizaram o sistema e as situações. O que você pode fazer, querido amigo branco, é estudar, ler, ver entrevistas, conhecer e botar no seu círculo de amizades pessoas negras. –  Mas não vai ser idiotão e ficar falando: “Eu tenho até um amigo negro”, isso se inclui para os LGBTs também, viu? – E conversar, dialogar, perguntar se você tiver dúvidas. Perguntar não ofende.

Então, o que a Mallu Magalhães fez, a única coisa que ela podia: pediu desculpas. Em nota em seu perfil no Facebook, a moça disse que não foi sua intensão, que na verdade só procurou bailarinos muito bons para dançar no clipe dela (leia abaixo).

Tá certo! Tem que reconhecer o erro, sim! Acho louvável fazer isso e parte de mim tem certeza que ela não fez por mal mesmo. Mas errou. E uma maneira legal de arrumar isso era fazendo uma nova montagem, não era não? A sensação que dá, voltando para o comentário da amiga lá em cima, é que o “negro tá na moda” e que é legal ter uns “migo negro” e uns amigos desfilando sua negritude do lado do branco. Mas gente, o negro não é acessório, não é penduricalho, é para ele estar do seu lado dentro do protagonismo dele ou dela!

Em tempo, perguntaram em uma entrevista no G1 ao Emicida o que ele achava e um tanto quanto lacônico, ele respondeu: “A gente tem problemas mais sérios do que esse. Entendo que isso é o que dá uns ‘likes’ na internet. Mas eu não tenho vontade nenhuma de participar da discussão”.

Tem problemas mais sérios do que um corpo de baile negro num clipe de música? É óbvio que tem! Afinal, um dado, a cada 23 minutos (você leu corretamente) jovens negros são ASSASINADOS (você leu corretamente), no Brasil. E as mulheres negras têm 37% mais chance de serem estupradas do que mulheres brancas em situações semelhantes. Mas, se a gente não colocar o dedo nessa ferida, não questionar, não reclamar, vocês acham que alguma coisa vai mudar?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *