Os 20 anos de “Ok Computer” por Wado, Aloizio e a Rede, Carne Doce, The Baggios e Bratislava

Convidamos os artistas para eleger uma música do disco mais icônico dos britânicos

São muitos os lugares, os estilos, as referências. Wado, Aloizio e a Rede, Carne Doce, The Baggios e Bratislava representam muito da pluralidade da música no Brasil, em comum a influência e reverência a banda Radiohead. Ainda comemorando os 20 anos de lançamento do disco OK COMPUTER, conversamos com alguns músicos dessas bandas que nos falaram sobre a importância do álbum para eles e as músicas que mais marcaram.

Wado

Antes de lançar meu primeiro disco, lembro do impacto da complexidade instrumental e a quantidade imeeeensa de partes de “Paranoid Android”. Pra um cara apaixonado por canção como eu, era estranho me permitir gostar (e progressivamente amar) uma peça longa, obtusa como aquela, só senti isso antes com o disco da vaca (Atom Heart Mother) do Pink Floyd, e isso aconteceu na infância por influência dos meus irmãos mais velhos. Por alguma razão subconsciente, eu tinha uma versão de “Ponta de Areia” do Milton Nascimento onde inseria aquele riff clássico da faixa: can cancan carangamgangangangangan, sabem qual é né? Exatamente essa onomatopeia aí. Toquei bastante isso em shows aqui em Alagoas, era um impacto sair da doçura mineira pro esporro de guitarra deste disco clássico que ouço com prazer até hoje. Se falarmos de Radiohead então, está sempre comigo, nas oiças, a versão adubada de Victor Rice, o americano do minhocão que, junto com Kassin, são meus produtores prediletos a residir hoje no Brasil. Adoro; e adoro todas fases, eles continuam geniais e os discos de dubstep são os OK Computer de hoje em dia. O Radiohead é o Caetano da Bahia da Inglaterra: Sempre pertinente!

Aloizio / Aloizio e a Rede

Sempre difícil escolher uma música preferida nos discos do Radiohead, mas eu me identifico muito com a letra de “No Suprises”. Acho bem irônica a música ter uma vibe pop (e quase fofa), mas com uma letra falando sobre uma vida anestesiada, quando tudo está tão ruim ao ponto de você querer uma vida sem emoções, sem mudanças, sem surpresas. Acho que é o estado atual das pessoas sensíveis no mundo e um dos versos define muito bem o brasileiro em 2017: You look so tired and unhappy/ Bring down the government/ They don’t, they don’t speak for us. Mas no fundo no fundo, quando eu escuto “Paranoid Android” eu lembro daquele show deles em São Paulo em 2009 e PUT*MERD*FOIBOMPRACARALEO.

Macloys Aquino / Carne Doce

Eu tenho dificuldade em escolher uma música porque esse disco todo significa muito pra mim. Eu tinha 17 anos quando foi lançado e um colega de Escola Técnica, o Élvio (gravei o nome dele por causa disso), comprou assim que chegou nas lojas e me emprestou. O disco ficou um mês comigo e eu não entendia porque eu gostava tanto. Gostava mas não sabia dizer porque. Era pesado como Nirvana, Alice in Chains e as bandas punks que eu ouvia na época, mas era diferente, novo, fresco. Acho que as harmonias, lindas e estranhas, as baterias não pesadas, os timbres, tudo era novo. Foi uma revolução quando isso apareceu. Conhecia Radiohead antes do OK Computer, mas nunca tinha me pegado como esse disco.

Gabriel Perninha / The Baggios

Missão impossível total responder qual é a melhor músico! Até porque as músicas favoritas sempre vão mudando…Mas vamos lá.. Eu escolho ‘Airbag’, é a música com um dos grooves mais criativos do disco. Mas eu fiz essa escolha mais pela sensação de lembrança das primeiras vezes que escutei o Ok Computer mesmo. Ainda bate uma emoçãozinha quando entra aquele riff logo de cara, principalmente quando você deixa o disco ali de lado de tanto ouvir e aí do nada ele toca de novo e aí você tem aquela sensação instantânea que eu não vou conseguir explicar mas vocês sabem como é.

Victor / Bratislava

Antes de tudo: a pergunta é CABELUDA! Gosto muito de “Climbing up the Walls”, “Karma Police” e “Lucky”. Mas acho que se for eleger uma favorita fico entre “Paranoid Android” e “Exit Music”. “Paranoid Android”, se me lembro bem, foi a música que me fisgou pra dentro do universo da banda. A complexidade harmônica, os diferentes temas entrelaçados e os retornos. É uma pequena sinfonia. E a letra é um misto de sentimento de revanche e inércia, uma promessa de vingança com uma serenidade resignada… Amo essa música. “Exit Music (for a film)” tem um pesar, uma tristeza enorme e um sentimento de cumplicidade que pegam em cheio no peito. O papo de “escapar” é bem presente nas letras do Radiohead e acho que é impossível não se reconhecer ou se projetar nessa mesma ânsia. É uma música delicada e perversamente angelical. Linda demais.