Os melhores discos internacionais de 2014

Reunimos alguns dos principais lançamentos de bandas e artistas internacionais durante o ano

Arte: Iberê Borges

Depois de ouvir e escrever sobre os principais lançamentos do ano, o Move apresenta, nesse fim de 2014, os melhores momentos que passaram por nossas páginas desde janeiro. Já vasculhamos o acervo nacional de novidades com as melhores faixas e discos lançados no Brasil neste ano. Agora, vamos para o circuito internacional. Passamos pelas músicas e, agora, focamos nos álbuns estrangeiros. A lista começa com menções honrosas em ordem alfabética e segue com o ranking principal, organizado através de votações entre alguns colaboradores do site.

 

Menções honrosas:

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Alvvays – Alvvays

A embalagem “fofa” de certos produtos por vezes ultrapassam a barreira do irritante e seguem caminho seguro ao evitável. A displicente voz de Molly Rankin poderia atirar sua banda na seara do desinteressante não fossem as instrumentações que cria em companhia de seus parceiros: jangle pop, um tanto de noize e ótimos refrãos a salvam em última instância. (Allan Assis)

Interpol – El Pintor

El Pintor, quinto álbum do Interpol, parece ter sido a retomada da antiga forma do grupo, que recupera parte do vigor dos primeiros registros. Guitarras urgentes rodeiam as faixas, ao lado do baixo marcante e vocal grave e certeiro. O disco traz algo sombrio, mas consegue balancear a atmosfera com boas doses de energia e algum frescor. (Bruna Dourado)

The Ghost of a Saber Tooth Tiger – Midnight Sun

Sean Lennon e Charlotte Kemp Muhl lideram o GOASTT em uma das melhores viagens psicodélicas do ano. O folk experimental com o senso pop meio torto da dupla dá charme e originalidade ao álbum. Ouça “Xanadu”. (Neto Rodrigues)

TOPS – Picture You Staring

O segundo álbum do quarteto canadense TOPS vai na mesma linha de revival dos anos 80 que artistas como Ariel Pink, mas traz um pop impecável, agraciado pela linda voz de Jane Penny e pelas linhas matadoras de guitarra de David Carriere. É cheio de músicas imperdíveis e grudentas, como “Way to Be Loved”, “Change of Heart” e “Outside”. (Gustavo Sumares)

Weezer – Everything Will Be Alright In The End

Ficamos mal-acostumados com muitos discos da carreira do Weezer: a cada lançamento, por melhor que fosse o álbum, ficava uma sensação de que faltava alguma coisa. Dessa vez não faltou. (Gregório Fonseca)

Wild Beasts – Present Tense

As vozes mais poderosas da música britânica voltam a tomar a frente com mais um álbum fora do comum. Present Tense é pesado mas flutua como uma nuvem. Talvez seja o resultado da satisfação de acompanhar uma banda que não para de surpreender. (Iberê Borges)

 

25. Angel Olsen – Burn Your Fire for No Witness

Iberê Borges

Personalidade é artigo para ser esbanjado em Burn Your Fire for No Witness. Angel Olsen trabalha, no registro que melhor a representou até hoje, com seu folk, seu country e tudo que envolve suas composições – a coisa vai ainda mais longe do que isso – e o cenário é dramático, obscuro. Não há malabarismos – apenas o que é necessário faz parte do álbum. Ainda assim, não falta nada para que ele seja imperdível.

 

24. FKA twigs – LP1

Allan Assis

O pop com ligações experimentais vem criando canais de revisitação no R&B. Solange, Dev Hynes, Jessie Ware e outros tantos nomes usaram roupagens nostálgicas na criação de sua base de fãs e também garantia de burburinho ao investigar sonoridades já encaradas como clássicas pela crítica. Nenhum deles se apresenta tão pronto e interessante quanto FKA twigs. Da imagem – mistura de figura hiper-sensualizada e esquisita – ao som que recorta em mil pedaços o R&B para uni-lo ao eletrônico lo-fi, Tahilah Barnett cria em seu disco de estreia a mais bem dosada mistura de experimentação e conexões com as bases do gênero. Sem dúvidas, um nome a se acompanhar de perto.

 

23. Jack White – Lazaretto

Gregório Fonseca

Lazaretto traz em seus créditos o nome de quase duas dezenas de músicos. Tantas colaborações, no entanto, não tiram o brilho da guitarra de Jack White (naturalmente, a grande estrela do disco). A coleção de riffs por si só poderia alçar o álbum ao posto de clássico. E para os “materialistas” da música, o vinil de Lazaretto veio repleto de bônus que só os amantes do formato puderam apreciar.

 

22. Future Islands – Singles

Gustavo Sumares

Sim, Singles é o disco que tem “Seasons (Waiting On You)”, a música da dancinha do David Letterman. Mas além disso, é o momento em que o Future Islands conseguiu dar o melhor formato às suas canções sentimentais. Assim como a já citada “Seasons”, ele também tem “Spirit”, “Sun In The Morning”, “A Song For Our Grandfathers” e “Doves”, que merecem tanta atenção e crédito quanto ela. Singles não é só o disco da dancinha do Letterman, mas é também o som de uma banda atingindo o auge do que faz.

 

21. Cheatahs – Cheatahs

Gustavo Sumares

O disco de estreia dos Cheatahs é daqueles álbuns que consegue pegar um estilo extremamente surrado e gasto e deixar bem claro por que até hoje as pessoas ainda o ouvem tanto. Viagens na estratosfera shoegaze como “IV” e a excelente “Fall”, que não fariam feio em qualquer clássico do estilo da década de 90, dividem espaço com porradas diretas e barulhentas, como “Leave To Remain”, “Get Tight” e “Kenworth”, e mandam o ouvinte passear num foguete feito de guitarras que só volta à Terra uns bons minutos depois que o disco acaba.

 

20. Royal Blood – Royal Blood

Neto Rodrigues

Demorei alguns bons e ingênuos dias até descobrir que o Royal Blood se tratava de baixo + bateria – e não guitarra + bateria. Mike Kerr, dono das notas graves, emula riffs rápidos de guitarra e deixa o som do duo com muito mais peso e adequado para que Ben Thatcher descarregue viradas e pauladas barulhentas. “Little Monster” e “Come On Over” são os melhores exemplos do frescor criativo da dupla. Agora, resta saber quais serão os próximos caminhos da banda, baseada, até o momento, apenas em dois instrumentos.

 

19. Chet Faker – Built On Glass

Neto Rodrigues

Nick Murphy, aka Chet Faker, aproveita sua voz classuda para habitá-la sobre batidas minimalistas em seu trabalho de estreia. Em 12 canções, Chet se divide entre criar pequenas pérolas (“1998”, “Talk Is Cheap”) e experimentar livremente bases mais puxadas para o R&B deste século (“Dead Body”, “Lesson In Patience”), com alta taxa de aproveitamento em ambas as frentes.

 

18. Damien Rice – My Favourite Faded Fantasy

Iberê Borges

A espera por um novo lançamento do irlandês durou oito anos. E por que esperar tanto? Porque Damien Rice faz de sua canção seu objeto mais valioso e, quando decide por expô-la, consegue obter um alcance absurdo para o gênero, mantendo sua qualidade intacta. Como ser acessível e conversar com um público tão amplo, sem deformar sua personalidade, é o seu segredo. Rick Rubin assume a produção de My Favourite Faded Fantasy e cria estrutura para que um registro tão aguardado não se exibisse de maneira afoita – o álbum é sentimental, denso e preciso.

 

17. Thurston Moore – The Best Day

Neto Rodrigues

Para seu novo disco solo, Thurston Moore reuniu integrantes do alto escalão do rock alternativo: o guitarrista inglês James Sedwards, a baixista Debbie Googe, do My Bloody Valentine, e seu parceiro de Sonic Youth Steve Shelley comandando as baquetas. Em The Best Day, Moore volta a se dedicar à barulheira de suas guitarras, e entre microfonias e notas dissonantes, prova estar em ótima forma, no alto de seus 56 anos.

 

16. Temples – Sun Structures

Neto Rodrigues

Lançado em fevereiro, o debute do Temples soa ainda melhor com o tempo. A pegada psicodélica do grupo inglês, além de ser perfeita para viagens de carro, consegue ser versátil nas 12 faixas do álbum, com destaque para os singles mais acessíveis, como “Keep In The Dark”, “Shelter Song” e “Mesmerise”. Mas a parada obrigatória é na épica “Sand Dance”, com seu riff grandioso que deveria ser trilha oficial da série Prince of Persia.

 

15. Flying Lotus – You’re Dead!

Allan Assis

A espiritualidade guia as incursões de Flying Lotus pelo misto de jazz e eletrônico que ele mesmo criou. Em You’re Dead!, foge do eletrônico como caminho fácil para a música inorgânica e se baseia em vinhetas e experimentações fincadas nos ritmos tradicionais, de modo a encontrar uma relação mais humana para um trabalho que define suas impressões sobre a morte. As evoluções e usos demasiado detalhados de seus recortes, que inacreditavelmente tem pouco de analógico, são a forma que Steven Ellison encontra de explanar a questão como uma experiência abstrata e subjetiva do caminho natural da vida. Garantindo ainda relações com o hip hop que já havia estabelecido em registros anteriores (e aqui assegurados pelas participações de Snoop Dogg e Kendrick Lamar), avança na criação de um álbum que aponta reinvenção de seus próprios trabalhos e sonoridade única, filha dos vários gêneros que manipula unicamente.

 

14. Warpaint – Warpaint

Neto Rodrigues

Em seu segundo disco, o quarteto de Los Angeles sacramenta sua sonoridade com vocais sobrepostos e arranjos sustentados por linhas de baixo sombrias e ritmos quebrados de bateria. Sem ligar para estruturas convencionais, a banda cria universo próprio onde a experimentação vai da esquisita “Go In” à inesperada “Disco//Very”, o mais perto que o grupo chega de um single dançante. “Feeling Alright” e “Love Is To Die” são outros dois momentos imperdíveis do álbum.

 

13. Damon Albarn – Everyday Robots

Neto Rodrigues

Melancolia e solidão em um mundo cada vez mais tecnológico são os fios condutores da belíssima estreia solo do músico inglês. Mas para cada “The Selfish Giant”, com seus lindos pianos, há uma “Mr. Tembo” derramando fofura por onde passa; para cada “Lonely Press Play”, há uma “Heavy Seas Of Love”. Esta última, inclusive, fecha o álbum deixando o sol entrar pela janela. É o otimismo de Albarn falando, finalmente, mais alto que suas incertezas.

 

12. Honeyblood – Honeyblood

Bruna Dourado

Parte da atual cena musical de Glasgow, o charmoso duo Honeyblood chegou em 2014 com o seu álbum de estreia, que leva o mesmo nome e traz elementos do indie rock, punk e lo-fi. Os vocais firmes, mas doces, de Shona McVicar deslizam pelas músicas de guitarras ruidosas e bateria marcante, comandada por Stina Marie Claire. É um daqueles discos que você ouve e depois se pega cantarolando alguns refrãos, que não saem mais da cabeça.

 

11. Ana Tijoux – Vengo

Gustavo Sumares

Um disco com 17 faixas que não seja cansativo é coisa rara. Mas em Vengo, a rapper Ana Tijoux consegue ir além e mistura suas rimas contundentes, cheias de mensagens importantes, a uma variedade insana de estilos, desde funk dos anos 70 até ritmos andinos e melodias de sotaque árabe. Como se não bastasse, ela executa maravilhosamente cada um dos estilos e ritmos nos quais se joga, sem que suas rimas ou melodias desafinem nem por um momento.

 

10. Sondre Lerche – Please

Iberê Borges

Sondre Lerche é uma figura admirável da música. Não se encaixa exatamente em uma tendência ou cenário, mas explora todas as possibilidades que o agradam em sua música. Algo bem pessoal mesmo, o que permitiu compor todo um álbum no período de divórcio após um casamento de oito anos. Não há exatamente lamentos, mas a mudança, a insegurança e os conflitos são temas constantes. Para torná-los imperdíveis, Sondre soube como experimentar nos arranjos de cada canção e aplicou mais um pouco da sua dose de finas composições. Atenção à produção excepcional, onde o silêncio, a delicadeza e o ruído soam perfeitamente equalizados.

 

09. Woods – With Light And With Love

Iberê Borges

Há quase 10 anos, o Woods vem apurando seu freak-folk. Com With Light And With Love ele já não é tão freak assim, porém não parece que nada se perdeu nessa jornada. Pelo contrário: a elegância se soma aos consistentes temas e tudo soa tão belo e fácil que faz dele o melhor álbum lançado pela banda – o que traz ainda mais esperança para seus próximos movimentos. Os toques de psicodelia se convergem no sentido que faz você querer voltar mais vezes ao álbum.

 

08. Slow Club – Complete Surrender

Iberê Borges

É surpreendente que um álbum do Slow Club figure entre os melhores do ano. A banda nunca foi centro das atenções e nem passou a ser uma promessa em algum momento da sua carreira. Então, o que traz Complete Surrender a essa lista? Sua produção, suas composições que fogem do lugar comum e a interpretação da dupla. Com arranjos bem desenhados e funcionando como uma trilha sonora de diferentes momentos, cada canção possui seu brilho cheio de personalidade. É algo revigorante, pois possui ambição, e há uma maneira de isso acompanhar as canções populares sem que a afete. Nisso, Complete Surrender faz espetáculo.

 

07. St. Vincent – St. Vincent

Allan Assis

St Vincent é das poucas artistas a fazer transição entre uma figura anterior, já interessante – mas demasiado igual a suas pares – e a atual e excêntrica compositora que encontra em seu repertório espaço para discursar sobre o avanço tecnológico como atraso social, a robotização do ser humano e experiências pessoais que talvez pareçam sonhos ou realidades exageradas. No autointitulado St. Vincent,a cantora dá mais um passo para fora da curva, tornando seu rock mais interessante e suas faixas ainda mais provocativas, colocando pés em influências como David Byrne, Devo e no surrealismo.

 

06. Run The Jewels – Run The Jewels 2

Allan Assis

Peso sonoro, violência e crítica social. Eis os principais ingredientes do segundo álbum do Run The Jewels, RTJ2, onde Killer Mike e El-P definem espaço às pedradas no gangsta rap livremente inspirado na década de 90. Não apenas trazendo de volta a essência da era de ouro do hip hop, mas adicionando a ela elementos como batidas árabes e elementos de punk rock, a dupla não se preocupa com a agressividade de suas metáforas ao tratar de temas como o tráfico de drogas (e a ostentação que o acompanha), criminalidade e a subversão do negro tratado como marginal, em rimas de velocidade absurda. Remontando o gênero como meio de comunicação dos desajustados, o RTJ elimina sua concorrência.

 

05. Real Estate – Atlas

Gustavo Sumares

Em Atlas, o Real Estate entrega a obra-prima que prometia desde o começo. Elementos sonoros simples como as guitarras brilhantes e a voz tranquila de Martin Courtney, sobre os quais a produção joga uma charmosa névoa, se unem para compor um quadro que une a delicadeza de uma aquarela com a grandiosidade de um mural. A riqueza melódica e silenciosa autoconfiança de faixas como “Had to Hear”, “April Song” e “Horizon” são ainda mais impressionantes por conta de sua evidente simplicidade.

 

04. Sharon Van Etten – Are We There

Allan Assis

Sharon Van Etten iniciou sua carreira no porão da casa dos pais, dedilhando um violão e juntando frases que explicassem o fim do relacionamento que a levou à estaca zero. Passados alguns anos e discos, Sharon ainda não encontrou o motivo que a leva a abandonar a razão e seguir se atirando em relações mesmo depois de tantas canções ruminando términos. Em Are We There, ela entende, entretanto, que as pequenas tristezas e o medo de envolvimentos farão sempre parte do todo, e desse momento em diante se vê livre das obrigações em acertar. De faixas onde revela seus medos (“Every Time the Sun Comes Up”) a momentos em que simplesmente aproveita a companhia (“Tarifa”), Van Etten finalmente passa a aceitar o amor como objeto imperfeito.

 

03. Spoon – They Want My Soul

Gustavo Sumares

Não que Transference, de 2010, não tivesse seus bons momentos. Mas depois que o Spoon finalmente entregou tudo o que prometia com o excelente Ga Ga Ga Ga Ga, a expectativa de que eles acertariam na mosca de novo era alta. They Want My Soul é o momento em que eles conseguem fazer o raio cair duas vezes no mesmo lugar. Cada uma das suas 10 faixas consegue, com uma notável economia de recursos, se tornar inesquecível assim que você a ouve pela primeira vez.

 

02. Sun Kil Moon – Benji

Iberê Borges

O que há de especial em Benji é algo inigualável. Não há como qualquer outro registro soar como ele, pois sua essência não está no formato das canções, seja por seus arranjos acústicos ou na estrutura de suas melodias. Não há aqui uma novidade também, uma nova tendência, ou uma linguagem pronta para ser colocada num recipiente e multiplicada. Benji é único pois é o retrato da vida de Mark Kozelek e suas experiências, suas histórias, seus relacionamentos familiares ou não, suas mudanças e contradições. Tudo é contado (cantado) de maneira tão sincera e com detalhes, como ele nunca acertou antes com tanta precisão, o que estimula nossa imaginação e sentimentos. E o que sentimos também é inigualável.

 

01. The War On Drugs – Lost In The Dream

Allan Assis

Lost In The Dream é um road album. Criado na estrada durante a última turnê de Adam Granduciel, é campo onde dedilhados de guitarra, pequenas incursões no eletrônico e a melancólica voz do frontman remontam a saudade de casa. Inspirando-se em discos de rock clássicos, onde não por coincidência, seus artistas também viveram a sensação de criar um lar enquanto em trânsito, e aumentar a estranheza na volta para casa, o War On Drugs cria registro de faixas extensas, adicionando solos e belas melodias por medo de assumir o eminente fim que se aproxima de seu processo criativo, claro reconhecimento do foco no trabalho como meio de fugir de uma relação desgastada. Ironicamente, quão mais profundamente observa a paisagem ao redor e se concentra em seu country-folk, mais Adam se prepara para uma sensível hora da despedida.

1 Comentário para "Os melhores discos internacionais de 2014"

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