Paul McCartney - New

Paul McCartney
New

Virgin

Lançamento: 15/10/13

A música pop vai e volta como um bumerangue. Durante quase toda década de sessenta, Paul McCartney lançou diversos desses bumerangues – essa influência toda que o faz, hoje, a maior figura viva da música popular. E foi após sua saída dos Beatles que Paul deixou de lançar bumerangues e passou apenas a recuperá-los. Não se engane ao pensar que isso significa que suas obras não foram mais relevantes e nem duvide da qualidade dos trabalhos de Paul na carreira solo ou com o Wings. McCartney, Ram, Band on the Run, Tug of War, Flaming Pie e Chaos And Creation In The Back são algumas peças da extensa obra de Paul pós-Beatles que se destacam pela qualidade isolada de sua carreira como um dos fab four. Ok, sabemos que é impossível e nem queremos desassociá-lo da maior banda que já existiu. Não precisamos disso. Basta saber que, ao longo de sua carreira após a década de 70, coletou os bumerangues que arremessou e que passaram na mão de outros artistas influenciados por ele e que, após isso, influenciaram nosso Sir também. Paul não trabalha por obrigação e nem para manter sua imagem em evidência – apenas produz por aquela fagulha que acende no íntimo do artista e que o impede de parar de criar.

Se no ano passado Kisses On The Bottom era a diversão de Paul, compondo pouco e retrabalhando jazz de outros compositores, nesse ano ele quis se mostrar novo. Não à toa que seu novo trabalho se chama New, pois as 12 faixas inéditas (mais umas bônus tracks) mostram o novo de um compositor que não faz nada mais do que coletar mais de suas influências que passaram por outros artistas e, agora remodeladas, ajudam a remoldar os padrões dele. É um processo de influenciar e ser novamente influenciado. Em New há o puro de McCartney também, e essas duas vertentes do compositor recebem a colaboração de quatro diferentes produtores que transformaram as canções de diferentes formas, ainda que gerando uma boa unidade ao fim. É essa particularidade que dá forma ao álbum e auxilia na apresentação do produto final, que ajuda a entender melhor essa história toda de bumerangue.

Produzindo a maioria das faixas e supervisionando, Giles Martin, filho de George Martin, fica responsável por “On My Way To Work” (talvez uma referência à “Two of Us”, na qual ele “ia para casa”), onde Paul fala de coisas triviais e o arranjo caprichado exerce bem sua função. Aliás, Martin faz seu trabalho, mas não transforma “suas” faixas em nada excepcional. “I Can Bet” e “Everybody Out There” podem passar despercebidas. Já “Appreciate” se mostra uma experiência totalmente desnecessária, um exagero ao trabalhar numa visão modernizada que não funciona com Paul. “Looking At Her”, que é uma de suas boas, consegue atualizar Paul sem fazer nenhuma caricatura.

Paul Epworth e Mark Ronson acertam mais. E acertam bem. Epworth não faz de “Road” nada fantástico, mas “Save Us” e “Queenie Eye” tem boa pegada e faz rock enérgico com capricho – lembrará a fase de Paul com o Wings e também diversas bandas britânicas contemporâneas. Já o fantástico Ronson só precisa de dois momentos para impressionar. “Alligator” é a melhor faixa do álbum – com seu tema sintetizado, é econômica e valoriza o ponto mais forte de McCartney, que é a composição. “New” também briga pelo posto, com sua beleza que permitiria que ela estivesse em algum trabalho do Beatles pós-66.

Ethan Johns aposta no básico e acústico. Apesar de “Hosanna” soar um pouco datada mesmo com toda sua beleza, “Early Days”, outro bom destaque do álbum, é linda de doer. Nos faz lembrar porque é tão bom ter Paul McCartney ainda lançando canções e porque esses materiais são ainda tão relevantes.

New é o melhor trabalho do artista desde Flaming Pie. O que o diferencia de outros bons trabalhos que vieram após o de 97 é a soma da qualidade das composições com seu trabalho de arranjo e produção que soa realmente nova e contemporânea. Fora os momentos de deslizes no exagero de modernizar a sonoridade, o todo funciona muito bem. Paul sempre terá bons bumerangues a recuperar, porém ainda são poucos a arremessar novamente – é que isso não parece tão relevante para ele, que, basicamente, inventou essa dinâmica.

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