Paul Weller – Sonik Kicks

Procure na internet, nas revistas e nas rádios e você não verá ninguém – absolutamente ninguém – deixando de laudear Sonik Kicks, décimo-primeiro álbum solo de Paul Weller, por ele ser uma tentativa de inovação em um momento que, para dezenas de outros artistas, seria a hora de relaxar. O disco fecha, extra-oficialmente, uma trilogia que começou com 22 Dreams (2008) e passou por Wake Up The Nation (2010), ambos discos em que Weller saiu de sua área de conforto (se é que ele jamais entrou) para tentar criar algo minimamente interessante, sempre com resultados acima da média. Sonik Kicks, como os outros, oscila entre o erro e o acerto, mas o saldo final é positivo.

Por todo o lado no disco, há barulhinhos, trucagens de estúdio, efeitos estranhos, jogos sonoros. O ouvinte raramente fica confortável. Em “Drifters”, por exemplo, a voz de Weller é reverberada e ecoada por cima de uma melodia oriental feita com violinos distorcidos. Há um baixo destacado do resto do áudio que às vezes parece fora de ritmo e um barulho de rádio-tentando-pegar-sintonia que vai e volta. E há bongôs batidos freneticamente e chimbaus massacrados sem dó. Mas ainda não chega perto de “Green”, uma bagunça com vocais robóticos e modulados jogados contra uma parede de guitarras alucinadas em reverb que só tem sua tênue coerência segurada pela bateria. É um caos, uma versão musicada para um pesadelo futurístico. E é a faixa que abre o álbum.

Essa experimentação sonora, que bebe muito do krautrock (influência admitida) de bandas como o Neu!, está presente pelo álbum inteiro, embora geralmente em doses menos cavalares. “Around The Lake”, por exemplo, tem uma melodia que lembra muito “You Cross My Path”, dos Charlatans, mas Weller troca o britpop pelo Bowie da fase Berlim, deixando o vocal sisudo e enchendo a música de nuances sonoras e efeitos.

São essas mesmas nuances que formam o lado negativo do álbum. Às vezes, Weller parece mais preocupado em inovar do que em fazer música, como faz parecer “Kling I Klang”, uma espécie de jazz carnavalesco que troca qualquer sutileza por uma espécie de ataque agressivo ao mundo dos vivos. “And I don’t care about the common wave / I’ll take my chances in the grave / There’s only one moment that matters now / I can’t undo what I don’t know how”, canta Weller, autêntico em cada sílaba, desdenhando da própria mortalidade.

O tema volta na última música, a desnecessária “Be Happy Children”, uma faixa bonita, mas melosa, em que Weller declara seu amor aos filhos e diz que estará sempre com eles, mesmo depois que morrer. A música tem a participação da esposa de Weller, Hannah, que também aparece em “Study In Blue”, um reggae embolado com jazz que desperdiça a beleza do duo vocal em uma melodia banal e excessivamente longa.

Felizmente, o disco é muito mais do que esses momentos dispensáveis. “The Dangerous Age” resgata os melhores momentos do Blur e adiciona um tanto de Peter Gabriel para compor uma faixa que é pegajosa e, no entanto, não lembra nada no pop atual. “Dragonfly”, a melhor do disco, tem um riff de base fantástico que, misturado ao piano e ao baixo, compõe uma melodia urgente e envolvente. Os barulhinhos krautrockianos, novamente adicionados à mistura, aqui funcionam às mil maravilhas, e o final instrumental, em que entra uma guitarra fazendo solo, melhora o que já estava excelente. Para completar o pacote, o clipe é sensacional.

Outros momentos em que a estranheza joga a favor de Weller são “When Your Garden’s Overgrown”, uma música britânica tradicional temperada com uma guitarra afundada em wah-wah, quase eletrônica, e “The Attic”, um doo-wop com violinos pimpões de fundo. “By The Waters”, a única música normal e facilmente classificável do disco (“classic rock”), destaca totalmente a voz de Weller, feita sobre uma melodia simples de violão e adornada com uma orquestra de cordas. E o que dizer de “Paper Chase”? Ela abre com uma guitarra grunge e vira uma balada belíssima, com o pianinho radioheadiano pontuando o vocal sóbrio de Weller até que, no final, ela cresce em um outro instrumental em que todas as manias novas de Weller – o krautrock, os violinos distorcidos, os sintetizadores, os ecos, os barulhinhos – dão as mãos e saem marchando. No auge da pira musical, quando você já está em Saturno viajando com a música, a faixa é seca e sumariamente cortada, porque o Paul Weller de Sonik Kicks não joga fácil. Pena que entra “Be Happy Children” depois, porque seria o final perfeito.

Graham Coxon (que toca guitarra em “The Attic” e “Dragonfly”) disse à revista Mojo que, ao trabalhar em Sonik Kicks, se sentia “um cachorro de três pernas perseguindo um rato”, porque não conseguia acompanhar Weller. Faz sentido: em 22 Dreams, havia uma faixa chamada “Why Walk When You Can Run”. Weller, 35 anos de carreira e 53 de vida nas costas, nega a si mesmo qualquer conforto de aposentadoria e permanece hiperativo, como um rato em fuga, mas com uma diferença essencial em relação aos seus similares: até hoje, não caiu em nenhuma armadilha.