Paulo Miklos - A Gente Mora No Agora

Paulo Miklos
A Gente Mora No Agora

DeckDisc

Lançamento: 11/08/2017

A pluralidade artística e cultural de Paulo Miklos já foi estampada em capas de discos e telas de cinema. Na sétima arte fez parte do elenco de filmes como “O Invasor” (Beto Brant), em 2001, e “Proibido Fumar” (Anna Muylaert), em 2009. Como membro dos Titãs lançou mais de 20 álbuns, incluindo os célebres e importantíssimos Cabeça Dinossauro (1986), Õ Blésq Blom (1989) e Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987). Paulo interpretou canções como “Bichos Escrotos” (1986) e “Diversão” (1987), além de “É Preciso Saber Viver” (1998), composta por Roberto e Erasmo, e que se tornou hit nacional na voz do músico. Durante os 34 anos como um dos frontman dos Titãs, lançou dois discos solo, Paulo Miklos (1994), composto e produzido por ele e Vou Ser Feliz e Já Volto (2001). Vinte e três anos depois é lançado seu terceiro trabalho sozinho e primeiro após a saída da banda, em 2016.

A Gente Mora no Agora foi produzido por Pupillo Oliveira, da Nação Zumbi,  teve direção musical do jornalista e pesquisador Marcus Preto e muitas participações, entre elas, Emicida, Dadi Carvalho, Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, Russo Passapusso (BaianaSystem), Tim Bernardes (O Terno), Mallu Magalhães e Nando Reis. Entre monstros da música brasileira e promissores artistas contemporâneos, Paulo apresenta um trabalho íntimo e verdadeiro, repleto de tristeza, alegria e tudo mais que faz rir e também chorar. É disso que trata “A Lei Desse Troço”, música escrita em parceria com o rapper Emicida e com arranjo de Letieres Leite, a qual fala que “Chorar é importante igual sorrir”, com uma levada de samba/quase samba-rock, presente também na alentadora “Vigia”, onde Russo Passapusso clama para que se fale mais de amor em sua letra, interpretada pelo ex-Titãs.

Tem mais amor em “Todo Grande Amor”, faixa musicada pelo Silva que fala de sentimento com um tom de racionalidade, já que afirma que “Todo grande amor é muito arriscado” e “Cada dia bom pode ser o último”. A letra não perde a esperança e termina afirmando que “Se depois de atravessar tempestades, amor forte e seguro no comando, então será pra toda vida”. Tem mais esperança em “Estou Pronto”, de autoria de Guilherme Arantes. Baladaça com piano, violino e muito recomeço amoroso, “ Estou vivo, estou pronto, estou amando de novo”. Há mais sentimentalismo na híbrida “Afeto Manifesto”, que mistura a força e despojamento do rap de Lurdez da Luz, autora da música, com a sensibilidade e doçura de Paulo, que entoa os versos “O nosso afeto é manifesto não adianta reprimir, sentimento tão honesto sei que vai resistir”.

O que ainda resiste é a amizade do músico com seu ex-colega de banda, Nando Reis, exposta na belíssima “Vou Te Encontrar”. Violão, voz, percussão leve e orquestração de fundo são a melodia para uma letra que fala sobre amor e ausência, “Olha, ainda estou aqui perto, nunca te esqueci”. Outro velho companheiro de banda que marca presença no disco é Arnaldo Antunes, na auto reflexão de “Deixar De Ser Alguém”, uma marchinha, meio frevo, com referências aos trabalhos solo de Arnaldo, com jogo de palavras e experimentação sonora. Não é à toa que essa seja a música mais destoante do álbum.

Um outro lado do novo disco de Paulo Miklos segue um viés mais político, presente em “País Elétrico”, música feita pelo Tremendão e que se relaciona um pouco com os Titãs dos anos 80.  Quem questiona “para quem polícia” tem coragem para aludir a “Um bosta sem noção, um nefasto cidadão”, reflexo de muita gente nos dias de hoje. O ritmo segue frenético no rock de “Samba Bomba”, parceria com Tim Bernardes. Música explosiva, com poucas pausas. Tim também aparece em “Eu Vou”, onde o jovem músico fala em sua composição, cantada por Paulo, sobre seu papel no mundo. “Vou experimentar, viver mais livre, leve e solto “.

Além de produzir o disco, Pupillo Oliveira é autor de “Risco Azul”. Canção triste, com um piano de base e violinos que acentuam a tristeza da música, tristeza essa que é “Simplesmente inútil controlar” e “Transborda” (dentro do peito). Indo para a bossa nova, “Não Posso Mais”, feita pela Mallu Magalhães, trata da  insegurança em uma relação, “Hoje eu admito tenho andado aflito, quero ser perfeito pra você”. A perfeição é alcançada em  “Princípio Ativo”, que tem parceria com a cantora Céu. A LINDÍSSIMA música tem certa influência astrológica, violão e voz, tímida percussão e um fundo com violinos e backing vocals agudos. Pura maestria.

Não é surpresa Paulo Miklos ter realizado um disco tão múltiplo e diverso, com referências ao samba, samba-rock, bossa nova, MPB, rock, rap. Não é surpresa o músico ter reunido várias gerações, de diferentes estilos, para a composição de seu mais novo trabalho. A qualidade musical de suas obras, independentemente de suas fases, seu envolvimento com outros artistas, e sua paixão em sempre se manter produzindo arte, seja ela musical ou audiovisual, já prometiam um álbum excelente, versátil e mantenedor de uma carreira impecável e admirável. Obrigado, Paulo!