Major Lazer - Peace Is The Mission

Major Lazer
Peace Is The Mission

Mad Decent

Lançamento: 29/05/15

Antes de qualquer análise mais aprofundada é preciso lembrar que Major Lazer também é Diplo. E Diplo é o DJ e produtor responsável por “atualizar” a sonoridade de diversas cantoras pop antes que Calvin Harris se transformasse na nova unanimidade do estilo – goste você ou não.  Dos artistas que pagaram pequenas fortunas por alguns beats do produtor inglês estão gigantes do entretenimento como Beyoncé, Madonna e Justin Bieber, todos eles buscando espaços de três minutos na pista de dança, e tempo de menos na memória coletiva. Tencionando ter um espaço onde pudesse dar vazão à sua obsessão pelo dance menos afeito à cartilha básica de efeitos eletrônicos, o Major Lazer – composto ao longo de seus cinco anos de existência por várias formações e diferentes colaboradores – surgiu como campo natural onde a mistura de influências mais remotas, como o dancehall, o trap e o fusion se uniriam num formato com menor capacidade de atingir grandes públicos, como os mercados mais habituados ao pop da Europa e América.

Aproveitando-se ainda do precedente aberto por Damon Albarn e seu Gorillaz, a identidade visual do Major Lazer ajudou a unir em uma única matriz as raízes africanas que se uniriam à outros estilos na formação do repertório do grupo e a imagem que ficaria cristalizada como referência da sonoridade ali explorada. É engraçado observar como a criação do projeto no debute Guns Don’t Kill People… Lazers Do (2009), ainda acompanhado pela outra força criativa em pé de igualdade com Diplo, o também inglês Switch, afasta-se do que parecem ser os novos objetivos traçados no novo Peace Is The Mission. Motivado principalmente pelo propósito de servir de trilha nas pistas, o registro reduz as grandes influências que pareciam ser a espinha dorsal da iniciativa a detalhes que permeiam faixas individuais e a participações mais específicas que sublinham subgêneros no registro.

A liberdade da obrigação de entender o ML como proposta onde os experimentalismos comandam os ritmos de pista conduz Diplo a um caminho muito mais pop, onde as participações de artistas regionais surgem para dar toques de soca e outras sonoridades que eram a gênese do projeto, e misturá-los a gêneros mais populares atualmente, como o tão detestado dubstep. “Blaze Up The Fire”, por exemplo usa o ritmo inerente à voz de Chronixx para lembrar que o eletrônico tem em sua base qualquer fundo reggae.  Das que mais competentemente conseguem apagar da memória os feitos anteriores do Major Lazer e trazer com efetividade um pop dançante sem grandes esquizofrenias estão a potencial hit “Light It Up”, ótimo reggaeton acompanhado por Nyla, e “Lean On” com participação de DJ Snake e da cantora MØ, numa roupagem divertida e relativamente envolvente – completo oposto da mediana “Powerful”, cantada em sussurros supostamente sexy de Ellie Goulding, que levou a sério demais sua presença na trilha sonora de Cinquenta Tons de Cinza.

Ironicamente, ao moderar a investigação de ritmos plurais no projeto, Diplo encontra uma forma de tornar o Major Lazer um produto internacional. Uma remontagem de “All My Love”, de Ariana Grande, por exemplo, ganha verniz caribenho, enquanto “Night Drivers” finalmente traz hip hop às influências. Apesar de, em sua maioria, conseguir erigir uma música com clara finalidade de atingir rádios e festivais de música de verão com algum frescor, escorrega em alguns momentos por introduzir beats fortes e bases forçadas demais que não casam com a totalidade de algumas faixas, caso de “Roll The Bass”, ótimo reggae estragado pela introdução de um EDM incômodo no refrão.

No fim das contas Peace Is The Mission (2015) pode não refletir os valores e sonoridades que Diplo parecia querer investigar em seu projeto paralelo. A world music passada em rolo compressor de balada – foco do Major Lazer inicialmente – podia não ser a embalagem mais purista de sonoridades como a música caribenha e jamaicana, mas sem dúvidas trazia em seu centro conteúdo para redefinir mixes de uma musicalidade que não costumava atingir públicos mais amplos, transformando tudo numa única salada dançante. O terceiro álbum do “coletivo” inverte ligeiramente objetivos: em vez de servir como válvula de escape da música eletrônica mais pasteurizada (pelo próprio Diplo), o intento agora é usar ritmos de música negra como evoluções e adereços da EDM. Isso transforma o Major Lazer numa empreitada menos interessante? Talvez. Depende da importância que o ouvinte dava às associações e a proximidade com a música analógica jamaicana traçados pelo grupo outrora, como nas irrepreensíveis “Playground” e “Watch Out For This”, de Free The Universe (2013).

Do ponto de vista da “intromissão” do eletrônico entre as sonoridades que compunham o leque da iniciativa, o flerte entre ambos não é exatamente uma novidade, tendo sido, inclusive, o motivo que levou Switch a se retirar do projeto. Não admitir que este é um disco de polimento claro e distinguível de outros álbuns de música eletrônica, entretanto, seria uma injustiça. Há nas misturas do Major Lazer um ineditismo que merece ser observado principalmente num subgênero que sofre de uma espécie de autorreferência contínua, como é a EDM. Beats agressivos e as estruturas reconhecíveis de sempre têm transformado a sonoridade num pacote pouco criativo e cheio de clichês que vão pouco a pouco se desgastando. A aproximação entre o principal material de trabalho do Diplo DJ e o projeto onde parece criar com mais liberdade traz refresco à música eletrônica mainstream e mesmo ao pop mais enlatado de cantoras como a própria Grande. No entanto, o custo é a inversão de papéis entre um projeto com bom potencial e uma sonoridade com pouco fôlego de inovação.

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