Pelican - Forever Becoming

Pelican
Forever Becoming

Southern Lord

Lançamento: 15/10/13

O Pelican escreveu o próprio nome no mapa do metal com seus dois primeiros discos, Australasia, de 2003, e The Fire In Our Throats Will Beckon the Thaw, de 2005. Neles, o quarteto de Chicago mostrava uma sonoridade que se encaixava bem no post-metal, lembrando uma versão mais grave e complexa do Explosions In The Sky, ou uma espécie de Isis instrumental. Mas a banda tinha também um aspecto orgânico e vivo que era bastante característico. Esse aspecto aparecia na forma como o baterista Larry Herweg oscilava os andamentos das músicas, e no fato de que pouquíssimas canções usavam overdubs, a maioria consistindo simplesmente das duas guitarras, baixo e bateria enveredando juntos pelas estruturas intricadas das faixas que a banda criava. Foi a exploração desse aspecto, em canções mais diretas e concisas, que fez com que o excelente City of Echoes fosse um divisor de águas para o grupo. Impactante, pesado e cheio de ideias diferentes e interessantes, foi o trabalho no qual o Pelican deixou de caber no post-metal e criou um estilo próprio. Seu sucessor, What We All Come To Need, foi muito mais o exercício de um estilo já consolidado que a selvagem exploração de City of Echoes, o que, apesar de sua qualidade, era um pouco decepcionante. Felizmente, em Forever Becoming, o Pelican parece recuperar a sede de novas ideias, unindo-a aos melhores aspectos do trabalho anterior.

As duas primeiras faixas já mostram que o alcance desse álbum é consideravelmente maior que o de seu homogêneo antecessor. A triste e curta “Terminal”, que abre o disco, é mais suave e breve que qualquer coisa de What We All Come To Need. “Deny The Absolute”, a faixa seguinte, é uma impetuosa sucessão de riffs carnudos, que segue determinadamente adiante sem nunca olhar pra trás, com andamento mais rápido do que qualquer faixa daquele disco. Não que esse álbum seja uma caixinha de surpresas como City of Echoes. As belas canções acústicas que a banda às vezes incluía em seus discos, como “Winds With Hands”, infelizmente parecem ter ficado definitivamente para trás, assim como as suaves oscilações de andamento da bateria de Herweg, que parece ter adotado de vez o metrônomo.

Faixas como “The Tundra” e “Vestiges”, com ritmos relativamente lentos (embora muito bem marcados e jamais arrastados) não são muito distantes do que se poderia esperar de canções mais tradicionais do grupo, ainda que talvez tenham uma tendência menor a se repetir e estejam mais propensas a sair pela tangente, indo de uma ideia musical para outra de forma coerente e quase digressiva. Essa forma de se construir as canções parece nos convidar a pensá-las como pequenas narrativas: “The Cliff”, por exemplo, é dividida em duas metades: a primeira é basicamente um conjunto de riffs intricados em 7/8, e a segunda, uma sequência de arpejos mais suaves em 4/4 – é fácil imaginar essas duas partes, respectivamente, como a árdua escalada de uma encosta íngreme e a contemplação da bela vista que se tem ao chegar no topo.

A sequência das músicas também parece que tenta nos induzir a criar uma história para o disco. A quarta faixa se chama “Immutable Dusk” (“ocaso imutável”), e a oitava e última se chama “Perpetual Dawn” (“madrugada perpétua”). Ambas são excelentes: a primeira começa com riffs bem graves e desemboca numa reflexão silenciosa lá pela metade, para depois recuperar lentamente todo seu peso; a outra, a mais longa do disco, com quase dez minutos, também possui uma seção mais tranquila no meio, e também retoma suas linhas pesadas de guitarra no final, mas tem um clima mais otimista que a outra, e encerra muito bem o álbum. Mas esse paralelismo entre as duas parece sugerir que o álbum seja composto por duas metades, a primeira das quais representaria o dia e a segunda, a noite. Essa característica “narrativa” compensa amplamente o fato de que o álbum tenha poucos riffs imediatamente memoráveis: sua qualidade vem muito mais de momentos e de climas legais do que de melodias grudentas.

Apesar de ter sido a primeira substituição na história do grupo, a saída do guitarrista Laurent Schroeder-Lebec, que foi substituído por Dallas Thomas, não parece ter afetado muito o som. A saída dele coincide com o fim de algumas tendências estilísticas da banda, como as faixas acústicas e a variação rítmica da cozinha, o que parece indicar que ele era responsável por promover essas ideias. Mas Thomas, que já vinha participando das turnês com os outros membros, se acomoda perfeitamente no lugar dele, trazendo linhas de guitarras que não ficam devendo nada às de Lebec. O intricado contraponto que ele e Trevor de Brauw (o outro guitarrista) tocam na metade de “Threnody” mostra como a escolha do substituto foi acertada.

Embora não seja o melhor trabalho do grupo, Forever Becoming faz jus ao próprio nome e mostra o Pelican como uma banda em constante mudança, diferente do que sugeria o ritmo estável de seu antecessor. Mesmo com a saída de um membro fundador, a banda consegue seguir adiante sem nenhuma turbulência e fazer um álbum que é melhor que o anterior em todas as frentes. Metal instrumental não é algo muito comum, e um disco nesse estilo que consiga conquistar e prender a atenção dos ouvintes, menos ainda. Por conta disso, o mérito do Pelican ao conseguir fazer isso é ainda maior.

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