Perfect Pussy - Say Yes To Love

Perfect Pussy
Say Yes To Love

Captured Tracks

Lançamento: 18/03/14

Say Yes to Love, o disco de estreia do Perfect Pussy, tem 23 minutos. Ao todo, uns quatro desses são momentos bastante silenciosos, cheios de tensão, nos quais se ouve apenas um ruído que parece ser o de um projetor rodando. Nos outros 19, porém, os alto-falantes cospem um punk rock próximo do hardcore cheio de distorção, resultando em algo como o que o Sonic Youth soaria ligado na tomada 220v. Guitarra, bateria e um baixo meio discreto, enterrados no meio de um lamaçal de ruído, se movem com agilidade pelas estruturas estranhas das composições.

I Have Lost All Desire For Feeling, a demo que o grupo lançou no ano passado, já levava a suspeitar esse ataque sônico do quinteto de Syracuse, mas o debute da banda consegue ser ainda mais agressivo, e lima boa parte dos traços de melodia que aquele primeiro trabalho continha. O disco é dividido em oito faixas, mas é o som geral do álbum que impacta, mais do que momentos específicos – embora haja alguns memoráveis, como a caótica “Bells”, os belos acordes que aparecem do nada em “Big Stars”, a relativamente mais tranquila “Interference Fits” e a ótima conclusão do álbum. A coluna dorsal do grupo, no entanto, que dá coesão ao trabalho e reveste-o com uma camada vital de emoção e envolvimento, é a voz explosiva da cantora Meredith Graves. Uma das vozes femininas mais marcantes que já ouvi numa banda desse estilo, ela passa o disco inteiro em cima da linha tênue que separa cantar de berrar, resultando num som extremamente potente e energético, que dá a impressão de que ela está cantando enquanto trava uma luta de facas com cinco oponentes ao mesmo tempo.

Apesar de raramente aliviar os ouvidos, a banda ainda consegue trabalhar um pouco as diferenças de dinâmicas ao longo da audição. A maioria das faixas termina em dois minutos, e algumas não chegam nem a isso, o que dá ao álbum uma sensação de urgência impressionante, mas ao mesmo tempo impede que eles desenvolvam adequadamente cada ideia. A já citada “Interference Fits” é colocada estrategicamente após oito minutos de barulheira quase ininterrupta, e por mais que ela mesma seja bem ruidosa, ela dá uma importante variada no ritmo do álbum, que é, sem dúvida, curto demais somente com 23 minutos, mas pelo menos ele não dá nem tempo de cansar – o que certamente aconteceria se ele fosse mais longo e não trouxesse nenhuma mudança considerável.

“Advance Upon The Real”, com cinco minutos, dá a impressão de que vai ser a mais incansável das canções, mas ela própria nem bem chega aos dois minutos: o resto do tempo é composto por aquele barulho de projetor rodando. Seria chato ouvir isso durante três minutos, não fosse o fato de que ela não é a última canção, e você, sabendo disso, fica o tempo todo esperando a guitarra socar sua orelha com um acorde distorcido, o que torna a experiência bastante tensa. Mas isso não acontece.

O tecladista Shaun Sutkus, que tinha uma presença melódica considerável na demo da banda, praticamente não aparece aqui. Por isso, é ainda mais surpreendente o momento quando, no começo da “VII”, faixa final, alguns sons de sintetizador analógico começam a aparecer. Se o álbum até então era rock barulhento, “VII” é só barulho: uma enxurrada de ruído eletrônico no meio da qual seria possível perder uma explosão, e em cima da qual Graves praticamente declama uma letra impossível de entender.

Ouvir Say Yes To Love é uma experiência quase tão física quanto musical. O som ruidoso marca muito mais que essa ou aquela faixa. Quando o álbum acaba, a sensação é de estupefação. O que vem à cabeça é algo do tipo “que porra foi essa que eu ouvi?” – além da vontade de ouvir de novo.

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