Phillip Long - Gratitude

Phillip Long
Gratitude

Independente

Lançamento: 07/13

Phillip Long é um operário. Um funcionário da música. Trabalha com a regularidade de quem possui CLT assinada e bate o cartão. Num período menor do que três anos, o paulista de Araras lançou seis álbuns. Mesmo que a informação para nossa geração chegue em maior quantidade e seja digerida com mais facilidade e velocidade, ainda é um número impressionante de lançamentos – veja bem: são seis LP’s e não EP’s (se é que ainda conseguimos diferenciar isso com tanta facilidade). Gratitude, lançado há um mês, é o sexto trabalho dessa sequência voraz, e retoma o inglês como idioma natural das obras de Phillip, após seu breve intervalo com o ótimo lançamento Sobre Estar Vivo, que apostava (e bem) no nosso português. O folk volta à sua linguagem original e o artista caminha naturalmente por aí, pois conhece bem o ambiente – aliás, Phillip o domina.

Gratitude repete a fórmula nos formatos das canções que ele sugere quase desde seu primeiro lançamento. As canções límpidas e cheias de detalhes em cordas só vêm sendo apuradas com o tempo: cada vez mais sensíveis, casaram muito bem com a temática mais apaixonada que domina grande parte das faixas. Long conversa com sua paixão feminina, conversa com a imagem criada de Deus, e conversa com Tom Zé lá pela última faixa, falando sobre o caso do comercial de refrigerante – caso que inclusive levou o próprio Tom Zé a compor – e quase não sobra mais nada para ser dito, mas Phillip arranja uma nova forma de dizer. Ainda que ele repita temas – e não parece se importar com isso – ele é capaz de criar novas soluções com seu lirismo, deixando um rastro de boas canções que funcionariam muito bem sozinhas também.

Aliás, esse poder “single” de suas composições é o que parece criar a possibilidade de um futuro mais próspero para o artista, onde podemos imaginar que, em algum momento, uma dessas faixas fará parte de trilhas sonoras do cinema, irá atingir uma jovem cabeça que enxergará um espelho na escrita de Long, irá conquistar o ouvinte por um momento especial em algum show, ou irá até fazer parte de um comercial para TV também. Por que não? Phillip parece disposto e preparado para tudo isso.

É sempre importante lembrar que Phillip Long não pega no batente sozinho – e nem falo das diversas participações especiais de Gratitude, que conta com Scott Thunes (baixista que trabalhou com Frank Zappa), em duas faixas e Maria Eliza, Phill Veras e Laura Wrona participando nos vocais de diferentes músicas. O artista complementar do disco, que dá forma e brilho às canções, e cria o corpo da obra é Eduardo Kusdra, que compõe e constrói cada arranjo, ficando responsável pela produção impecável do álbum. O trabalho é feito em parceria e um artista é dependente do outro, deixando a poesia se confundir com engenharia, e construção se enroscar com versos.

Há uma opção tomada por essa dupla (ou talvez exclusivamente por aquele que assina a obra) que me faz enxergar talvez o motivo do único ponto que me faz questionar a qualidade do disco, que é a repetição de fórmulas arrastada através de todos seus trabalhos. A opção é a de gravar e publicar toda canção composta por Long. Ao mesmo tempo que isso impressiona, afinal é deveras relevante o artista acertar tanto a mão ininterruptamente, deixa uma sensação de que um filtro evitaria o encaixe de algumas peças menos promissoras, tornando assim obrigatório o exercício do compositor para buscar novas soluções melódicas para o encaixe de sua tão valorizada poesia. Não dizia outro poeta que “o homem é o exercício que faz”?

Mas se Phillip não procura desafio nesse instante e sim desenvolver, Gratitude é o retrato perfeito de seu trabalho. O disco flui de maneira regular e de fácil compreensão. A sensação é até de imersão ao universo mais rural e simplista, te colocando a par do ambiente de cada verso e acorde. Assim, não cria-se risco algum e você pode adorar absorver momentos como “Grace”, “Woke Up This Morning”, “Far On A Distant Field”, “Trapezist”e “Want Someone To Remember Me”, que marcam como grandes momentos do álbum.

Ainda que esperemos ver Phillip Long caminhando por novas estradas e buscando degraus mais altos nessa sua escalada, mesmo que esses degraus pareçam mais irregulares inicialmente, é curioso e de grande apreço ver sua dedicação intensa sincera ao seu ofício. Por enquanto, a esteira de trabalho sugere uma única peça explorada de diversas formas. Mas a música é um produto tão bom e Phillip Long um funcionário tão competente, que aguardamos com calma suas próximas aventuras – e com uma ótima trilha para apreciar.

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  • “O disco flui de maneira regular e de fácil compreensão. A sensação é até de imersão ao universo mais rural e simplista, te colocando a par do ambiente de cada verso e acorde.” Verdade pura.

    O disco desce tão bem quanto um bom whisky. As músicas são macias. Diversas vezes me vi abrindo um sorriso de orelha a orelha quando encontrei em algumas canções uma paz e uma ligação muito gostosa com o que vivo atualmente. Me sinto bem pela suavidade e serenidade de Grace, Want Someone to Remember e Trapezist. Aliás, em Want Someone, as vozes do Phillip e do Phill Veras casam-se de maneira tão boa que num primeiro momento não soube distiguir uma da outra.

    Grande obra! Dá orgulho ouvir esse álbum.

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