Poly Styrene – Generation Indigo

Hoje faz um mês que o mundo perdeu Poly Styrene para o câncer, aos 53 anos. Uma das pioneiras do punk mundial, Poly era solenemente ignorada mundo afora em comparação com suas contemporâneas mais famosas. Uma grande injustiça, já que Poly era uma artista real e uma das pessoas que mais poderiam se orgulhar de ostentar a palavra “punk’ em sua biografia. Antes de partir, Poly deixou um último trabalho, Generation Indigo, lançado semanas antes de sua morte.

Poly era a versão real (mas com saias) de qualquer moleque que pega numa guitarra e sonha em ser famoso. Após passar um tempo fugida de casa, ela viu um show dos Sex Pistols e decidiu que queria aquilo para si. Publicou um anúncio no jornal convocando outros músicos e formou sua banda, a X-Ray Spex. O grupo tocava um punk revoltado, como os Sex Pistols, mas com a diferença de que tinha um saxofonista – o instrumento, aliás, era colocado em destaque em todas as músicas.

O mais famoso single do X-Ray Spex é “Oh Bondage, Up Yours”, em que Poly surge com o célebre verso: “”Some people think little girls should be seen and not heard, but I say OH BONDAGE, UP YOURS!” (algo como “enfie essa idéia de servidão no rabo”). Poly, além de mulher, era baixinha, negra, fashionista brega, bipolar e tinha aparelho nos dentes (sua marca registrada). Em um cenário punk que contava com as curvas de Debbie Harry e o charme de Siouxsie Soux, ela era uma outsider entre os outsiders.

O X-Ray Spex acabou, voltou, acabou de novo, voltou de novo, mas nunca vingou de vez. A carreira solo de Poly só engrenou nos anos 00, quando ela lançou Flower Aeroplane em 2004 e, agora, Generation Indigo.

O disco pode ser facilmente classificado como o melhor lançamento ignorado do ano. Poly Styrene abraça a disco music e emula todas as artistas femininas que ajudou a criar, como Ladytron (“I Luv Ur Sneakers”), Kylie Minogue (“Kitsch”), Goldfrapp (“Ghoulish”), CSS (“L.U.V.”), Gwen Stefani (“Code Pink Dub”), etc.

O resultado, sem tirar nem pôr, é o álbum que Madonna tenta desesperadamente fazer há uns quinze anos. Enquanto Madonna apela para o ABBA e para o Timbaland, sempre com resultados sofríveis, Styrene mostra que sabe fazer hip-hop dançante e com suingue sem soar forçada (“Generation Indigo”), brinca com o ska (“No Rockefeller”) e consegue criar o pop perfeito (“Virtual Boyfriend”). Isso sem falar que Poly realmente foi atropelada por um caminhão de incêndio, e a Madonna só parece que foi.

A qualidade vem do fato de que Poly sempre foi legítima, e não um produto de seu tempo. Se Generation Indigo soa comercial, com todas essas referências saltando ao ouvido e com letras que citam MySpace, Blackberry, namorados e bitches querendo roubá-los, é porque Poly soube absorver tudo ao seu redor e reciclar em um produto fresco e original – a verdadeira dinâmica da cultura pop. Por que Poly consegue e outras, não? Porque Poly era punk e ditava tendências em vez de segui-las.

Poly encerra seu último disco com uma balada a capella, “Electric Blue Monsoon”, que mostra, sem necessidade de virtuosismo, o quanto ela era uma grande cantora e o quanto sua voz era poderosa, algo que nunca pôde ser explorado no punk gritado do X-Ray Spex. Nos versos da música, Poly olha sem medo para o fim:

As I gaze into the powder blue sky
I have a question in my mind’s eye
Is that an angel in heaven above?

Espero que seja, sim, Poly. E espero que você esteja bem aí em cima com ele.

  • Onipresente do Weekend

    sim!