Primal Scream leva fãs às lágrimas e Boogarins ganha destaque em apresentação

Primal Scream. Foto: Fabricio Vianna/Balaclava

O público começava chegar aos poucos enquanto os portões do Tropical Butantã se abriam pontualmente às 19h. A maior parte dos fãs que conversava empolgada enquanto esperava na frente da casa de shows não era nem nascida quando Screamadelica, o seminal álbum divisor de águas do Primal Scream foi lançado em 1991. Isso mostra a força e a atemporalidade da banda.

Aos goianos do Boogarins foi dada a missão de abrir o show. Subindo ao palco alguns minutos depois das 20h com um sample que misturava a famosa música da linha de chegada da Fórmula 1 – eternamente associada ao Ayrton Senna – e Racionais, o quarteto apresentou um setlist recheado de echo, delay e modulações que mesclava alguns sucessos e faixas do último disco da banda, Lá Vem a Morte, lançado em 2017. O característico som psicodélico da banda parece um herdeiro legítimo do som do Primal Scream, especialmente dos discos lançado na década de 90 e começo dos anos 2000.

Seguindo fielmente o ditado de que “o show tem que continuar”, a banda não parou de tocar nem mesmo quando um problema técnico cortou o som da guitarra do vocalista Dinho. Após pouco mais de uma hora de show, o Boogarins saiu do palco com a sensação de dever cumprido ao ver que a plateia estava aquecida para o que viria a seguir.

Dinho, vocalista do Boogarins. Foto: Fabricio Vianna/Balaclava

Para os fãs nostálgicos de uma época não vivida, o Primal Scream deu uma pequena amostra da efervescente cena inglesa que misturava as guitarras do rock, elementos da música eletrônica como o acid house e experimentalismo nas décadas de 80 e 90. Verdade seja dita, não foi apenas o álbum Screamadelica que que manteve seu frescor e vitalidade nesses mais de 25 anos desde seu lançamento, o vocalista Bobby Gillespie ainda mantém sua pose de estrela do rock blasé, o longo cabelo preto que começa a apresentar os primeiros fios grisalhos apenas agora e o olhar de quem acabou de sair cambaleando de um algum clube londrino cheio de fumaça.

O Primal Scream subiu ao palco sem muita interação com o público e demorou um pouco para engatar. A banda iniciou o show com “Slip Inside this House”, cover dos heróis psicodélicos do 13th Floor Elevators, e logo em seguida foi para o rock cheio de guitarras de “Jailbird”, do álbum Give Out But Don’t Give Up. As três músicas seguintes eram mais eletrônicas e menos roqueiras, e deram espaço para os discos menos cultuados da banda, “Cant Go Back”, “Shoot Speed/Kill Light” e a sugestiva “Kill All Hippies”.

O setlist contou com apenas duas músicas de Chaosmosis, último álbum da banda, “100% or Nothing” e a animada “Trippin on Your Love”, que fez os fãs pularem, mas nada comparado à recepção do público quando a banda tocou as lisérgicas “Higher than the Sun” e “Loaded”. A animada “Country Girl”, única faixa de Riot City Blue foi prolongada enquanto Gillespie interagia com o público, e o clássico à la The Rolling Stones de “Rocks” encerrou o setlist.

Primal Scream e a casa cheia no Tropical Butantã para a noite da Balaclava Records. Foto: Fabricio Vianna/Balaclava

De volta ao palco para o bis, a banda começou com a melancólica “I’m Losing More than I’ll Ever Have” e fez todo mundo acreditar -mesmo que por pouco tempo- que é possível nos manter unidos e alcançar a paz enquanto a platéia cantava “Come Together” com os punhos fechados levantados. O hit “Movin’ On Up” com base e vocais com toque de gospel encerrou a noite.

Como nem tudo é perfeito, é preciso dizer que o som do Primal Scream perde grande parte de sua sonoridade característica quando não é apresentada com uma banda completa e backing vocals. A banda se apresentou como um quarteto, com Andrew Innes como único guitarrista – se virando muito bem -, Darrin Mooney na bateria e Martin Duffy nos teclados. A baixista Simone Butler ficou doente e não pôde vir ao Brasil. Apesar do desfalque e da idade, o Primal Scream soube conduzir o show com maestria, levando homens e mulheres de cabelos brancos às lágrimas. Mais de trinta anos de carreira e a banda continua tão alta quanto o sol, e que permaneça assim pelos próximos trinta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *