Primeiro dia de SWU: Estrada de terra, bucolismo e a fúria do Rage Against The Machine

9 de outubro, primeiro dia de SWU, também pode ficar marcado como a primeira oportunidade que as gerações mais recentes tiveram de presenciar um festival “de verdade”, daqueles dos grandes – dizem, não posso afirmar por ter nascido tarde demais, que o Starts With You (lembra que esse é o nome original?) só se equipara ao Rock In Rio em questão de tamanho no Brasil.

É fácil perceber que o SWU é realmente um monstro, como já dava pra dizer assistindo ao preview da visão área do lugar. A Fazenda Maeda (Arena Maeda, Pousada Maeda ou Pesqueiro Maeda são os mesmos lugares, vale dizer) é, provavelmente, o maior campo aberto que eu já vi na vida. A estradinha de terra de 3km que conecta a rodovia principal ao lugar é genial: não facilita a locomoção, verdade, mas serve pra dar um baita choque de ambiente, principalmente pra quem tinha São Paulo como ponto de partida – de repente, a poluição do dia-a-dia e a correria da Avenida Paulista viraram plantações de eucalipto (logo na entrada você dá de cara com a Eucatex, do Maluf), gramados infinitos e árvores que vão até sabe-se-lá-onde.

Se todo esse verde deixa o evento com a mesma cara do Woodstock? Não, não deixa. Mais uma vez, não posso usar a minha memória para descrever as diferenças, mas os registros falam por mim: pra entender a vibe, vale pegar um Aconteceu em Woodstock ou o próprio Woodstock e sacar o abismo que existe entre a geração paz e amor e os tempos atuais. Quem ficava tentando travar uma competição entre o SWU e o Planeta Terra também saiu perdendo: a pegada aqui é mais abrangente, popular e bem mais intensa, enquanto o Terra aposta em mais conforto e “tendência”, com o perdão da palavra. No final das contas, todo mundo sai ganhando.

Na recepção, a organização não falhou só uma vez. O staff terceirizado, que erra quase em todos os eventos, não sabia orientar bem quais entradas as pessoas deveriam pegar para entrar nas diferentes áreas. Péssima qualidade na hora de informar, mas a educação dos funcionários funcionava bem – eu, pelo menos, fui super bem tratado e só ouvi relatos de pessoas que também receberam tratamentos bem simpáticos. Ponto positivo.

O climão de festival ficava estampado na cara de todo mundo logo na primeira tour pela Maeda. Os dois palcos principais, Ar e Água, ficam mais próximos da entrada, o Oi Novo Som fica quase no final do espaço e a tendona verde da Heineken é ponto obrigatório, bem no meio do caminho. Se você pretende passar por lá nos próximos dias (ou voltar no ano que vem, de repente), é bom botar na cabeça de uma vez que não se anda pouco, principalmente quem tem que recorrer aos estacionamentos ou ao camping no final da noite. O passeio fica mais leve com os passatempos que aparecem no caminho, mesmo não sendo tão acessíveis – a roda gigante e o paredão de escalada, as coisas mais legais de lá depois dos palcos, tinham filas enormes.

Também vale preparar um mantra pra encarar filas com bom humor. A Ana observou bem, inclusive: “Ir no banheiro, comprar bebida, comida… Não se gasta menos de 40 minutos pra fazer qualquer coisa aqui”. A dinâmica tradicional dos 1001 caixas não funcionou, como sempre – quem quisesse comprar cerveja tinha que passar por três: o das fichas, o para conseguir uma pulseirinha de maior de 18 anos e o terceiro para pegar a bebida, finalmente.

O barulho sobre sustentabilidade não foi tão grande quanto na web. Pela primeira vez, não senti que estavam tentando empurrar um papo sobre ecologia pela garganta de todo o mundo – quem quisesse ter informação sobre reciclagem, energia e tudo o mais, poderia procurar uma das tendas ecologicamente corretas e se informar melhor, por livre e espontânea vontade.

A agendinha de “Shows Que Eu Quero Ver” só funciona pra quem tem muita disciplina. Ao mesmo tempo em que é bom saber que você tem várias opções de shows para assistir (Los Hermanos, Apples In Stereo e MSTRKRFT tocaram ao mesmo tempo em palcos diferentes), também é legal poder contar com um relevo confortável no meio do gramado pra descansar. Dos 13 shows que eu pretendia ver, nem que fosse por um tempinho, só consegui pegar cinco – e com um puta frio no nariz:

* Um pedacinho do The Twelves, que recebeu gritinhos durante um remix de Phoenix;

* Mallu Magalhães, muito mais articulada do que era há dois anos, trocando frases com os fãs, fazendo piadinhas e complementando o setlist (boa parte formado pelas músicas do segundo disco) com um cover de Billie Holliday;

* Mutantes, com Sérgio Dias já na flor da idade e mostrando a nova vocalista, Mara Maravilha Bia Mendes;

* Los Hermanos, emocionando, sendo recebidos com calor pelo público e mais bem humorados do que no último show que fizeram, em 2009;

* E, fechando a noite, o COMPLETAMENTE INSANO Rage Against the Machine, que deixou todo mundo de queixo caído com o poder de controle sobre o público, mesmo com várias dificuldades técnicas. O som da banda foi desligado duas vezes por um bom intervalo de tempo, mas Zach de la Rocha e cia. não deixaram nenhuma música pela metade. Depois da segunda falha, quando muita gente achou que eles desistiriam do show, a banda voltou ao palco e improvisaram uma jam para testar o som. Incitadas pelo próprio Tom Morello a invadir a pista premium, as pessoas da pista comum tentavam entrar na área mais cara várias vezes – e, inclusive, vi dois caras conseguindo o que queriam. A confusão foi tanta que a barricada do fosso dos fotógrafos quase cedeu. Foi nessa altura que o show parou mais uma vez, agora com a produção pedindo para todo mundo dar três passos pra trás – “Ou isso ou não tem mais show”, disse uma voz no microfone que tentava impedir que a barricada fosse abaixo. A banda manteve a postura e ainda voltou pro bis, fechado com o mega supreme hit “Killing In The Name”, que a Globo comeu na transmissão pela TV.

Daí ainda teve o show do Brothers of Brazil, logo no início, que eu vi porque eu era muito fã do Supla na pré-adolescência por inércia. Os caras até mandaram bem num cover de “Folsom Prison Blues”, do Johnny Cash (e aí teve a parte vergonha alheia, com uma versão de Lady Gaga, e a etapa nostalgia com “Japa Girl” e “Garota de Berlim”). HEH

Já estamos na Maeda pro segundo dia de festival, com Kings of Leon, Sublime with Rome, Joss Stone, Regina Spektor e os brasileiros Otto, Tulipa Ruiz e Volver, além de uma porrada de outros. Pra acompanhar isso e todo o resto, na medida do possível, cola no @movethatjukebox e fica de olho.

11 Comentários para "Primeiro dia de SWU: Estrada de terra, bucolismo e a fúria do Rage Against The Machine"

  1. que ridícula a primeira foto: festival que paga de ambientalista com todo mundo chegando de carro… sem falar no 4×4-bebedor-de-derivados-de-petróleo à esquerda. no mínimo um paradoxo; no intermezzo uma irônia. no máximo: falso eticiscmo ambiental. mas aposto que todo mundo disse que votava na marina silva e era vegan.

  2. Tava vendo aqui no youtube a killing in the name of e vi uma estrela vermelha gigante, será que a globo cortou essa música pq a estrela lembraria o PT? haahah

  3. seguinte, o show do MARS VOLTA foi tão ruim assim ou o indivíduo genial que relatou o 1º dia estava na fila pra dar uma bela cagada e não viu a apresentação? Se for a 2ª opção, cagou em dobro

  4. não vi ninguém comentando, mas a grade da pista VIP do meu lado não existia mais depois da primeira música do RATM. A grade lateral veio abaixo na primeira música e não apareceu ninguém para colocá-la de pé. Assisti em pé em cima da grade caída, numa visão privilegiada do palco. E quem quisesse entrar na área VIP tava liberado por ali. OU seja, o incentivo do Tom Morello não foi totalmente em vão!

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