Quarto Negro – Desconocidos

Se Desconocidos, o debut da banda paulistana Quarto Negro, precisasse ser descrito em uma palavra, ela provavelmente seria alguma que pudesse englobar o quão pretensioso o trabalho é. Caracterizar o álbum de tal forma, no entanto, não é ruim. Principalmente no caso do Quarto Negro, que busca sempre afirmar que um dos desejos da banda é sobreviver de música e deixar um nome na história. Assim, Desconocidos não chega de forma discreta. O álbum é o primeiro da banda, depois de alguns EPs – entre eles Bom Dia, Lua, que foi eleito o segundo melhor lançamento nacional de 2010 pelo site da MTV.

Ele é introduzido pela faixa “Luz”, que já dá o tom do que virá pela frente. Em pouco menos de dois minutos e meio, Eduardo Praça (guitarrista e vocalista, que havia tocado no extinto Ludovic) canta que jura que um dia irá mudar. Desconocidos em si é resultado de mudanças. Os integrantes afirmaram que largaram a vida convencional que levavam, com trabalho na “firma”, para se dedicar à banda – outro forte argumento a favor da pretensão do álbum, que, assim, surge quase como uma necessidade de tentar se garantir entre os principais nomes do rock alternativo brasileiro.

A gravação do LP aconteceu em Barcelona, no estúdio El Tostadero, que tem uma parceria com a Daruma Records. O selo será responsável pela distribuição do trabalho na Europa e nos Estados Unidos. Apesar de algumas músicas começadas no Brasil, todas foram finalizadas na cidade espanhola, algumas contando com mais e outras com menos alterações no material levado. Apesar da mudança de ares no processo de criação e gravação, o álbum não soa esquizofrênico, como poderia acontecer.

A escolha de gravar no exterior veio de uma vontade de fugir do dia a dia. Inicialmente com a ideia de gravar em outra cidade, mesmo que no Brasil, o plano aumentou e Barcelona acabou sendo a escolhida. Entre as motivações para ir gravar no exterior estão a busca por uma sonoridade própria e o distanciamento da vida que vinha mudando com rapidez.

Aparentemente, o resultado atende perfeitamente à ideia inicial da banda. Desconocidos faz o que poucos álbuns de rock e poucas bandas nacionais tem sido capazes de fazer: soar original. A banda foge da herança eterna deixada pelo Los Hermanos e as incontáveis tentativas – na maioria das vezes frustradas – das novas bandas em soar como os cariocas soaram há alguns anos. Por outro lado, o Quarto Negro também escapa das influências óbvias gringas.

O clima das faixas, de forma geral, pesa mais para a melancolia. Não que isso signifique letras falando sobre o fim de um amor ou coisa parecida. Muito pelo contrário. Com palavras bem inspiradas, tudo é colocado de forma mais subliminar ali. Musicalmente, o álbum segue a mesma linha. Os pianos de Thiago Klein dão um ar bem mais pesado para as músicas, enquanto que a guitarra solo tem um papel fundamental em quase metade das faixas – com destaque para a primeira das Vesânias, que não seria a mesma sem a guitarra solo.

“Nosso Primeiro Divórcio” é outro destaque do trabalho. Vindo logo depois da faixa de abertura, ela pode soar como uma síntese – por mais que não seja tão sucinta assim, com mais de sete minutos – e traz tudo aquilo que virá no resto do álbum: as guitarras marcantes, a letra profunda – E foi aos 12 o meu primeiro divórcio/Fui com toda boa fé que a idade me cabia – e também as mudanças de ritmo que marcam o Desconocidos. A faixa “Vesânia II”, acompanhada da faixa final e que dá nome ao álbum, “Desconocidos”, fecham a lista de destaques do LP. Com ótimas músicas no início e no final do álbum, lá pelo meio ele sofre com algumas faixas menos consistentes, como é o caso de “Socorro” e “Llucmajor”.

Com o lançamento virtual em 2011, o final do ano foi marcado por uma pequena turnê por Buenos Aires. Agora, com o lançamento do álbum físico marcado para o início de 2012, assim como a chegada de alguns LPs que estão sendo prensados nos Estado Unidos, é natural que as apresentações da banda aumentem ao longo deste ano, complementando o trabalho de divulgação forte que aconteceu online, principalmente na página de Facebook deles.

O Quarto Negro é Eduardo Praça na guitarra e vocais, Thiago Klein nos teclados e Fabio Brazil no baixo. Nas apresentações ao vivo, a guitarra solo tem ficado por conta de Guri Assis Brasil, guitarrista do Pública, e a bateria com Leo Mattos, do Bicicletas de Atalaia.

  • João

    E quem é essa garota linda do clipe?!

  • 0 Observador

    Capa do disco: Selvagem? Os Paralamas do Sucesso!!