Quatro novos discos nacionais: três para amar e outro, nem tanto

A consistência que a música brasileira tem ganhado nos últimos anos, enfim, faz valer o impacto da internet e do quase infinito acesso a informações que ela proporciona. Parece que apenas recentemente os nossos artistas estão absorvendo toda essa carga de forma positiva e se desapegando dos vícios praticados na década anterior no cenário alternativo – onde tivemos momentos brilhantes de poucos, seguidos por centenas de reproduções mal inspiradas que soavam como cópia em sua maioria.

Abandonando o bairrismo sem deixar de soar brasileiro (se for essa a intenção), é fácil destacar novos e relevantes nomes que se preocupam com suas composições, seus arranjos, timbres e a produção do material final. De lançamentos ainda quentes, escolhemos três que seguem bem isso e lançam materiais altamente relevantes em 2015. Mas também aproveitamos para cutucar outro álbum bem longe dessa realidade.

Maglore – III

O Maglore é um exemplo ótimo de banda que enfim encontrou sua essência. Foi após uma mudança em sua formação, que agora se vira (e bem) em um power-trio, que os baianos conseguiram condensar sua sonoridade e concentrá-la em movimentos mais precisos. Não só pela gravação em fita de rolo ou pela estética da capa que o disco sugere um resgate, a sonoridade presente traz ares setentistas, e isso se deve ao bom encontro do rock com a música popular brasileira, que dá mais suingue e autenticidade. Teago Oliveira que já ensaiava essa saída do lugar comum em suas composições, ganha a parceria de Rodrigo Damati e força para explorar casualidades com crueza e letras com bom potencial.

Se for pra escolher uma pra começar, vá de “Se Você Fosse Minha”.

 

Dingo Bells – Maravilhas da Vida Moderna

Os anos 70 também é jogo jogado pelos gaúchos do Dingo Bells em seu trabalho de estreia, mas aqui muito disso se deve ao soul felizmente impregnado nos vocais e no balanço das canções, que vão desde influências claras de Tim Maia, como em “Funcionário do Mês”, à Clube de Esquina, como em “Fugiu do Dia”. Nos momentos mais pop e mais acessíveis que a banda brilha ainda mais, e isso acontece em “Eu vim passear” e “Olhos Fechados pro Azar”, principalmente. As letras sobre o cotidiano nas cidades grandes e o capricho impecável na produção cheia de detalhes, com espaços para ressoar o bom casamento de percussão e baixo, dão brilho ao álbum que se sustenta tranquilamente entre o melhores do ano até então.

“Eu Vim Passear” é a faixa que abre o álbum e a ideal para apresentar a banda.

 

Mahmed – Sobre a Vida em Comunidade

A banda de Natal lançou seu primeiro álbum e não precisou usar palavras em suas canções para que elas dissessem muito ao ouvinte e nem para que dessem o que falar. Chamando a atenção de uma boa parte do público encantada por post-rock ou não, fica evidente que é o clima do álbum que encanta. Os cenários criados na mente através dessa trilha sonora são de paisagens extensas e naturais, e isso agrada. O poder da produção também engrandece as composições – a reverberação e ambientação dos arranjos são sublimes, de forma que ao mesmo tempo que você viaja longe com as faixas, também consegue se sentir no centro da sala onde elas estão sendo gravadas e enxergar onde se posiciona cada instrumentista. A viagem é boa.

A banda escolheu “AaaaAAAaAaAaA” para o primeiro clipe. Boa pedida para conhecê-la.

 

Marcelo Perdido – Inverno

Parecendo muito mais sincero do que em sua estreia, Inverno é o segundo movimento da carreira de Marcelo Perdido. Mais uma vez, a arte de capa nos faz babar e, infelizmente, o conteúdo deixa também a desejar novamente. Eu esperava menos pressa do compositor. Mais cuidado, mais construção (mesmo que embasado na crueza), mais inspiração e mais carinho nas execuções, principalmente vocais. O que Marcelo fez foi um registro pessoal que talvez marque a vida dele mesmo, mas passa bem longe de ter fortes possibilidades de encantar o ouvinte.

Dá pra salvar uma? Sim, com “Cidade Pequena”.