Queens of the Stone Age - …Like Clockwork

Queens of the Stone Age
…Like Clockwork

Matador

Lançamento: 03/06/14

“Nós gostaríamos de tocar uma música nova para vocês. Tudo bem se nós tocarmos uma música nova? Ela se chama ‘My God is The Sun’.” Foi assim que a primeira música inédita do Queens of the Stone Age desde 2007 foi apresentada durante o Lollapalooza Brasil 2013. Um chocalho passou a soar de longe, enquanto os músicos trocavam alguns olhares. Foi então que entrou a guitarra. Rápida, mas sozinha, a princípio. Não demoraria até que a bateria entrasse violenta. A música era boa, muito boa. A frustração não poderia deixar de vir depois. Se tínhamos sido os primeiros a ouvir ao vivo uma das faixas de …Like Clockwork, por que não fomos apresentados a outras também? A resposta é quase óbvia ao ouvir o novo álbum de Josh Homme e companhia. Arriscar uma música inédita em um show não é fácil. A situação fica pior ainda quando o que pode ser mostrado soa consideravelmente novo, se comparado com toda a produção anterior de uma banda.

Ao longo de 17 anos, o QOTSA mostrou uma diversidade de sons, desde a crueza rápida que perdurou entre os dois primeiros discos — Queens of the Stone Age e Rated R —, passando pela sonoridade que beirava o metal, em Songs for the Deaf, e por momentos etéreos, com faixas carregadas no eco, como em Era Vulgaris. Ali, tudo soava distante e, para muitos, o QOTSA dos bons tempos havia se perdido e acabado.

Para confirmar isso, estava o fato de que a banda parou lá em 2007. Nada de novos álbuns, apenas uma série de trabalhos paralelos do incansável Josh Homme. Entre eles, a produção de um disco do Arctic Monkeys e a formação de uma das mais incríveis super-bandas que já se viu. Ao lado de John Paul Jones e Dave Ghrol, Homme gravou um disco e fez turnê com o Them Crooked Vultures.

É preciso concordar que não foi pouco trabalho. Por mais que ninguém quisesse admitir, faria sentido que o QOTSA tivesse acabado. Eles poderiam continuar fazendo alguns shows uma vez ou outra, mas era difícil esperar por um novo álbum inédito. Até que começaram a chegar notícias sobre aquele que seria o …Like Clockwork, o disco mais forte do Queens desde Songs for the Deaf. Provavelmente todo texto sobre o trabalho tenha feito referências sobre a experiência de quase morte de Josh Homme. Logo, não me alongarei nesse assunto.

Arrisco dizer que …Like Clockwork é o LP mais pesado de toda a carreira do QOTSA. Não na sonoridade. Songs for the Deaf é imbatível nesse quesito. No novo trabalho, no entanto, todo o peso das letras compensa com facilidade a gordurinha e o peso extra. O álbum mostra algumas faixas estranhas para uma banda como o QOTSA – “The Vampyre of Time and Memory” é uma delas. Leve e sofrida, ela conta com guitarra e solo que chora de um jeito que o grupo ainda não tinha feito antes. Por outro lado, a letra tem um peso que Homme ainda não tinha colocado. “I want god to come, and take me home”: o sentimento de estar desencaixado do que era uma certeza antes.

Outro bom exemplo do deslocamento sobre o qual as letras falam está em “If I Had a Tail”, uma das mais sensacionais de …Like Clockwork. Um gingado bacana e uma letra sobre estar obsoleto e sobre como fugir de coisas ruins comprando carros rápidos e anéis de diamante. Um sentimento que era presente em “I’m Designer”, de Era Vulgaris.

Como se a volta em grande estilo da própria banda não bastasse, ainda temos algumas participações históricas. A mais improvável é, certamente, Elton John, colocando um piano bem encaixado em “Fairweather Friends”. A mesma faixa, aliás, tem backing vocals de Nick Oliveri, ex-baixista da banda, que também aparece em “If I Had a Tail”. Outros grandes nomes também estão lá: Dave Ghrol gravou várias baterias do álbum, Mark Lanegan colaborou com vocais e algumas letras, assim como Alex Turner.

O time de colaboradores ajudou a dar uma hypada no álbum antes mesmo de que qualquer música fosse ouvida. Porém, o natural seria que depois de seis anos o próprio anúncio de um disco novo do QOTSA fosse o suficiente para animar muita gente. A banda é sem nenhuma dúvida um dos grandes nomes do rock atual. E …Like Clockwork serve “apenas” para afirmar isso. Mesmo sendo consideravelmente diferente do que já havia sido lançado pela banda — desde as novas sonoridades até letras sérias e carregadas — o Queens of the Stone Age mostra que, sim, ainda está bem vivo e é capaz de nos surpreender. Espero que não demore seis anos até isso acontecer mais um vez.

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  • Caio

    O que mais me encanta no disco é o quanto ele me incomoda. Fico naquilo de que parece e não parece QotSA.
    O disco ficou sensacional! E quanto mais ouço melhor ele fica.