Raveonettes no Sesc: distorções e simpatia ganham o público em show inspirado

Os Raveonettes são um dos grandes nomes do rock surgidos na década passada, misturando e refinando influências que vão de Jesus & Mary Chain a Johnny Cash em um rock rápido, barulhento e distorcido. As turnês mais antigas do grupo realmente promoviam uma verdadeira rave no palco, com as distorções e ruídos brancos aumentados a ponto de explodir as caixas sonoras.

Para o show no SESC Pompéia em São Paulo, na última sexta-feira, isso não se repetiu por dois motivos. Primeiro, o limite de altura que impedia o estouro do som (“we know there is a dB [decibel] level, so we’re not allowed to play REALLY loud”, disse Sune Rose Wagner) e, segundo, a escolha do setlist. Desde o lançamento do sombrio Lust Lust Lust, o The Raveonettes tem optado por um show menos histérico e mais psicológico, enchendo a apresentação com músicas lentas e não fazendo questão de incluir hits dançantes que, em outros tempos, seriam obrigatórios.

A princípio, isso poderia soar como auto-sabotagem, mas o fato é que os Raveonettes têm a manha de manter a platéia animada mesmo sem ter um setlist vibrante. Juntos, Sune e sua parceira Sharin Foo, mais o baterista Adrian Aurelius e o baixista Jens Hein, põem a Choperia do Sesc abaixo, neste que foi o primeiro show dos Raves em São Paulo e o primeiro da banda no Brasil desde 2005.

O show começa com “Attack Of The Ghost Riders” e “Veronica Fever”, a ótima dobradinha que abre o primeiro EP da banda, Whip It On. Segue “Let’s Rave On”, grande canção do primeiro disco, Chain Gang of Love, com seu ótimo riff de baixo e seu refrão contagiante. E aí entra o primeiro momento soturno, com “Bowels Of The Beast” e “Lust”. O hit “Dead Sound”, numa versão mais pesada que a de estúdio,com ótima performance de Adrian, põe a platéia para dançar de novo. E aí, mais introspecção com “Break Up Girls”, que começa com a dupla só tocando pandeirola, acompanhados de Jens na guitarra, e depois evolui para uma pedrada com instrumental completo, muita distorção e a platéia cantando junto.

“The Beat Dies” traz a instrospecção de volta, mas é por pouco tempo, porque logo entra “Heart of Stone”, ótimo híbrido de surf music e rockabilly do último álbum, In And Out of Control, com Sune sozinho no vocal principal. Depois disso, o amplificador do baixo dá problema. Não foi a única falha: durante outra música, da qual não me recordo, o microfone do bumbo da bateria caiu e ninguém da equipe do SESC se dispôs a arrumar. Sune parou de tocar guitarra para arrumar e até um fã subiu ao palco para tentar ajustar o aparelho.

Sorte que, na hora da falha do amplificador, a próxima música era “Little Animal”, do meigo refrão “my girl is a little animal / she always wants to fuck / I can’t find the reason why / I guess it’s just my luck”, que Sune manda sozinho na guitarra. Enquanto ele toca, o SESC conserta o problema.

Entra a curta “Oh! I Buried You Today”, também em momento intimista e, a partir daí, é só hit. A obrigatória “Love In A Trashcan” é acompanhada pela platéia animada e é seguida da melhor surpresa da noite: “Twilight”, clássico do segundo álbum, Pretty In Black, entra para fazer a nossa noite mais feliz. Além de ser uma música excelente e com um peso feroz ao vivo, a faixa surpreende porque não fazia parte do setlist atual da banda. Não é a insana versão de oito minutos que a banda tocava em sua melhor fase ao vivo (confira a apresentação no Roskilde 2005, bootleg obrigatório), mas anima, e muito. “Last Dance” completa o combo de hits cantáveis.

Aí vem “Blush” e “Aly Walk With Me” e o show volta à introspecção de novo, para acabar assim. Mas não demora nem dois minutos para que a banda volte ao palco e mande “Black Satin”, outra boa canção do Lust Lust Lust. O final do show é um presentaço: “That Great Love Sound”, hit maior do grupo, que vem sendo inconstante nos últimos shows. É a música cantada com mais força pela platéia, que vibra a cada distorcida que Sune dá em sua guitarra.

O show acaba e, cerca de meia hora depois, a banda surge do lado de fora da Choperia, socializando com os fãs. Distribuem autógrafos, tiram fotos e conversam com todos. Sune revela que tocaram “Twilight” porque um fã pediu no Facebook. Jens revela que a banda planeja ver o Pavement no Planeta Terra antes de ir embora. Adrian dá um selinho numa fã brasileira. Sharin, a mais gentil, autografa a palheta que peguei e é a que mais tempo fica do lado de fora do backstage. Todos visivelmente alterados, mas também visivelmente contentes pela recepção.

De lá, a banda seguiu para a balada Alberta #3, no bairro da República. E deixou para trás os poucos fãs (foram menos de 800 ingressos vendidos) que assistiram ao show e que, nessa hora, já nem lembravam da novela que foi para conseguir uma entrada. Vi o momento em que a banda, sem seguranças ou frescuras, saiu na garagem do SESC para entrar na van e ir embora. Gritei “we love you!”. Sune olhou para mim e respondeu: “and we love you”.

Mas nem precisava das declarações: a noite já havia provado que o sentimento era recíproco.

Fotos por Victor Bianchin.

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