Resenha: Coldplay marca passagem pelo Brasil com superprodução

A saga foi intensa para os jornalistas que compareceram na Apoteose nesse último domingo. Isso porque faltavam informações sobre a retirada de credencial no sambódromo: O staff, que tinha sua maior parte formada por terceirizados, não sabia dar as orientações necessárias. A reclamação seria boba, não fosse o ping-pong que fizeram comigo por quase uma hora – ao todo, atravessei o Sambódromo inteiro três vezes seguidas (um total de 2100 metros percorridos) até me encaminharem para o portão correto e, nessa rota, encontrei dois representantes de grandes veículos cariocas que também estavam perdidos e indignados.

Vanguart – Praça da Apoteose, 28 de fevereiro
Por Alex Correa

Ok, a raiva passou e houve tempo para recuperar as energias até o inicio – e durante – o show do Vanguart, que abriu a sequência de apresentações antes mesmo do sol se por. O setlist, que mesclou as músicas do homônimo de 2007 com faixas gravadas apenas no Registro Multishow, ainda teve direito a uma inédita que pegou o público de surpresa (“A Patinha da Garça”, “Colorful Thoughts of Existance”? Não sei dizer). Apesar da pouca empolgação do público, seus olhos não precisavam estar muito atentos para ver dúzias de pessoas remexendo o corpo e estalando os dedos – foram essas mesmas pessoas que mandaram sinais ainda maiores de aprovação quando os mato-grossenses apareceram com “Semáforo”, seu single mais popular.

Foto: Rodrigo Barreto

Se o folk rock dos Vangs não convenceu a maior parte dos presentes, Hélio Flanders, vocalista do grupo, ganhou o público com palavras. Dividindo o título de “coxinha do rock” com Chris Martin, que tomou o palco mais tarde, Flanders agradecia as milhares de pessoas que já haviam chegado, à produção e aproveitou o momento para incentivar novos artistas independentes, o que lhe rendeu palmas e ovações. Mas, ainda assim, muitos pareciam guardar suas energias para a maior atração da noite: O Coldplay.

Bat For Lashes – Estádio do Morumbi, 2 de março
Por Vitor Gonçalves

Antes de o quarteto inglês entrar em cena, Natasha Khan teve seu momento no palco assinando com o nome de Bat For Lashes – que, ao vivo, conta com três músicos de apoio, sendo que dois deles são mulheres. O projeto teve aproximadamente 30 minutos para mostrar o motivo de ter vindo ao Brasil e, durante esse tempo, se viu uma apresentação bem aplicada, mostrando toda a entrega que Natasha e sua banda expressam em suas canções. Iniciando com “Glass”, o público já pode sentir qual era a vibe da cantora, que poucos conheciam. E, pelo que se pôde perceber, a recepção não foi das mais empolgadas.

Foto: Rodrigo Barreto

O que acontece é que o tipo de som que o Bat For Lashes faz é uma coisa mais intimista, propício a ser executado em ambientes menores, onde há maior conexão entre o público e a cantora – clima muito comparado ao dos shows da mais irreverente Björk. Mesmo tocando seus singles mais radiofônicos como “What’s A Girl To Do”, “Pearl’s Dream” e a sempre ótima “Daniel”, Natasha não conseguiu levantar a galera. Porém, pelo menos, deixou bem claro que não é só um rostinho bonito, mas que tem talento e personalidade. Além desses singles, ainda foram ouvidas “Horse and I”, “Trophy” e “Prescilla”, as três do CD Fur and Gold, e “Siren Song”, linda música do Two Suns, seu álbum mais recente.

Agora o jeito é esperar a volta da cantora, num lugar mais adequado e com um público mais compatível com suas (incríveis) viagens artísticas.

Coldplay – Praça da Apoteose, 28 de fevereiro
Por Alex Correa – Fotos de Henrique Sauer

Com um atraso pouco relevante, o Coldplay subiu no palco a tempo de não deixar a energia do público (um total de 30 mil pessoas) ceder. Quando o show começou, boa parte dos espectadores já estava na Praça da Apoteose desde cerca de quatro horas. O inicio do espetáculo se anunciava com a valsa “O Danúbio Azul”, de Strauss, representando com vigor a classe que a apresentação atingiria nos próximos minutos. Ao final do ícone vienense, a banda emendou “Life In Technicolor”, canção instrumental com cara de boas vindas. De surpresa, a sequência inicial deixou o público extasiado: Ao passar de “Violet Hill”, single fraco do último disco do Coldplay, vieram “Clocks”, com raios de luzes passando por toda a Apoteose, “In My Place”, que teve seus refrões cantados a plenos pulmões pelos cariocas, e a fulgida “Yellow”, em que a manjada presença de balões de ar – as bexigas também apareceram nas turnês do grupo pelo Brasil em 2003 e 2007 – alegrou os fãs novamente.

Dessa vez, a cia. de Chris Martin não trouxe às terras tupiniquins sua maior estrutura: Na América Latina, foi o palco B do Coldplay que manteve o público entretido – o que, convenhamos, já foi zuper bacana. Ao todo, o palco contava com três setores: O maior, em que foi feito a maior parte do show; Um menor, à direita, em que um piano aguardava por Martin (nele foi executado um medley de mais dançantes “God Put a Smile Upon My Face” e “Talk”, além de uma nova versão de “The Hardest Part”, sem cordas ou bateria) e outro à esquerda, ainda menor e mais próximo ao público, em que o grupo teve a ousadia de aparecer com uma versão acústica de “Shiver”, hit que desceu por água abaixo pela falta dos acordes de guitarra. A localização do palco lateral fez com que boa parte do público tivesse de trocar de posição – na pista comum, as pessoas se voltavam para a esquerda; na vip, todos viraram para trás, proporcionando uma interatividade bem legal – e, por desleixo da produção, a inédita “Don Quixote” (“olê olê olé” consta nos refrões, cantados com gosto pela platéia), assim como a upbeat “Death Will Never Conquer”, estrelada pelo baterista da banda nos vocais, acabou sendo abafada pelo falatório do público (para quem estava nas arquibancadas, principalmente, o som estava baixo e impedia que os presentes se empolgassem. O mesmo aconteceu dois dias depois em São Paulo, em que o técnico de som foi vaiado).

“Interação”, assim como “chuva de cores” (e “garoa”, já que uma chuva fina não parou de cair), foi o termo da noite. Até mesmo os globos que simulavam meras lâmpadas de teto e as estruturas de iluminação se moviam, como se tentassem acompanhar o ritmo do aceleradíssimo Chris Martin, que corria de um lado para o outro sem cansar e se jogava no chão quando achava apropriado. A soma desses fatores acabou fazendo com que “Lovers In Japan” representasse um dos momentos mais memoráveis do show, quando chuvas de borboletas brilhantes foram lançadas duas vezes por todos os lados da pista. E “Lovers…” não é a única música de Viva La Vida or Death and All His Friends que funciona bem ao vivo: A própria “Viva La Vida” acertou o público em cheio, sem que a banda precisasse fazer muito – eram os espectadores que davam o clímax ao vociferar “oooh ooooh oh”. “Politik”, a minha preferida, deixou boa parte da platéia apática, mas a também formidável “The Scientist” quebrou o clima estático no segundo bis, logo antes do final do show. A apresentação ainda foi cortada por um remix brega de “Viva La Vida” (a esse ponto, “ooohs” já haviam cansado) uma rápida reprodução da temática “Singing In The Rain”, em que o quarteto deu uma espécie de Volta Olímpica pelas passarelas montadas.

As viagens visuais nos telões eram experiências à parte. “Glass of Water”, b-side lançada no EP Prospekt’s March, ganhou um dos backgrounds mais legais da noite, apesar de ser pouco conhecida. Outras músicas do EP causaram estranhamento ao público, mesmo tendo sido ouvidas com paciência e, ao que parece, admiração: Foi o caso da piano lullaby “Postcards From Far Away” e da deliciosa “Life In Technicolor II”, que se difere da primeira pela adição de vocais. Foi essa última, inclusive, que fechou o show em clima de réveillon, com uma digníssima e generosa (pra combinar com o setlist de 24 músicas) chuva de fogos. Ao fim do show, depois de tantos LEDs, neons, luzes e cores gritantes, tudo parece mais apagado, como se enxergássemos em preto branco. É sério.

  • cara, discordo totalmente em relação à forma como o Bat For Lashes foi recebido. eu vi foi muita gente dando moral pra eles, pessoas que nunca tinham ouvido falar da banda. e eu achei um ótimo show, apesar de, claro, a reação das pessoas não ser tão entusiasmada quanto a de quando o Coldplay entrou no palco – afinal, 99% das pessoas estavam lá por causa deles.

  • Concordo com o Bruno. Onde eu estava, pertíssimo da grande na pista comum, a cada música que a Bat For Lashes tocava, o pessoal ia aplaudindo mais e mais. Foram muitíssimo bem recebidos, ao contrário do Vanguart.

  • marcus

    eu senti sono no bat for the lashes, pra mim era musica de dormir D:
    fui no de sao paulo,pra mim foi perfeito o show,mas pena que teve esse problema de som lá. se eu fosse na arquibancada ficaria puto ;x

  • nolli

    em São Paulo o bat for lashes não foi bem recebido não, pelo menos por ninguém em um raio de uns bons metros de onde eu estava. O show, para mim, foi excelente.

  • Carol

    Bat for Lashes <3

  • Felippe Pompeo

    Eu fui em São Paulo. Não é muito incomum um show gringo ser um pouco baixo. Tenho a impressão de que eles (os gringos) se preocupam demais com as regras dos decibéis aceitáveis. Confesso que isso foi bem broxante. O pessoal da arquibancada passou por maus apuros. Em vários momentos todos eles gritavam “aumenta o som”, principalmente no momento em que o Coldplay foi para a parte esquerda do palco. Ao ouvir isso, Chris Martin fazia cara de “azedo”, não entendo o que ocorria – acho que ninguém falou para ele que o púbico estava descontente.
    Ainda nesse momento do palco do lado esquerdo, o violão de Martin simplesmente não foi para as PA’s (public audio). Acho isso imperdoável. A intenção em “acusticar” Shiver foi bacana, mas sem a base rítimica fica complicado de ser apreciar tal coisa. Do demais, até que foi legal… Mantive um sentimento meio apático… Acho que é porque eu fui no Radiohead.

  • Lara

    Mais uma ótima resenha. Concordo em absolutamente tudo.

    Sobre a Bat, eu já esperava ess recepção. Dos 30 mil, uns 50% ali era fã do Viva la Vida, um album muito mais comercial. Não estão acostumados com um clima Bjorkesco. Eu adorei, pelaa Natasha valeu a pena pegar aquela chuva toda! (E pelo Coldplay, é claro!)

    Um grande espetáculo, mas me pergunto se um megashow para muitos (quase) fãs era necessário. Se fosse em um espaço menor, talvez tivessemos mais barulho em músicas como Shiver e 42.